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07/06/2004

MARCELO BERABA

O governo Lula se recuperou e deixou a crise para trás. O rosto deste governo é Antonio Palocci. Capa da Veja: "Palocci ganha todas". Manchete do "Estado": "País fica menos exposto às crises externas". Do "Globo": "Petrobrás criará 200 mil empregos em seis anos". Reportagem na Folha: "PIB faz Palocci ganhar espaço sobre Dirceu". No "Globo": "Palocci, a cara (polêmica) do governo Lula -- Ministro de fortalece e supera fase de críticas do PT e de adversários".

Segunda, na Folha, a manchete é boa notícia: "Chuvas no país afastam apagão para após 2008".

Violência

A cobertura dos jornais no caso da rebelião da Casa de Custódia de Benfica repetiu mais ou menos a fórmula de muito espaço para o factual, um pouco de bastidores e a busca de personagens. Desta vez, o personagem foi o pastor que intermediou o fim da rebelião. As análises ou matérias de "aprofundamento" não trouxeram novidades: a rebelião mostrou a falência do sistema penitenciário combinada com a irresponsabilidade do governo estadual.

A Folha trouxe, no entanto, na quinta e neste domingo, algumas contribuições para uma linha de cobertura da violência e da criminalidade que merecem ser pensadas e melhor trabalhadas pelo jornal. Podem ser caminhos para fugir dos chavões, mitos, lugares-comuns e análises sem bases que são repetidos nestas horas. São caminhos, também, para se fugir das fontes oficiais (polícia, agentes penitenciários e governos) que com freqüência manipulam a imprensa.

1 - Na quinta, como já havia destacado na Crítica Interna daquele dia, a Folha levantou a vida de dois dos prisioneiros assassinados na chacina e mostrou que os crimes que cometeram não tinham nada a ver com comandos do narcotráfico e que sequer deveriam estar presos. Achei que a Folha continuaria o trabalho de levantamento de dados sobre cada um dos mortos já identificados, mas isto não ocorreu. É uma pena, porque, além de mostrar as distorções dentro da prisão, ajudaria a desmistificar os comandos e a questionar a política penitenciária do Estado. Ainda há tempo.

2 - No domingo, o artigo do Janio de Freitas ("Escola do crime") questiona a cobertura que a imprensa vem fazendo e a que está deixando de fazer. Além da reflexão que faz sobre a maneira como a rebelião do Rio e a fuga em massa de SP foram cobertas, ele aponta um dado que o jornal poderia adotar desde já como referência obrigatória em qualquer reportagem sobre os presídios, casas de custódias e prisões: informar sempre, e com destaque, quantos presos estavam encarcerados e qual era a capacidade do local. É possível que em breve se chegue ao título que ele imaginou: "Cadeia para 30 presos tinha 190: 147 fugiram".

3 - A capa de ontem de Cotidiano, manchete do jornal, é outra contribuição importante para superar o jornalismo impressionista. Embora todos saibam, e já tenham saído estudos parciais e localizados, a pesquisa do Seade, pelo tamanho do universo pesquisado e por ter sido feita no mais rico Estado brasileiro, é um documento que chega ao âmago da questão da violência e da criminalidade entre nós. As investigações policiais são mal feitas, os inquéritos e processos se arrastam por anos, as injustiças cometidas são muitas e irreparáveis e no final a justiça chega tarde e já não tem efeito. A reportagem mostra dois momentos que o jornal cobre irregularmente: o dos procedimentos investigativos da polícia e o da paralisia da Justiça. Os fenômenos já são conhecidos; os números, também. O jornal precisa prestar mais atenção para estas falhas do sistema na cobertura diária.

Foto

É boa a foto da pág. A12 de Brasil, no domingo, que mostra um operário pintando a cúpula da Câmara na tarde de sexta-feira. Mas, tal como está editada, jogada numa página sem relação com as reportagens em volta e sem uma legenda bem feita, me pareceu calhau.

Arte

Bicolor, foi impossível compreender a arte da página A20 de Mundo da Edição Nacional que ilustrou a reportagem sobre as comemorações do invasão da Normandia na 2ª Guerra Mundial. Sem cores, não se consegue distinguir as bandeiras dos países envolvidos na invasão. É uma arte inútil.

Pesquisas

O Painel (A4) trouxe notas, nas edições de domingo ("Estado crítico") e na de hoje (Califórnia Vermelha 1 e 2), que tratam de resultados de pesquisas sem que indiquem os institutos ou outras informações que permitam avaliar se são confiáveis. Sei que a coluna é exatamente para informações de bastidores. Mas acho que no caso de pesquisas, que têm força de fato eleitoral, não deveriam ser divulgadas sem informações que situem sua procedência, evolução, universo, período ou qualquer outro dado que demonstrem que o jornal não está sendo usado. Sei que pode parecer meio ingênuo, mas como o jornal só terá Datafolha fazendo pesquisa em SP, acho que deveria estar mais precavido.

Edição SP?

Não havia recebido até 13h a Edição SP de segunda.

Na Edição Nacional, Esportes começou a rodar com matéria sobre tênis repetida (páginas C2 e C4). O erro deve ter sido percebido ainda na Ed. Nacional porque entrou um calhau na C4.

O "Estado" traz na sua edição fechada às 20h30 a prisão de Laerte Correia, lobista acusado de pertencer à máfia da Saúde. Não vi na Edição Nacional da Folha.

Cintas-largas

Na Crítica Interna de 10 de maio fiz o seguinte questionamento: "Acho difícil que a distribuição demográfica dos cintas-largas na reserva Roosevelt seja a que a Folha informa na página A12 de Brasil (" Índios explicam os motivos da chacina de 29 garimpeiros"). A reportagem diz que são 1300 índios, sendo 700 crianças (54%) e 400 guerreiros (31%). Isso significa que o total de mulheres adultas e de velhos é de apenas 200 pessoas (15%). É isso mesmo? Teria sido importante ter citado a fonte".

Recebi na sexta-feira, da Secretaria de Redação, a seguinte informação: "Segundo a Funai, 1.231 cintas-largas habitam a reserva Roosevelt (dado de 2003). Desse total, 715 são crianças (conforme consta do texto), 285 são homens e 231 são mulheres. Ocorre que muitas das 715 crianças já são consideradas guerreiras (a partir dos 12 anos). E, ainda entre os guerreir os, estão incluídos os idosos também. Por isso que o total de guerreiros chega a 400. Essa informação, aliás, foi passada à época pelo chefe João Bravo Cinta Larga, o que, infelizmente, não constou do texto".

Aviso

Faço palestra hoje à noite na Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto). Por esta razão, não haverá amanhã a Crítica Interna.

     
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