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27/12/2004

MARCELO BERABA

O terremoto no oceano Índico e a devastação das costas de vários países asiáticos são as manchetes de praticamente todos os jornais de hoje.

Folha - "Maremoto mata 12 mil na Ásia".

"Estado" - "Terremoto deixa 12 mil mortos e 2 milhões de desabrigados na Ásia".

"Globo" - "Ondas gigantes matam 12 mil em 7 países da Ásia".

Os jornais do Rio deram destaque para mais um episódio da guerra do tráfico:

"Globo" - "Tráfico queima rivais no Centro" --é isso mesmo, queimar no sentido de colocar fogo; no Centro da cidade.

"Extra" - "Invasão ao Morro da Mineira causa pânico e mata um".

"O Dia" (que traz fotos na capa do corpo incendiado) - "Queimado no asfalto".

As manchetes de DOMINGO:

Folha - "Aprovação a Lula sobe dez pontos em quatro meses".

"Estado" - "Pobreza cai 25% no País, mas resiste nas metrópoles".

"Globo" - "Falta de médico não deixa rede de hospitais crescer".

DOMINGO

A Folha de DOMINGO vale pelas duas páginas de entrevistas com Chico Buarque na "Ilustrada".

Mesmo com a ausência do "Mais!" e da "Revista", o jornal está surpreendentemente bom para o domingo pós-Natal sem notícias. Além da entrevista e da reportagem com Chico Buarque, destaco a continuação das investigações do Banco Santos ("BC apontou problema no Banco Santos já em 2001").

A pesquisa Datafolha que avalia o governo federal ("Aprovação a Lula sobe dez pontos em quatro meses") e o ranking dos clubes brasileiros ("Ranking 2004"), embora façam parte do previsível calendário de final de ano, são dois esforços planejados para oferecer um jornal com algum conteúdo.

Uma observação em relação à entrevista com Chico Buarque. Na página E5, o compositor se refere a "um pessoal na altura do Jardim de Alá que desce ali e ocupa a praia". O jornal tentou explicar do que se trata com uma informação equivocada: "...[moradores de um cortiço na rua do canal que divide Ipanema e Leblon]...". Não há cortiço ali, mas um conjunto habitacional popular, conhecidíssimo, com nome e sobrenome, Cruzada São Sebastião.

Coincidência ruim: a página A2 tem artigo ("O direito à verdade no regime republicano") e carta ("Lição") de Fábio Konder Comparato.

Tem problemas a entrevista da pág. A11 com o governador de Minas, "Aécio defende unidade para derrotar o PT". Como não está em forma de pingue-pongue, o texto poderia ter sido contextualizado e deveria ter inserido questionamentos em alguns trechos da entrevista.

O governador diz, por exemplo, que "as eleições deixaram o PSDB fortalecido como nunca havia ocorrido desde a sua fundação". E as duas eleições presidenciais que o partido venceu com Fernando Henrique Cardoso? Segundo Aécio, o PSDB não é um partido dividido. Não? O próprio jornal fez reportagens recentes mostrando as divisões do partido. Quando o governador se refere ao "primarismo político", que seria tratar da disputa para o Planalto em 2005, o jornal deveria lembrar a disputa interna do PSDB, com o lançamento da candidatura do governador Geraldo Alckmin.

E a entrevista não faz qualquer referência à estratégia de mídia do próprio governador de Minas.

A entrevista apenas reproduz o que o governador quis dizer, sem o enriquecimento jornalístico que o leitor merecia.

A entrevista com o ator Erland Josephson (pág. E12) é ilustrada com uma foto em que ele não aparece.

Banco Santos

A série (bem feita) de reportagens que a Folha vem trazendo sobre a situação do Banco Santos antes da intervenção deveria suscitar uma reflexão jornalística.

O "Manual da Redação" orienta corretamente para que o jornal não publique informações que possam colocar em risco empresas ou a vida de pessoas. Boatos sobre a fragilidade financeira de bancos estão cobertos por este verbete, e nem a Folha nem qualquer outro jornal publicaria uma informação não comprovada que pudesse ameaçar uma instituição financeira, provocando uma corrida aos caixas. Dito isso, vamos à reflexão.

As reportagens que a Folha tem publicado mostram que os problemas do Banco Santos são antigos. A reportagem de ontem --"BC via problema no Banco Santos desde 2001", capa de "Dinheiro"-- prova que o BC tinha conhecimento de operações suspeitas desde 2001, mas não agiu por formalismo. Ou seja, a fiscalização do BC é insuficiente para garantir a saúde financeira das instituições bancárias e a proteção dos investidores. Como os jornais não acompanham as gestões dos bancos (e das empresas em geral) e não dão a atenção devida aos problemas que vão surgindo, preferindo cobrir os balanços (sem descobrir que são maquiados) e os lançamentos de produtos, os bancos ficam protegidos (pelo BC e pelo silêncio dos jornais), mas os leitores/investidores ficam descobertos. No final, eles (leitores/investidores) arcam com os prejuízos sozinhos; supunham que estavam investindo com riscos sem saber que já não havia risco, mas perda certa.

SEGUNDA

Estão bem parecidas as coberturas do terremoto na Ásia nos três jornais. Não vi muitas diferenças, exceto em alguns relatos da tragédia. "O Globo" deu mais espaço para a arte, o que se justifica em casos como este.

Somente na Edição SP, fechada às 22h59, a Folha informa que uma pessoa foi queimada no centro do Rio pelo tráfico. Embora o assassinato tenha ocorrido cedo, a Edição Nacional não traz a informação.

     
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