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21/12/2004
MARCELO BERABA
O "Globo" tem a melhor manchete porque desmistifica a mudança na tabela do Imposto de Renda anunciado pelo governo na semana passada: "Correção do IR não inclui deduções e cai para 7%". Ainda segundo a manchete do jornal, "Benefício para muitos contribuintes será pouco ou nulo, dizem tributaristas". Folha e "Estado" optam pela queda do dólar, mas o título da Folha apenas constata a queda, enquanto o do "Estado" acrescenta uma conseqüência importante:
Folha - "Dólar fecha a R$ 2,677, menor valor desde 2002";
"Estado" - "Real forte vai derrubar saldo comercial em 37%".
"Cotidiano"
Não há edição no caderno "Cotidiano" de hoje que circula no Rio (Edição Nacional, concluída às 20h17). Os problemas que vejo:
- As matérias estão simplesmente colocadas nas páginas, sem um apuro no acabamento, sem qualquer preocupação em buscar recursos gráficos que tornem as páginas mais bonitas e atrativas.
- As fotos servem apenas para dizer que o caderno tem ilustrações. As fotos da Oca (C2), do enterro do deputado Albano Reis (C3) e da praia de José Menino (C3) são completamente dispensáveis, nada informam, não têm nenhuma qualidade especial que justifique a publicação, exceto a necessidade de ter de ilustrar. Mesmo a foto da capa, da carcaça do ônibus atingido por um caminhão no Rio Grande do Norte, não faz jus à Folha. Neste último caso, por exemplo, para o leitor do jornal que está às vésperas de viajar de férias seria mais importante o mapa do local do acidente com outras informações sobre a causa do acidente e as condições das estradas na região. E a foto poderia ter sido publicada menor.
- A reportagem principal ("Caminhão tomba, atinge ônibus e mata 18") é apenas descritiva do acidente. É um acidente grave, com um número de mortos que justifica um destaque do jornal. Mas para os leitores da Folha que estão espalhados pelo Brasil interessa, além dos detalhes do acidente, algumas informações a mais: foi por causa da estrada? Está tendo muitos acidentes esta época do ano nas estradas do Nordeste?
- Há alguma coisa errada no critério de avaliação do acidente. Na Edição Nacional, que circula no Brasil inteiro, com exceção da cidade de SP e de Brasília, a notícia ocupou a meia página livre da capa do caderno. Na Edição SP, no entanto, virou um mero registro (pág. C4). Ou o acidente foi superdimensionado na Edição Nacional, ou foi subdimensionado na Edição SP.
- O jornal criou um selo diferente para o noticiário sobre o verão. Ótimo. Todo ano ele tenta fazer uma cobertura sobre a estação de praias, viagens e férias. Mas para isso não basta o selo, é necessário investir em reportagens e na edição. Como está hoje no jornal, não faz qualquer diferença.
- Na página C4, a foto-legenda do pai do Robinho cai de pára-quedas, não tem nada a ver com o resto da página, que trata de saúde e educação. O noticiário policial está na página anterior.
- E o artigo da economista Sônia Rocha, que havia sido publicado ontem na Edição SP, está jogado na página sem um selo, sem uma indicação, sem nada que o diferencie dos outros assuntos da página, saúde e educação.
A Edição Nacional de "Cotidiano" está com quatro páginas, enquanto a Edição SP está com oito. Esta diferença é lamentável, mas não pode justificar uma edição mal acabada.
"Esporte"
A Folha informou ontem, na pág. D11 ("Game abre festa do país no melhor da Fifa"):
"Ronaldinho era tido como favorito ao prêmio de melhor jogador da temporada, mas ontem dois importantes dirigentes indicaram à Folha que o ucraniano Shevchenko será o vencedor".
O vencedor acabou sendo Ronaldinho ("Mágica supera gols e dá a Ronaldinho o trono da Fifa", capa de "Esporte"), e com mais do que o dobro dos votos do ucraniano. Para quem, como eu, acreditou que a Folha estava bem informada, era de esperar que houvesse alguma menção hoje à informação errada passada pelos tais dois "importantes dirigentes". Ou a votação é tão secreta realmente que ninguém consegue saber antes o resultado (e Ronaldinho, na reportagem, indica isso), o que é uma raridade, ou os tais "importantes dirigentes" induziram propositalmente o jornal a erro. De qualquer forma, merecia uma menção do jornal. E como leitor espero que estes dois "importantes dirigentes" estejam queimados como fontes.
Primeiro Emprego
Os ministros Ricardo Berzoini (Trabalho) e Gilberto Gil (Cultura) visitaram ontem uma favela do Rio, a Vila do João, na Maré, onde lançaram um programa governamental de qualificação profissional para jovens. A Folha apenas relatou a visita e deu informações sobre o programa ("Trabalho prevê criação de 70 mil vagas", pág. A6 da Ed. Nacional, reduzida a um texto-legenda na Ed. SP). O "Estado" no entanto, tem informação mais importante: "Tráfico deixa Berzoini subir o morro". Segundo o jornal, a ong que organizou a festa pediu a autorização via Associação de Moradores.
Todo mundo sabe que ninguém entra nas favelas do Rio dominadas pelo narcotráfico sem autorização dos traficantes. Mas o fato de ministros de Estado precisarem pedir licença ao tráfico para circular deveria ser considerado sempre um escândalo e, portanto, notícia.
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