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27/07/2005
MARCELO BERABA
As manchetes da Folha, "Estado", "Globo" e dos principais jornais brasileiros são praticamente as mesmas: a afirmação da mulher de Marcos Valério, Renilda, na CPI dos Correios, de que o ex-ministro José Dirceu sabia dos empréstimos tomados em bancos pelas agências de publicidade para repassar para o PT e partidos aliados. Dirceu nega, mas só o "Estado" registra a defesa do ex-ministro no título principal.
O "Valor"dá pouca importância ao depoimento e noticia o "mensalão" com outra perspectiva: "Governo se move para atenuar efeitos da crise".
A notícia de que o esquema de Marcos Valério já funcionava em 98 e a favor do PSDB de Minas, revelada ontem pelo "Globo", está nas capas da Folha e do "Estado".
A Folha destaca ainda mais um subproduto da última pesquisa Datafolha: "Lula é político mais honesto do país para 19%, diz Datafolha". Não sei se o título mais apropriado não seria o escolhido para o texto interno: "Para 49% da população, não existe político honesto". Refletiria melhor o descrédito que se generaliza.
Painel do Leitor
A carta da assessoria de imprensa da Caixa ("Caixa Econômica Federal", publicada no "Painel do Leitor" de ontem) exigia uma resposta do jornal. O assessor afirma que o jornal tergiversou, omitiu informações e "faltou com a verdade" na reportagem "Relatório denuncia desvio da Caixa para campanhas do PT". Das duas, uma: o assessor tem razão e o jornal deveria reconhecer seus erros explicitamente; o jornal tem razão, e seus leitores deveriam ficar cientes de que não errou.
A propósito, esta carta, como tantas outras com versões de empresas ou organismos públicos a respeito de reportagens publicadas pelo jornal, estaria melhor fora do "Painel do Leitor", no corpo do jornal, como continuidade da apuração jornalística.
O mesmo argumento vale para duas cartas de hoje que, além de trazerem a defesa de seus signatários, contém notícias. "Mensalão", assinada pelo ex-ministro Luiz Gushiken, e "Transporte", do secretário municipal de Transportes, Frederico Bussinger, trazem informações, e não opiniões ou comentários, e como tal deveriam ser tratadas. Dar um tratamento jornalístico a estas correspondências (legítimas) valorizaria os temas abordados e abriria mais espaço no "PL" para os comentários dos leitores. A edição de hoje, por exemplo, não tem um comentário sobre o depoimento prestado pela mulher de Marcos Valério ontem na CPI. O que acharam os leitores da Folha? Ela foi convincente? Mentiu? O "Globo", por exemplo, teve espaço para 16 mensagens enviadas ontem mesmo, no correr do depoimento, por e-mail. É claro que o jornal fica mais quente e oxigenado com a participação dos leitores.
Escândalo do "mensalão"
O que faz a foto do presidente de Botsuana perdida entre três textos da página A7 relativos ao escândalo do "mensalão"? Descuido? Calhau?
Por que a Folha não detalhou para os seus leitores a transação comercial que a levou a depositar R$ 223 mil na conta da DNA? O texto "DNA recebeu de empresas de comunicação" (pág. A7 da Edição SP) é genérico.
Imagino que uma explicação do jornal seria algo simples, do tipo: o depósito da Folha na conta da DNA foi feito no dia tal para pagar à agência pelo anúncio tal que fez publicar no jornal no dia tal. Perdeu uma ótima oportunidade de se mostrar transparente e de se exigir o mesmo tratamento que está dispensando às outras empresas que tiveram transações comerciais com as agências de publicidade de Marcos Valério, como as telefônicas instadas a se explicar no texto "Empresas afirmam que pagaram por serviços de agência de Valério" (A7).
A propósito do relato "CPI não recebe lista de parlamentares" (pág. A8 da Ed. SP), daqui a pouco será necessário a abertura de uma CPI da CPI dos Correios, tantos são os documentos dados como sumidos.
A edição do depoimento de Renilda de Souza está mais caprichada (comentários de um psicanalista, crônica de Mônica Bergamo)do que as anteriores. Mas:
1 - O jornal não explora as contradições do depoimento.
2 - A edição estaria melhor se o jornal se preocupasse em deixar mais explícitas as razões pelas quais considerou importantes os trechos do depoimento em que Renilda fala do envolvimento de José Dirceu nos empréstimos bancários (o fato de ter conhecimento piora a sua situação? Por que?), no responsabilidade dos outros sócios nas assinaturas dos cheques (diminui a responsabilidade do seu marido?) e no que o "Painel" chamou de "sinais de alerta" para o PSDB (quais foram? Por que podem ajudá-la no correr das investigações?).
"Mundo"
É quase impossível a leitura da tira "Doonesbury" reproduzida pela Folha na página A13 ("A flor de Karl Rove").
"Ilustrada"
Leitor reclama, aparentemente com razão, da reportagem "Marlene Mattos troca TV pelo rádio", na pág. E6. Em que rádio Globo a empresária vai lançar o novo programa? Na de São Paulo, na do Rio, na de BH? Ou será em cadeia nacional?
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