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28/08/2006

MARCELO BERABA

A Folha marcou um tento ao revelar, na quinta-feira, a história de João Pereira da Silva, mantido ilegalmente na prisão porque cumpria a pena de um homônimo. Ele foi solto no sábado. O jornal já tinha conseguido resultado semelhante em dezembro do ano passado, quando a divulgação do drama da ex-bóia-fria Iolanda Figueiral, então com 79 e paciente terminal de câncer, permitiu que ela recorresse à pena de prisão em liberdade.

Fora a euforia nos esportes ("Um domingo brasileiro", segundo o "Estado"), os principais jornais têm manchetes bem diferentes:

Folha - "Governo dá bolsas para 237 cursos mal avaliados".

"Estado" - "Setor de energia tem novo apagão".

"Globo" - "Procuradoria vai à Justiça para fechar bingos ilegais".

Eleições 2006/Presidência

A foto da página A4 da Edição Nacional - "Protesto na avenida" - mostra uma bandeira que parece reproduzir o sigma, símbolo do integralismo. Parece, porque a bandeira não está completamente aberta. Como ela ficou bem visível na foto, no centro da passeata organizada pela "sociedade esclarecida brasileira", não deveria ter havido uma preocupação do jornal em esclarecer do que se trata?

O jornal antecipa hoje a proposta (como sempre polêmica) enviada pelo PT como contribuição para o programa de governo de Lula na área de comunicação ("PT propõe recadastramento de concessões de rádio e TV", pág. A4). É um exemplo de reportagem que deveria ter tido uma remissão para a leitura da íntegra do documento na Folha Online.

A divulgação dos programas de todos os candidatos é uma grande iniciativa. Como dificilmente o jornal terá espaço para publicar as íntegras, poderia adotar como norma a remissão para a internet.

"Ciência"

Embora o título não ajude muito - "Ibama perde fiscais para madeira ilegal" - é boa a reportagem da página A13. Feita a partir das análises das maiores operações de combate a crimes ambientais, ela permite entender um pouco como funcionam os esquemas de tráfico e como dependem de funcionários públicos. O jornal tem coberto bem as operações da Polícia Federal, mas só o relato dos fatos pouco ajuda na compreensão das principais causas da permanência de fraudes e da corrupção.

Guerra urbana

A última reportagem da Folha sobre o suposto elo entre o PCC e o PT, apontado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, foi publicada no sábado e o jornal descreveu seu esforço frustrado para obter informações cruciais para o esclarecimento do caso. Um ponto importante a ser esclarecido é o da instauração do inquérito policial. A Folha justificou a publicação das informações inconclusas que tinha sobre o tal elo baseada na confirmação que obteve de que fora instaurado um inquérito policial. O "Estado", único outro jornal que vem acompanhando o caso, embora sem a mesma ênfase da Folha, vem dando a entender que ainda não houve a abertura do inquérito ou, se houve, foi depois da publicação da primeira reportagem da Folha, de quarta-feira.

Hoje, o "Estado" informa, em nota curta, que o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado encaminhou, na sexta-feira, ofício ao promotor de Justiça Lincoln Gakiya solicitando informações sobre as gravações que fez e que captaram as conversas entre presos nas quais a Secretaria de Segurança se baseia para apontar o elo entre o PCC e o PT. Segundo o "Estado", apenas após obter estas informações o Deic "poderá pedir permissão para inclusão das conversas em inquérito policial sobre a série de atentados".

É o mesmo inquérito a que a Folha vem se referindo?

Este caso continua nebuloso e mal explicado pelas autoridades policiais.

A Folha deveria ter aproveitado o balanço que fez dos indicadores de homicídios em São Paulo ("Homicídios caem 51% em 5 anos em SP", edição de domingo) para um exame mais amplo da política de segurança do mesmo período. Embora as taxas de homicídios sejam relevantes, elas não podem servir como única referência para uma avaliação da política de segurança pública.

Aviso

Faço amanhã uma palestra no curso de jornalismo da ECA-USP coordenado pela Folha, "Jornalismo Diário - Estudo de Caso". E viajo na quarta-feira para Lima, onde participo de um encontro sobre política e meios de comunicação. Por esta razão, não haverá Crítica Interna ao longo da semana.

     
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