Ombudsman Folha   Folha Online
 
09/12/2004

MARCELO BERABA

A foto de Lula em Cusco, com os coloridos trajes típicos do Peru, domina as capas dos principais jornais e as torna muito parecidas. A Folha ainda faz um jogo visual com a foto do pôster de Saddam Hussein com o gorro de Papai Noel.

Folha e "Globo" dão manchete para a decisão do governo de rever a lei do aborto; "Estado" e "JB" optam pela crise do PMDB.

As manchetes:

Folha - "Planalto cria grupo para rever a lei do aborto".

"Globo" - "Governo Lula decide rever a lei do aborto".

"Estado" - "PMDB dá ultimato a governistas e vive rebelião".

"JB" - "Oposição do PMDB derrota Planalto".

"Valor" - "Indústria pede prorrogação da proteção a brinquedos".

"Gazeta Mercantil" - "Volta a concessão das rodovias para iniciativa privada".

Revolta na base

O jornal não registrou que o presidente do PMDB votou duas vezes na reunião do Diretório, a primeira empatando a votação e a segunda desempatando. Não sei se é ilegal, como protestaram os governistas derrotados, mas foi um dos fatos que contribuíram para o clima ficar ainda mais exaltado, segundo outros jornais.

Herança militar

O relato que a Folha faz da entrevista com o ministro da Justiça a propósito das novas regras para o acesso aos arquivos públicos se distingue dos outros jornais por revelar que o governo Lula manterá a possibilidade de alguns documentos permanecerem eternamente em sigilo. Se confirmadas as informações da reportagem "Lula revoga lei de FHC e cria novo sigilo eterno" (pág. A6 da Edição SP, e A8 na Edição Nacional), as novas regras manterão na essência o antigo decreto presidencial. A novidade é a criação de uma comissão interministerial que decidirá critérios para a abertura.

A cobertura da Folha não reflete bem o que foi o comportamento do governo Lula neste assunto. O decreto foi sancionado por FHC no final de dezembro mas só entraria em vigor 45 dias depois. O governo Lula poderia ter revogado antes de entrar em vigor e não o fez, apesar de advertido pelo Conselho Nacional de Arquivos (vide entrevista com a historiadora Célia Maria Leite Costa no "Estado") e por outras entidades. Por conveniência política ou qualquer outra razão, o governo ignorou todos os apelos para revogar o decreto e só começou a se mexer realmente quando estourou o caso das fotos que se supunha serem de Vladimir Herzog.

O texto da Folha, na Edição Nacional, não conta bem esta história: "Desde o ano passado o governo Lula credita a FHC a criação do mecanismo de sigilo eterno dos documentos e critica o ex-presidente pelo decreto de 2002, editado quatro dias antes do término do segundo mandato do tucano". Em primeiro lugar, não é que o governo Lula credite a FHC a criação do mecanismo de sigilo eterno, foi o governo FHC que decretou o sigilo eterno. Isso é fato, não precisa ser creditado. Em segundo lugar, o governo Lula não precisava criticar, bastava revogar.

Pinochet

Está mais bem explicada hoje, na Edição SP, a história do dinheiro do ex-ditador Augusto Pinochet, "Chile contesta papéis sobre dinheiro de Pinochet que envolvem até Brasil" (pág. A6 na Ed. SP e A8 na Ed. Nacional). Mas há um ruído: o texto primeiro informa que o documento que justifica a origem do dinheiro de Pinochet nos EUA "é provavelmente falso". Mais adiante, o ministro interino da Defesa do Chile diz que questiona se o documento "existe ou não". Uma coisa é existir o documento e ele ser falso. Outra, é não existir o documento.

Mundo

Na Edição Nacional, três títulos seguidos: "EUA aprovam a reforma na espionagem", "Parlamento ucraniano aprova reforma" e "Câmara Alta russa aprova reforma de Putin". É muita aprovação. Na Edição SP, um título foi mudado, para pior: "Rússia veta eleição direta para governador". A Rússia não vetou a eleição direta para governador; ela acabou com a eleição direta para governador.

Fome

O jornal procurou saber se o número de brasileiros que passavam fome entre 2000 e 2002 era realmente 15,6 milhões, como está no relatório da FAO? Este número foi checado com dados oficiais do Brasil? É bom lembrar que em outras ocasiões recentes os números divulgados por organismos mundiais não foram confirmados.

Marta Suplicy

Está mais rico de detalhes o relato do "Estado" a respeito do passeio que a prefeita de SP fez ontem pelo centro de Milão.

Turismo

Parecem dois releases dos hotéis os textos da última página do caderno "Turismo", "Hotel oferece sossego em meio ao burburinho" e "Nos quartos do fundo, pousada tem vista para a mata nativa".

     
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