Ombudsman Folha   Folha Online
 
26/09/2005

MARCELO BERABA

A manchete da Folha no DOMINGO é a entrevista exclusiva que fez com o deputado federal e ex-ministro José Dirceu, "PT vai pagar por caixa 2, diz Dirceu". A entrevista até justificava uma manchete por ser exclusiva, mas a formulação do título é dúbia e, portanto, ruim. O outro assunto destacado pelo jornal foi "Receita Federal vai investigar 4 partidos". Na edição de hoje, a disputa pela presidência da Câmara volta a ser o assunto principal: "Candidatos se reúnem em 'centrão' na Câmara". Nenhum jornal tinha assunto novo e forte para a manchete de domingo: o "Estado" saiu com "Troca-troca partidário fortalece PMDB no Congresso" e o "Globo", com "Governo Lula criou 34 estatais em 33 meses". Na edição de hoje, o "Globo" deu seqüência ao mais novo escândalo nacional, descoberta da "Veja": "Tribunal pode anular jogos mas garante campeonato". E o "Estado" continuou com o foco na Câmara: "Temer e Nono fazem acordo para bater Aldo".

As revistas:

"Veja" - Mais um grande material exclusivo: "A máfia do apito". "Época" - "Bandidos de classe média". "IstoÉ" - "...É possível ser feliz". "Carta Capital" - "Tramóia em tempos tucanos", com revelações sobre corrupção nos Correios no período de FHC.

Escândalo do "mensalão"

A entrevista de DOMINGO com José Dirceu não explora o que parece ser o cerne da questão do "mensalão". Embora seja verdadeira a afirmação do ex-ministro de que quis implementar prioritariamente uma aliança com o PMDB, e foi desautorizado, o fato é que ele estava na coordenação política do governo Lula quando foi montada a base de apoio. E a estratégia adotada foi a atração de deputados e senadores para inchar os pequenos partidos aliados - PL, PTB e PP - e garantir as posições do governo em votações importantes e difíceis. Como foram garantidas as mudanças de partido na quantidade em que ocorreram? O ex-ministro procura fazer, na entrevista, uma distinção clara entre o PT, que teria errado ao recorrer a empréstimos e caixa 2 para gastos eleitorais ("mercantilização das campanhas"), e o governo, que só teria cometido erros políticos. Mas era ele quem estava no comando da articulação política do governo que agora está sob suspeição.

A manchete da Folha do domingo dia 18 foi "PF busca elo entre doleiro de Collor e PT". O elo seria a passagem de dinheiro de Marcus Valério pelas empresas Natimar e Bônus-Banval. O jornal traz hoje mais de uma página sobre a Bônus-Banval ("Corretora ligada ao PT é suspeita de lavagem", págs. A8 e A9) com novas suspeitas, mas sem mais informações sobre a suspeita anterior, que sumiu do noticiário.

Paraguai

A Folha editou, no DOMINGO, duas páginas sobre o Paraguai (A32 e A33). O dossiê é oportuno por que corre, há algumas semanas, a informação, até agora negada, de que os EUA estariam implantando uma base militar naquele país. A iniciativa da Folha é bem-vinda. É raro a imprensa brasileira dar atenção ao país vizinho, exceto quando trata de sacoleiros, contrabando, drogas, Tríplice Fronteira ou golpes políticos. O resultado do trabalho da Folha, no entanto, é sofrível. Algumas observações:

1 - O jornal erra ao pretender fazer um dossiê sobre a influência dos EUA no Paraguai sem enviar um repórter para o país vizinho. A reportagem principal ("Presença dos EUA no Paraguai é profunda"), feita da Redação, tem menos informações pertinentes ao tema - a influência dos EUA nas Forças Armadas paraguaias - do que o artigo do cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira ("Paraguai-EUA: irresponsabilidade e aventureirismo"). Embora se refira a "analistas paraguaios independentes", o texto principal identifica três fontes: um jornalista do "ABC Color", um político de oposição e um dirigente de Ong. Não sei se podem ser caracterizadas de análises independentes. O jornal não precisava ter ouvido "analistas paraguaios independentes" para concluir que o país é um encrave militar histórico dos EUA no Cone Sul. Se ele é de fato, imagino que o jornal poderia ter recorrido a fatos históricos e recentes para demonstrá-lo. Há sinais, no texto, de que o jornal tentou obter informações novas sobre os acordos entre o Paraguai e os EUA, mas a reportagem tem como base estas análises feitas à distância. Sem o concurso de um enviado especial, o texto ficou muito restrito a declarações. É evidente que um enviado ao país teria obtido muito mais informações, mesmo sem a autorização da Embaixada dos EUA para acompanhar os exercícios militares próximos a Assunção.

2 - O mapa "Presença norte-americana na América Latina" ficou confuso. Ele não esclarece, por exemplo, como se dá a presença dos EUA nos países que estão em marrom. Não fica claro por que o Paraguai está marcado com uma linha verde, que é a cor escolhida para identificar os países sem presença militar-norte-americana. Não há explicação para os quatro asteriscos da Colômbia. E o infográfico registra o número de 475 militares em Mariscal, no Paraguai, enquanto o texto principal se refere a uma estimativa de "cerca de 400 militares". São 475 ou cerca de 400?

3 - O chapéu escolhido para identificar as reportagens - "Rugido paraguaio" - não leva a discussão a sério.

Aviso

Compromissos em São Paulo, amanhã, e na Unesp, em Araraquara, na quarta-feira, não me permitirão fazer as Críticas Internas de terça, quarta e quinta.

     
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