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03/06/2005

MARCELO BERABA

A manchete da Folha, "Operação abafa da CPI custa R$ 400 mi", carece de comprovação. Para ser fiel ao texto do jornal -"a nova operação do governo para tentar abafar a CPI dos Correios custará ao Planalto R$ 400 milhões em emendas parlamentares" - o máximo que o jornal poderia arriscar seria algo do tipo "Operação abafa da CPI poderá custar R$ 400 mi". Há uma diferença grande entre o jornal ter a informação de que a estratégia do governo prevê, em caso de não conseguir derrotar a CPI na CCJ da Câmara, liberar a grana de emendas de parlamentares fiéis para que a enterrem em plenário e o governo já ter de fato liberado grana apenas para os deputados fiéis. O título interno é cauteloso: "Operação contra CPI envolve R$ 400 milhões em emendas".

As manchetes dos outros jornais:

"Estado" - "Contra CPI, Palocci abre os cofres".

"Globo" - "Diretor do Ibama e mais 84 são presos por desvio de madeira".

"Valor" - "Brasil prepara barreiras contra têxteis da China".

"Gazeta Mercantil" - "Incerteza impede Maggi de expandir o plantio".

Watergate

É uma pena que o jornal não tenha a tradução do texto em que o jornalista Bob Woodward conta, no "Washington Post", sua história com Mark Felt, o "Garganta Profunda" do caso Watergate. Dos jornais que li, apenas o "Globo" publicou a íntegra do texto, e as duas páginas gastas se justificam. É um depoimento histórico.

Governo sob pressão

Não duvido que este governo, como outros que o precederam, possa estar usando a liberação de verbas orçamentárias para negociar apoio no congresso. Mas a reportagem de hoje (manchete e página A4) estará sujeita à comprovação. Como o texto informa, a primeira etapa da estratégia do governo é derrubar a CPI na CCJ. Portanto, se for vitoriosa, a proposta não chegará ao plenário. Ainda segundo o jornal, o governo já concluiu que possui votos suficientes para derrubar a CPI no plenário caso ela sobreviva à CCJ. Se tem essa maioria garantida, por que precisa negociar o destino das verbas (R$ 400 milhões) que, segundo o próprio jornal, foram liberadas por outras razões que não a CPI?

A Folha vem acompanhando de perto a liberação de verbas para as emendas dos parlamentares e tem associado as liberações a negociações no Congresso. Antes mesmo do escândalo dos Correios o jornal anunciou a liberação de R$ 150 milhões para "fortalecer líderes de partidos aliados e enfraquecer o comando do presidente da Câmara" (2 e 5/5). Depois da denúncia da "Veja" o jornal informou (23/5) que o governo montara uma ofensiva para forçar a retirada de assinaturas no pedido de CPI encaminhado pela oposição: "Planalto faz 'operação abafa' para evitar CPI". O texto se referia à liberação de verbas para as emendas dos congressistas. No dia seguinte, o jornal atribuiu à pressão que o governo sofre a liberação de despesas bloqueadas: "Governo federal desbloqueia R$ 773 milhões". Este texto contém uma informação que não foi levada em conta: "O desbloqueio foi anunciado ontem porque era o último dia do prazo fixado pela Lei de Responsabilidade Fiscal para a revisão das projeções fiscais do segundo bimestre do ano".

No dia seguinte, 25/5, o jornal informa, sempre sob o chapéu "Governo sob pressão": "Governo libera R$ 200 mi a parlamentares". No dia 26, outra notícia: "Governo libera R$ 12,2 mi em apenas um dia".

Como disse, não duvido que o governo possa estar negociando verbas destinadas a emendas para parlamentares em busca de apoio político no Congresso. Mas está na hora de o jornal organizar estas informações. Quanto, afinal, foi liberado desde o início de maio e antes mesmo do escândalo dos Correios? Quanto depois? Foi tudo para negociação no Congresso? Quem se beneficiou de fato?

Sem esta consolidação e a comprovação das negociatas fica difícil entender o que se passa além da denúncia genérica que associa as liberações ao empenho de apoio. Como o jornal, corretamente, está atento às negociações parlamentares, é sua obrigação buscar formas de comprovação do que vem divulgando como "estratégia" do governo.

O "Estado" também noticia a liberação de verbas na manchete ("Contra CPI, Palocci abre cofre") e internamente ("R$ 1,5 mi para cada deputado contra a CPI"). A reportagem da Folha é toda em off, apuração do jornal. A do "Estado" tem uma fonte revelada, o líder do PL, deputado Sandro Mabel (GO).

O noticiário de hoje, francamente desfavorável ao governo federal (págs. A4, A5, A6, A7 e A8), exigia a reserva de um espaço com destaque para que o Planalto ou a base aliada no Congresso tentasse explicar a estratégia de liberação de verbas em troca de apoios.

Quatro títulos das páginas A6 e A7 Edição Nacional de Brasil revelam como o noticiário político está sustentado por declarações: "Renan diz que vai indicar nomes para CPI", "Lula não mexerá em equipe, diz senador", "Governo não deve temer verdade, diz cardeal" e "Quem não deve não teme, diz Vidigal". Os dois últimos, que até rimam, foram mudados na Edição SP.

Política externa

Não ficou claro para mim, na reportagem em que a Folha se recupera do furo que levou ontem em relação à reformulação da ONU, se a China pode vetar a reforma. O título informa que "China veta Conselho de Segurança ampliado", mas a reportagem diz que a reforma precisa ser aprovada por maioria de dois terços dos países. Fica a dúvida: neste caso, o poder de veto que a China detém no Conselho de Segurança se aplica à votação da matéria no plenário? Se sim, o título está correto, mas a reportagem deveria ter sido mais clara. Se não, o título está errado.

O "Estado" traz novas informações sobre as relações Brasil-China: "Agora, China se opõe à permanência da força de paz brasileira no Haiti".

Entrevista

É a segunda entrevista que a Folha publica em menos de dois meses com o empresário Antônio Ermírio de Moraes, titular da coluna vertical da página A2 de domingo ("Lula precisa viajar menos e trabalhar mais, afirma Ermírio", na capa do jornal, e "Para Ermírio, Lula precisa trabalhar mais", na pág B7).

Máfia verde

É estranho a edição de uma reportagem de polícia na página de Ciência ("PF desmonta esquema de madeira ilegal", pág. A17), mesmo se tratando de meio ambiente.

Está errada a remissão na primeira página da Edição Nacional. A reportagem está na pág. A17, e não na A15.

Funcionalismo

A reportagem sobre a greve do INSS ("Greve do INSS pára 96% das agências em SP", pág. B6) deveria ter tido mais preocupação com a prestação de serviço do que no relato da extensão do movimento. Para o leitor que precisa do INSS seria mais importante uma arte com as informações que estão no texto a respeito de como proceder em cada caso do que a que mostra as áreas do funcionalismo paradas. Serviço e orientação nunca são demais.

Aliás, como o jornal faz na reportagem "Lei de fila em banco valerá em setembro", editada na mesma página.

Plágio

Achei bem consistente a reportagem em que a Folha compara o livro assinado pelo técnico Carlos Alberto Parreira com o escrito por Charles Hughes ("Único livro de Parreira, o teórico do futebol, é plágio"). O técnico minimiza o fato de o livro lançado pela CBF literalmente copiar passagens inteiras da obra inglesa, mas os trechos traduzidos não deixam dúvida. O outro lado está bem protegido. E há um bom material de apoio (perfil de Hughes, informações sobre direitos autorais, a trajetória de Parreira e o uso comercial do livro).

Carioca

Está errada a frase que abre a reportagem sobre os hospitais do Rio ("Rio volta a enfrentar crise em hospitais", capa da Edição Nacional e pág. C7 da Edição SP): "Cariocas voltaram ontem a enfrentar problema...". Carioca é quem nasce na cidade do Rio; no Estado, é fluminense. Como, entre os hospitais atingidos, havia um de Duque de Caxias, o gentílico está errado.

     
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