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24/11/2004
MARCELO BERABA
As capas da Folha e do "Estado" traduzem as insatisfações provocadas pelo governo Lula e suas políticas. Nenhuma crítica vinda da oposição, todas da base do governo ou de aliados.
A manchete do "Estado" é um balanço dos resultados das recentes negociações comerciais do Brasil com outros países, e reflete mais uma frustração com o desempenho do governo, além da permanente pressão do empresariado: "Exportadores atacam acordos comerciais".
A manchete da Folha é o discurso de Rolf Hackbart ao sem-terra e traduz a subida de tom: "Presidente do Incra ataca agronegócio e pede mais recursos". No "Estado", o título é mais direto: "Incra acusa agronegócio por mortes de sem terra".
O outro assunto é a conversa de Lula com seu ministério petista: "Ministros do PT criticam Palocci; Lula defende política econômica". No "Estado", "Lula prepara ministros para a degola de cargos".
Os dois jornais também tratam, na capa, da desvalorização do dólar, da pesquisa sobre a Aids e da crise na Ucrânia; e têm fotos de Serra com Marta. A Folha destaca a suspensão da liminar que censurou, ontem, reportagem sua sobre o filho do presidente do STJ; e o "Estado", a decisão de um juiz que limita em R$ 2.400 as pensões da Lei de Anistia, assunto que vem acompanhando há duas semanas.
Manchete do "Globo": "Receita Federal investiga 40 deputados estaduais do Rio".
Anistia
A Folha deu mal, com pouco destaque e sem memória ou contextualização, a decisão do juiz de Guaratinguetá (SP) que reduziu o valor máximo das pensões e indenizações para anistiados políticos do regime militar. A concessão de valores altos e desproporcionais vem provocando discussões no governo, na imprensa e na sociedade. O fato de a Folha ter entre seus colunistas e membros do Conselho Editorial um beneficiado pela anistia, Carlos Heitor Cony, é mais uma razão para o jornal dar visibilidade ao assunto.
Censura prévia
A Folha fez uma boa cobertura da liminar que impediu o jornal de circular com reportagem sobre o filho do presidente do STJ e a revisão da medida. Senti falta de um editorial.
O "Estado" tem reportagem sobre o processo contra Erick Vidigal e repercussão sobre a censura ("Reportagem sobre o caso foi proibida pela Justiça").
Não encontrei uma linha no "Globo".
Crise no governo
O jornal cobriu bem o discurso do presidente do Incra e o desconforto que provocou em parte do governo. Mas o "Estado" tem uma cobertura mais completa da crise ministerial provocada pelas críticas de parte do ministério petista à política econômica e pela iminência de mudanças no primeiro escalão do governo Lula.
O "Estado" e o "Globo" trazem novas críticas da ex-primeira-dama Ruth Cardoso ao governo Lula.
Economia
O "Estado" traz amplo material sobre política comercial. Segundo o jornal, a Fiesp e a AEB preparam documento pedindo mudanças na estratégia comercial do governo e no Mercosul. Há críticas em relação às negociações com os presidentes da China e da Rússia, que acabam de passar pelo Brasil. A cobertura da visita do primeiro-ministro canadense também está mais bem dada.
Agenda da transição
Fiquei sem entender, na reportagem "Marta libera prédio mais alto na Paulista" (capa da Edição SP de Cotidiano), se está liberada ou não a construção de prédios com mais de 24 andares na Paulista e, caso esteja liberado de fato, por que a Prefeitura assim agiu se uma nova lei entrará em vigor a partir de janeiro.
Ou o novo decreto vai permitir durante dois meses a aprovação de prédios mais altos, e isto parece ser um escândalo, ou ele realmente não tem qualquer efeito. No primeiro caso, a reportagem deveria ter sido mais explícita. No segundo, nem sei se valia reportagem.
Vitória
Está incompreensível e mal editada a arte "Exército nas ruas de Vitória", da pág. C4 da Ed. SP. Como a foto e a arte vêm logo abaixo da reportagem "Coronéis da PM são acusados de desvio no ES", só um leitor atentíssimo e interessadíssimo poderá supor que se trata de uma arte ligada à reportagem sobre a violência que tomou conta da cidade de Vitória desde domingo.
A arte não informa o que aconteceu em Vitória. Traz o número de soldados enviados para a cidade, mas não diz a razão; relaciona os suspeitos de uma "ação", mas não informa de que ação se trata; e faz uma memória do crime organizado no Estado. Mas não tem uma linha sobre o que ocorreu na cidade, a queima de ônibus.
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