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29/11/2004
MARCELO BERABA
A manchete da Folha de domingo é um estudo interessante de economia com um título incompreensível: "Recessão levou 35% dos anos desde 82".
A do "Estado" também é um estudo acadêmico: "Prefeitos herdam rombo de R$ 43 bi com a Previdência". O "Globo" tem dados novos da Receita Federal: "Receita dobra multas à indústria por sonegação".
As revistas:
"Veja" - "A medicina da alma - Psicólogos e médicos encontram o caminho para o equilíbrio mental combinando terapias e remédios" e "Lula e a 'despetização' do governo";
"Época" - "Aprenda a dizer não - Especialistas mostram que consumismo é o maior obstáculo para impor limites aos filhos" e "Chantagem no Congresso -- Câmara investiga deputados suspeitos de usar CPI para coagir empresas";
"IstoÉ" - "Ninguém está seguro", sobre o aumento da violência no país.
DOMINGO
"Fervura social"
A edição de domingo prevê quase sempre no seu cardápio um espaço reservado para o desdobramento de algum dos assuntos fortes da semana. É uma forma de aprofundar um caso que, no dia-a-dia, nem sempre tem espaço.
Com as manifestações e enfrentamentos ocorridos em BSB na quinta-feira (estudantes, sindicalistas e sem-terra), o jornal decidiu investir no que chamou de "Fervura social", páginas A4 e A6 de ontem.
Embora a decisão tenha sido correta, o material produzido pareceu improvisado, no sentido de que não deve ter havido tempo para desenvolvê-lo.
Isto fica claro na reportagem principal, "Governo prevê mais focos de tensão no campo e na cidade".
As informações que o jornal registra que colheu junto aos órgãos de "inteligência" do governo, e que são descritas para justificar os "cenários de acirramento das tensões no campo e nas cidades para 2005", são todas de conhecimento geral, já foram todas publicadas nos jornais. Não é possível que a PF, a Abin e a Saei existam e gastem recursos públicos para passar ao governo, e à Folha, informações que já foram publicadas em todos os jornais e fazem parte das agendas públicas dos movimentos. Vide ontem mesmo, no "Estado", a reportagem "MST promete muito barulho em 2005" e, na Folha, "Sem-terra articulam invasões" (pág. A6).
O problema da reportagem principal da Folha é que ela compra as análises dos órgãos do governo sem qualquer senso crítico, sem questionamento, sem apontar o ridículo de várias avaliações "oficiais".
Segundo o jornal, para estas agências a "conjugação destes fatores (ações dos sem-terra, mobilizações indígenas, greves de policiais, reajuste salarial de militares, guerra entre traficantes e greve de caminhoneiros) é vista com preocupação". Mas estes fatores todos já estão conjugados. Esta já é a realidade do país. O parágrafo seguinte diz que o alerta de crise fez acender uma "luz amarela" nos círculos da inteligência do governo. Luz amarela? É uma inteligência no mínimo alienada, porque a luz já é vermelha há muito tempo. Os enfrentamentos no campo e nas cidades já estão agravados há muito tempo. Se as análises que estes órgãos fazem da situação social do país é a que está no jornal de ontem, o país não precisa deles.
Talvez a chave para entender a indigência das análises e informações feitas para a Folha, e por ela publicada sem questionamento, esteja no parágrafo que diz: "As dificuldades [do governo] atingem até mesmo o levantamento de informações. Sem pessoal e mobilidade suficientes para monitorar todo o território, a Abin tenta obter ajuda da PF e das Forças Armadas". Enquanto não obtém a ajuda, poderíamos acrescentar, copia os jornais.
Na pág. A6, a reportagem "Sem-terra articulam invasões" informa que "a luz amarela do governo federal em relação aos conflitos do campo já estava acesa, mas ganhou força" nos últimos dias com a chacina dos sem-terra em Minas. Fala também em "potencial explosivo" do campo. O campo já está explodido, a luz vermelha já está acesa. Neste caso, João Pedro Stédile tem razão: para isso, não há necessidade de serviços de inteligência.
Que a Abin, a PF e Saei sejam tão primárias e óbvias até se entende; mas que o jornal não tenha senso crítico, é incompreensível.
O assunto _os problemas sociais que se multiplicam sem solução_ é importante. O jornal poderia ter trabalhado um pouco mais para apresentar uma reportagem consistente e com informações novas.
Detalhe:
> O jornal informa, no pé da reportagem principal da pág. A4, que o assunto continua na página A5. A página A5 é um anúncio.
Reportagem
Informação nova mesmo o leitor vai encontrar na coluna "No Planalto": "Arquivos do ex-SNI guardam 4 milhões de documentos". O jornal saiu das aspas e deu, pela primeira vez, uma dimensão de parte dos arquivos da ditadura. Nem o juiz que determinou a abertura dos arquivos tinha idéia do seu tamanho e das condições de preservação. Merecia uma chamada na primeira página.
Na fronteira
A reportagem "Crime organizado domina os sacoleiros" (pág. B13 de "Dinheiro") faz, na minha opinião, uma certa confusão com o conceito de crime organizado. Embora o texto se refira a uma organização criminosa, os casos descritos indicam que são grupos e grupos que atuam como quadrilhas, com organização interna mas sem as características de uma máfia ou cartel ou algo parecido. O caso descrito pelo jornal, por exemplo, é de um "patrão" de três laranjas e cinco taxistas.
Há uma grande organização criminosa? A reportagem se refere a ela na boca da PF, mas não descreve a organização. Em determinado trecho fala na "hierarquia dessa organização criminosa" e diz que "nesse esquema" [hierárquico] estão envolvidos diretamente 350 mil pessoas. Fica parecendo que pertencem todos a uma organização criminosa, e não creio que seja assim.
Não duvido que o crime organizado já domine parte do contrabando da fronteira. Mas a reportagem se fia apenas na PF, relata alguns fatos que demonstram o nível de organização do contrabando, insinua que é possível que o chinês Law Kin Chung preso em São Paulo esteja por trás de uma organização que atua na fronteira, mas não traz informações que demonstrem o funcionamento de uma (ou mais de uma) grande organização criminosa na área.
E a reportagem não faz referência às polícias e funcionários públicos. É impossível a montagem de um esquema deste sem a participação direta de policiais e fiscais. Aliás, vários deles foram presos meses atrás.
"Cotidiano"
A Edição Nacional do caderno "Cotidiano" poderia ter vindo com outro nome, "Saúde". Três das quatro páginas com reportagens e notícias são sobre doenças.
"Mais!"
Apesar do formato, que ainda me incomoda, o "Mais!" está com cara de "Mais!", sem a preocupação da semana passada de produzir impacto com uma reportagem típica de "Brasil".
SEGUNDA
Serviço
O jornal perde boa oportunidade hoje de prestar serviço a seus leitores. A notícia da capa da Edição SP, "Cratera fecha tráfego na avenida 9 de Julho", deveria ter vindo acompanhada de mapas com as várias alternativas de rotas para os motoristas, e não apenas um texto com os nomes das ruas para desvios.
Professora
E o caso da professora de Nova Odessa que teria esquecido de tirar um aluno do castigo? Ela colocou o menino de castigo ou não? Esqueceu ou não? Este caso precisa ser esclarecido.
Banco Santos
A reportagem (boa) de ontem advertia: "Banco Santos põe em dúvida agências de risco". Mas o Folha Invest de hoje publica texto que desorienta: "Análise de risco pode garantir mais segurança". No mínimo, deveria ter feito menção à reportagem de ontem que mostrava como estas avaliações de risco podem ser manipuladas pelos bancos. Foi o que ocorreu com o Banco Santos.
A crítica interna é de responsabilidade do ombudsman Marcelo Beraba. Circula diariamente na Redação da Folha e na Empresa Folha da Manhã S/A
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