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01/08/2005
MARCELO BERABA
No SÁBADO, as manchetes foram parecidas: "Valério pagou cúpula do PP, diz assessor" (Folha), "Assessor diz que pegava dinheiro para o PP" ("Estado") e "Assessor confessa que levava malas de dinheiro para o PP". São referências ao depoimento de João Genu à Polícia Federal na sexta-feira.
No DOMINGO, o foco dos jornais e da "Veja" foi o deputado José Dirceu. A Folha teve uma informação importante, a declaração da diretora da SMPB, Simone Reis de Vasconcelos, de que autorizou Roberto Marques, assessor de Dirceu, a sacar R$ 50 mil na conta da agência no Banco Rural: "SMPB liga Valério a assessor de Dirceu". A informação confirmaria uma das reportagens de "Veja". A capa da revista informa que o ex-ministro está ameaçando o governo e que seu assessor teve autorização para o saque: "O risco Dirceu". O "Globo" também considerou relevante a informação de "Veja" e repercutiu com petistas: "Após nova denúncia, PT já defende ida de Dirceu à CPI". O "Estado" optou por dar destaque à reportagem que consolida o resultado das investigações e depoimentos até agora: "Investigação já ameaça 12 mandatos na Câmara". As cassações são o assunto da capa da "Época": "O povo pede cabeças", resultado de uma pesquisa de opinião.
Na falta de fatos novos relevantes sobre o "mensalão", as edições de HOJE, SEGUNDA, dos três grandes jornais apelam, em suas manchetes, para a agenda da semana. As manchetes do "Estado" e do "Globo" fazem menção ao depoimento hoje, na Polícia Federal de Minas, da diretora da SMPB: "Assessora de Valério promete dar lista de 52 beneficiados" ("Estado") e "Gerente de Valério depõe hoje e deve dar novos nomes". A Folha, que no domingo antecipara uma das informações importantes da diretora da SMPB, hoje ignorou o depoimento na PF e priorizou a agenda da CPI dos Correios: "Para relator, depoimento de Dirceu é inevitável". Como o próprio jornal já noticiou exaustivamente que o ex-ministro depõe amanhã na Comissão de Ética, a avaliação do relator da CPI não tem tanta importância e parece notícia velha. Ou falta de notícia.
A revista "Carta Capital" aponta o foco para o empresário Daniel Dantas: "Na mira da CPI". E a "IstoÉ" foi ouvir os filhos dos que viraram alvo das CPIs: "O drama dos inocentes".
Outras manchetes de hoje:
"A Tarde", de Salvador: "Planalto abandona José Dirceu".
"Estado de Minas": "Artilharia de Marcos Valério - BMG empregou ex-mulher de Dirceu e Rural financiou apartamento em SP".
Escândalo do "mensalão"
Faltou Minas na edição de hoje da Folha.
Os jornais "Estado de Minas" e "Correio Braziliense" antecipam o que podem ser algumas munições que a diretora da SMPB oferecerá hoje à PF contra José Dirceu: "A interlocutores, o publicitário afirma que Dirceu solicitou dois favores às instituições financeiras. Primeiro, pediu à cúpula do BMG um emprego para a ex-mulher, Ângela Saragosa. E conseguiu um empréstimo de R$ 200 mil no banco Rural para comprar um apartamento em São Paulo, também para a ex-mulher".
Para o "Globo", o advogado da diretora da SMPB adiantou que ela deve divulgar novos nomes de destinatários do dinheiro. Para o "Estado", deu até um número: "Assessora de Valério apresentará lista com 52 que fizeram saques". Segundo o advogado, ela "vai contar tudo o que sabe". A ver.
Tenho insistido na necessidade de o jornal juntar as informações, evitar o retalhamento, aquele varejo que não permite ao leitor entender bem a importância dos dados apresentados. Dois exemplos de como a falta de consolidação das informações (ou seja, falta de edição dos textos) pode trazer mais confusões do que esclarecimentos.
Hoje, segunda, páginas A8 e A9 - A reportagem "PT, PL e PP registram sobra de dinheiro em caixa no fim de 2004" informa que a prestação de contas das campanhas municipais do PT em 2004 apresenta uma sobre de R$ 51,2 mil. É o dado que o PT teria encaminhado ao TSE. A reportagem da página seguinte ("PT se opôs a medidas de controle do TSE"), no entanto, informa que nas contas de 2004, o PT apresentou um déficit de R$ 20,480 milhões. Imagino - ou seja, estou deduzindo - que sejam contas diferentes, que os dois dados estejam certos. Mas o jornal não se preocupa em informar as diferenças, não edita as reportagens de uma forma que o leitor perceba que elas têm ligação uma com a outra, que os números não são contraditórios. O PT teve sobra ou déficit?
Ontem, domingo, na página A13, o jornal noticiou que a CPI ainda não conseguiu identificar todos os repasses feitos por Marcos Valério com o dinheiro dos empréstimos bancários: "CPI vê rombo de R$ 16,4 mi na versão Delúbio-Valério". Na página A15 ("CPI descobre cheques em série com o mesmo valor"), o jornal faz referência ao total de saída de dinheiro das empresas de Valério, R$ 75,9 milhões.
E hoje ainda, a coluna "Mercado aberto" (pág. B2) informa que "Saques no Rural somam R$ 36 milhões", um total "bem próximo dos empréstimos de R$ 39 milhões contraídos nos bancos BMG e Rural".
Não consigo acreditar que os leitores estejam conseguindo fixar tantos valores. Assim como tenho a impressão de que nesta altura ele já não sabe mais distinguir, entre as dezenas de fatos novos diários, o que é importante e o que é detalhe, o que está comprovado e o que é apenas suposição, o que é crime e o que é irregularidade.
O jornal gastou tanto espaço no domingo com entrevistas, sides e memórias, que poderia ter destinado algum espaço para a arrumação dos fatos. A Folha está desatenta para este trabalho de edição.
O "Globo" de domingo traz um grande infográfico que ajuda o leitor a se situar melhor nesta avalanche de denúncias e investigações: ali estão os crimes que surgiram até agora (19) e os personagens investigados por cada crime. Outro infográfico explora os esquemas de corrupção que surgiram ("mensalão", caixa dois, empréstimos e corrupção nas estatais). E um terceiro aponta todos os parlamentares que estão ameaçados de cassação. O "Estado" faz um esforço semelhante, mas sem o mesmo investimento do "Globo".
O "Valor" informa hoje que o governo federal vem liberando mais recursos para as emendas de parlamentares que não assinaram o pedido da CPI dos Correios do que para os que assinaram: "Governo libera recursos para quem foi contra investigação".
Entrevistas de domingo:
Acho mais do que apropriado o jornal entrevistar o prefeito José Serra a respeito da crise, afinal ele é um dos presidenciáveis e aparece bem nas pesquisas eleitorais. Mas não considero apropriado o jornal não encaminhar uma só pergunta crítica, um questionamento sequer em relação à sua gestão na Prefeitura ou à administração do governo FHC, a que serviu como ministro. O caso de Eduardo Azeredo, ex-ministro de FHC e presidente do PSDB, é apenas mencionado, sem pergunta e sem questionamento. São duas páginas apenas com o intuito de deixar José Serra analisar a crise sem qualquer contraponto, sem explorar as contradições.
Também achei condescendente a entrevista com Ricardo Berzoini, secretário-geral do PT ("Berzoini culpa Delúbio e Genoino pela crise"). O jornal não explora, por exemplo, o papel de José Dirceu no esquema e nem detalha as acusações contra Lula.
Nos dois casos, de Serra e Berzoini, o jornal ligou o gravador e deixou que falassem o que quisessem. Não sei se isto está de acordo com o jornalismo crítico e questionador que apregoa.
Aviso
Viajo amanhã para São Paulo para participar do júri do Prêmio Folha. Por esta razão não haverá Crítica Interna.
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