Ombudsman Folha   Folha Online
 
28/06/2004

MARCELO BERABA

Pesquisa eleitoral do Datafolha em São Paulo e um balanço dos dez anos do real são os destaques da Folha no DOMINGO. "O Globo" também investe no balanço do real. A Folha avalia que o Plano Real bateu a inflação, "mas não a injustiça"; o "Globo" acha que "crescer ainda é o desafio".

O "Estado" veio com denúncias fortes de corrupção: "Máfia dos combustíveis frauda, corrompe e faz ameaças de morte" (é a manchete, baseada em gravações telefônicas); "Golpe com viagens no Itamaraty pode passar de R$ 100 milhões" (é a submanchete, investigação da Polícia Federal).

Se a principal notícia é a que mais mexe com a vida (e o bolso) dos leitores, não vi notícia mais importante neste domingo do que o artigo que abre a coluna do Elio Gaspari na Folha e na rede de jornais que a publica:

"O trabalhador vai pagar o impoto da sobrevida". Segundo Gaspari, o governo federal elevou a expectativa de vida do brasileiro (com base nos dados do IBGE) e, com isso, o INSS mudou os prazos de aposentadorias.

Significa dizer mais tempo de trabalho para se aposentar e aposentadorias menores. "Criou-se um tributo sobre a esperança de viver", resume. É uma notícia que diz respeito a todos os trabalhadores, de qualquer nível.

Deveria ter sido pelo menos repercutida nas edições de segunda-feira dos jornais que publicam a coluna. Não encontrei nada.

DOMINGO

Investimentos

O jornal de domingo está bem de colunas, artigos, pesquisas, estudos e balanços. Está pobre de reportagens e histórias.

Há uma boa e solitária reportagem, em Mundo, na página A22: "Clandestino", o relato de uma jornalista brasileira entre brasileiros em situação ilegal que buscam trabalho no Reino Unido. É um relato pessoal, detalhado, que prende do começo ao fim.

Há várias reportagens que poderiam ter rendido mais, seja no texto, seja na apuração. Um exemplo é "Jornalista-babá faz boleiro surgir e sumir", em Esportes, pág. D6. É uma pauta bem escolhida. O assunto é novo, mal explorado, um tabu entre os jornalistas porque não trata apenas de negócios e imagem, mas de ética. Com tantos personagens e casos à disposição, a reportagem poderia ter fugido do tom relatorial e declaratório para construir histórias que fariam o texto mais fácil e mais contundente. De qualquer modo, é um grande assunto. A história do repórter da rádio Nove de Julho que cobre o Palmeiras e assessora sete jogadores do clube é um escândalo.

A capa de Cotidiano ("SP cresce 6 vezes mais em fronteira urbana") é uma boa tentativa de dar vida a um estudo frio. A abertura foge dos números (o título não consegue), leva o leitor para a periferia da cidade, mas a edição depois se rende ao nosso modelo de "reportagem": números de um lado, opiniões e análises ("Para ministério, é preciso gerir metrópole") do outro, e ambiente e personagens separados ("Nem Céu tem endereço próprio para correspondência").

Brizola

A morte de Leonel Brizola foi o assunto mais comentado pelos leitores na semana passada, segundo levantamento do Painel do Leitor publicado no domingo (A3). Nem assim a Folha se dispôs a fazer um editorial (a favor, contra ou muito pelo contrário) sobre a obra política do velho caudilho.

Pesquisa eleitoral

Como a Folha não fará pesquisas eleitorais com o Datafolha fora da capital paulista, é natural que as notícias sobre a situação de outras capitais busquem pesquisas com outros institutos. Mas a apresentação da metodologia da pesquisa utilizada deveria ser regra para todos os casos.

A análise da eleição no Rio ("Disputa no Rio envolve Jogos Pan-Americanos e evangélicos", pág. A8) está toda baseada em pesquisa do Instituto Sensus. Mas o texto não diz quando foi feita ("mais recente" pode ter sido feita no ano passado), quantos eleitores foram entrevistados e não informa sobre a margem de erro, fundamental para qualquer avaliação.

O texto da Agência Folha sobre a capital cearense ("Fortaleza vê fim de aliança e disputa petista") é menor, mas contém todas estas informações.

SÁBADO

Relatório da ONU

Manchetes no "Globo" e no "JB", o relatório da ONU sobre drogas no Brasil e em onze outros países não saiu na Edição Nacional da Folha e virou uma panorâmica na Edição SP (Cotidiano, pág. C 11). Depois de dois casos recentes de estudos estatísticos polêmicos sobre o Brasil (trabalho infantil doméstico e tráfico humano), os jornais deveriam ler este relatório das drogas com cautela e desconfiança.

O "Estado" fez isso e fez bem feito. Nem supervalorizou o estudo (como o "Globo" e o "JB") nem o ignorou (como a Folha). Comparou os dados da ONU com estudo anterior e fez uma notícia crítica: "ONU corrige ranking do País em entorpecentes". Segundo o texto, o Brasil já havia sido rotulado em outro estudo como o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, depois dos EUA. Este novo estudo mostra que é o que tem o menor consumo, junto com o México, entre os doze países estudados.

Agricultura

"O Globo" diz, com todas as letras, que é "delicada" a situação do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Ele estaria sendo criticado pelo setor privado, pelo Itamaraty e pelo próprio Planalto por não ser ágil nos contenciosos que o Brasil está tendo no comércio exterior por conta da soja e, agora, da carne. O noticiário da Folha fala em problema de comunicação ("Ministério se precipita sobre fim de embargo", capa de Dinheiro). Pelo que se pode entender do "Globo", é mais do que isso.

Aviso

Amanhã estarei em SP para almoço na Folha e não farei a Crítica Interna.

     
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