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03/12/2004
MARCELO BERABA
Os três maiores jornais têm a mesma opção de manchete, a operação da Polícia Federal no Tribunal de Contas da União. A da Folha, corretamente, é cautelosa; a do "Globo", categórica.
Folha - "PF prende quatro servidores do TCU suspeitos de fraude";
"Globo" - "PF desmonta esquema de corrupção dentro do TCU";
"Estado" - "PF prende 10 por fraude no TCU".
Folha e "Estado" investem em educação e assuntos internacionais, mas com perspectivas diferentes. Folha destaca a aliança da Argentina e do Paquistão contra as pretensões do Brasil no Conselho de Segurança da ONU (e o material interno está melhor do que o do concorrente) e a crise no Haiti ("Líder de missão no Haiti vê pressão pelo uso da força"); o "Estado" privilegia a crise na Ucrânia.
A Folha tem duas boas atrações na sua primeira página: o novo dinossauro brasileiro e a entrevista exclusiva com a viúva do jogador Serginho.
Polícia em cena
A nova operação da Polícia Federal (Sentinela), realizada ontem, foi coberta pela Folha com três perspectivas: o relato das investigações e prisões, a reação política dentro do governo (José Dirceu e, principalmente, o deputado Professor Luizinho) e o questionamento dos métodos de ação da PF.
Acho que o jornal foi bem na cobertura (págs. A4 a A7) e explora melhor que seus concorrentes o questionamento dos métodos operacionais da PF. A defesa das megaoperações está bem destacada com as entrevistas com o ministro da Justiça.
Acho que a frase mais forte do ministro Márcio Tomaz Bastos ficou perdida no noticiário ("Ministro reclama de uso político da Polícia Federal", pág. A5), talvez porque tenha sido um off e o jornal decidiu não destacá-la. É quando Bastos, segundo a Folha em desabafo a amigos, fala do ministro da Casa Civil: "O problema do Zé Dirceu é que, se ele não está aparelhando a PF para atuar a favor dele, acha que alguém está aparelhando contra ele" .
É a mais forte porque provavelmente vai provocar novas crises e enfrentamentos internos, e porque revela uma visão equivocada de parte do governo sobre o uso das instituições. Não é nenhuma novidade, mas é sempre chocante quando dito por um ministro de Estado.
A Folha está na obrigação de tentar ouvir todos os acusados e seus advogados. O jornal foi corretamente cauteloso todo o tempo e o destaque que deu para o questionamento dos métodos da PF acaba funcionando como uma espécie de "genérico" do "outro lado". Mas é importante que fique mais claro de que forma cada um deles agiu no esquema de fraudes e o que têm a dizer.
E senti falta de uma reportagem com os PMDBs, o governista e o oposicionista. O deputado Professor Luizinho acabou servindo de porta-voz dos descontentes com a ação da PF, mas o jornal não relatou o que deve ter sido o dia de ontem dos peemedebistas. As ameaças, os desesperos, as comemorações, os conselhos, a decisão de não ir para as tribunas do Congresso, as provocações.
Detalhe: o jornal editou na pág. A4 da Edição Nacional a mesma foto da mulher presa que está na capa do jornal.
Justiça
O "Globo" informa que "No STJ, 110 desembargadores são investigados" e que o "número de casos aumentou quase 40% em cinco meses".
Cuba
Não vi na Folha a notícia da libertação de mais um prisioneiro político em Cuba, o jornalista García Diaz.
"Dinheiro"
O jornal trocou sua capa do caderno "Dinheiro". Começou a rodar com "Nova diretoria do BNDES provoca conflito" e mudou, na Edição SP, para "Preço do petróleo recua 12% em dois dias". Faz sentido.
Mas acho que o assunto mais importante foi o anúncio de que pode haver mais cortes nas despesas do governo federal. Segundo o jornal, "Alta do PIB pode ampliar o aperto fiscal" (B7). Não teria sido o caso de ter dado mais destaque, e de explorar melhor com alguma repercussão, o efeito perverso da alta do PIB? Se ocorrer um corte de mais R$ 2 bilhões em gastos públicos será uma ducha de água fria na euforia que tomou conta deste final de ano, não?
Maluf
Recebi, via Secretaria de Redação, o seguinte comentário do editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva:
"Sobre a nota "Maluf", da crítica interna de ontem: onde o ombudsman viu generosidade eu só vi ironia".
Acredito.
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