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23/08/2006
MARCELO BERABA
A cobertura eleitoral ocupa quase toda a Primeira Página da Folha e está espalhada por vários cadernos do jornal: "Aprovação sobe e Lula amplia vantagem" é a manchete da Edição SP redesenhada; na Edição Nacional estava "Com aprovação recorde, cresce vantagem de Lula". As outras chamadas: "Presidente antecipa 13º de aposentados no ano eleitoral", "Renda cresce com eleições, mas recua no ano seguinte", "Crivella recorre a Cristo para isentar Planalto de culpa". Devem ser consideradas ainda dentro do contexto eleitoral as duas outras chamadas fortes: "Polícia de SP apura se existe ligação entre PCC e petistas" e "Câmara abre processo contra 67 deputados".
O "Globo" também deu destaque para as investigações de parlamentares: "Câmara abre processo de cassação de 69 deputados".
"Estado" e "Valor" chamam a atenção para os problemas no campo: "Agronegócio cai 1,9% e perde R$ 10,2 bilhões" ("Estado") e "Crédito rural recua pela primeira vez em 10 anos" ("Valor").
Eleições 2006
Embora editada fora do noticiário das eleições, a reportagem da capa do caderno "Cotidiano" - "Polícia apura se há elo entre PCC e petistas" - coloca o PCC definitivamente na campanha eleitoral.
A Folha informa que tinha desde julho a fita em que criminosos do PCC, em 12 de maio, orientam ações contra políticos, especificamente contra os do PSDB, e ordenam que os do PT sejam preservados. Só publicou o material hoje depois que soube que a polícia abriu inquérito para apurar o tal elo entre o PCC e o PT. O fato de haver inquérito policial torna o caso público e justifica a divulgação. Por que não publicou antes? O jornal não informa, mas é de se supor que para evitar manipulação eleitoral.
O caso, tal como aparece na Folha, me pareceu mal contado e faltou ao jornal apurar melhor.
O que achei inconsistente (por parte da polícia e do governo de São Paulo) e sem questionamento do jornal:
- A policia sabe desde 12 de maio dos planos do PCC contra o PSDB e de preservar o PT. O governador e vários deputados do PSDB tomam conhecimento das ameaças já no dia seguinte, com a polícia mobilizada para dar segurança. Mas, segundo o jornal, só "recentemente" a Secretaria de Administração Penitenciária recebeu as fitas e as repassou para a Secretaria de Segurança Pública. A polícia sabia desde o início, mas a Secretaria de Segurança não sabia? Segundo a reportagem que segue na página C4 ("Segurança de políticos foi reforçada"), "delegados ligados ao secretário de Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, se encarregaram de avisar os deputados sobre os riscos". Mesmo assim o Secretário só foi tomar conhecimento "recentemente" e só agora abriu inquérito?
- A Folha não informa quando o inquérito foi aberto. Mas se foi só "recentemente", depois de a fita ter sido entregue pela Secretaria de Administração Penitenciária à Secretaria de Segurança, por que a polícia levou tanto tempo para tomar uma providência legal de investigação se já tinha conhecimento desde maio do teor das fitas?
- Se o inquérito foi aberto há mais tempo, já naquela época, a notícia deveria ter sido, passados três meses e meio, o resultado do inquérito - confirmando os vínculos do PT com o PCC ou comprovando que não há vínculo - , e não a sua abertura. O que a polícia fez nestes meses todo em relação ao caso?
- Segundo o jornal, só agora, passados três meses e meio, a polícia deverá ouvir os dois criminosos flagrados nas gravações. Por que não foram ouvidos antes? Não deveria ter sido a primeira providência da polícia?
- As gravações foram feitas por uma "autoridade da região oeste de SP". Nunca vi uma definição assim; se a gravação era legal e foi aberto inquérito policial, por que o jornal omite o cargo da autoridade?
- No espaço em que tenta ouvir o PT ("Presidente do PT paulista não comenta o caso"), o jornal informa que o partido só se dispôs a responder ao repórter se obtivesse respostas para sete perguntas, "entre as quais sobre a fonte de informação do grampo". Ora, se já há inquérito policial aberto conforme o jornal noticia, a fonte é o inquérito policial. Não há mais segredo, suponho. Ou não?
A minha conclusão: a história está até agora cheia de buracos. Os bastidores levantados pela Folha até aqui não ajudam a entender o que está ocorrendo.
Chamei a atenção, na coluna de domingo passado, para as dificuldades que a imprensa tem, por desconhecimento, de questionar os procedimentos de investigação das polícias. Este caso é um bom exemplo. E é um caso importantíssimo porque mistura criminosos e partidos políticos às vésperas de uma eleição. Tal como aconteceu em 89 com o seqüestro de Abílio Diniz.
O comportamento do jornal agora foi correto ao esperar a instauração do inquérito - fato público que não pode ser omitido - para noticiar; mas erra ao não questionar as falhas gritantes nos procedimentos da polícia e das secretarias estaduais envolvidas e demonstra dificuldades para levantar os bastidores políticos que norteiam o caso.
O jornal demonstra cautela, no meio dos textos, com o uso eleitoral da informação, mas a própria publicação e os títulos escolhidos na Primeira Página e internamente já colocam o caso no centro do debate eleitoral em São Paulo. Cabe à Folha agora continuar a apuração com o objetivo de esclarecer se existe ou não elo entre o PCC e o PT. É evidente que só as gravações não são suficientes para provar que existe.
Acabamento
O relato da sabatina com o candidato Marcelo Crivella ao governo do Rio está prejudicado, na Edição Nacional, por erros de acabamento, provavelmente provocados por cortes mal feitos. E é exatamente a edição que vem para o Rio.
Corrupção
Segundo o "Estado" e outros jornais com correspondente em Genebra, a relatora especial da ONU para o Combate à Corrupção foi aconselhada a adiar para depois das eleições de outubro a investigação que faria no Brasil ("Missão da ONU sobre corrupção, só após eleições").
O jornal recuperou hoje a notícia divulgada ontem por vários jornais de que o Banco Mundial "estuda formar 'time anticorrupção' em países" (B7), mas continua atrasado no noticiário anticorrupção.
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