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15/09/2006

MARCELO BERABA

Manchete de ontem do jornal "Valor", a crise entre o Brasil e a Bolívia tomou conta das Primeiras Páginas de hoje dos principais jornais do país. Alguns jornais, como a Folha e o "Valor", apenas registraram o novo capítulo da disputa. Outros fizeram suas interpretações da queda de braço entre os dois governos, algumas favoráveis a Brasília, caso do "JB", e outras críticas, como o "Estado", o "Globo" e, mais explícito, o "Correio Braziliense":

Folha - Começou a rodar com um título de difícil compreensão - "Bolívia congelou confisco da Petrobras, afirma Lula" - mas depois mudou para "Bolívia suspende confisco das receitas da Petrobras".

"Estado" - "Bolívia provoca nova crise e confunde governo Lula".

"Globo" - "Morales prejudica Petrobras de novo e Lula quer 'ajudar Bolívia'".

"Valor" - "Bolívia suspende expropriação de refinarias".

"Gazeta Mercantil" - "Petrobras quer levar Bolívia a tribunal internacional".

"Jornal do Brasil" - "Brasil reage e Bolívia recua de confisco".

"Correio Braziliense" - "Bolívia faz o Brasil passar novo vexame".

"Estado de Minas" - "Bolívia confisca refinarias".

"Zero Hora" - "Bolívia reabre guerra à Petrobras e Lula endurece com Morales".

A melhor foto do dia é a do acidente no prédio em São Paulo. A imagem do "Estado", que aproxima mais os andaimes queimados, perde um pouco a noção da altura, mas assim mesmo é melhor do que a da Folha porque dá mais visibilidade para o drama do operário pendurado e para os estragos do incêndio. Embora entenda que o jornal tenha tido a preocupação de registrar a visita do tesoureiro da campanha eleitoral do PT no Palácio do Planalto, acredito que teria sido possível dar mais destaque para a foto do operário pendurado. O jornal teria ganhado em dramaticidade. Bem, é possível que o jornal tenha evitado propositalmente a dramaticidade, editando a foto abaixo da dobra e de uma distância que prejudica a nitidez. Neste caso, deveria ter evitado o suspense e informado logo na legenda o que aconteceu com o operário pendurado. O leitor precisa recorrer ao noticiário interno para saber que ele se salvou.

Eleições 2006

A Folha está certa em acompanhar os passos do tesoureiro da campanha de Lula, José de Filippi Júnior, e de registrar sua visita ao Palácio do Planalto. Afinal, são sempre confusas as relações entre campanhas, partidos e governos, e não é de hoje. Mas a reportagem que registra a visita - "Tesoureiro da campanha de petista vai ao Planalto, a andar de gabinete de Lula", pág. A4 - mais insinua do que informa. O que teria havido de errado caso o tesoureiro tivesse se encontrado ontem com Lula no Planalto? Um crime eleitoral? Uma imoralidade? Por que o jornal não deixa claro para os seus leitores o que estava em jogo? Só o registro da passagem do tesoureiro pelo Planalto não justificaria o destaque dado pelo jornal na Primeira Página.

Bento 16

A Folha deu mal, na Edição Nacional, a crise provocada pelas declarações do papa Bento 16 a respeito do islamismo. O erro de avaliação foi corrigido na Edição SP - "Vaticano tenta amenizar crítica indireta a Maomé" (pág. A14).

Título

Ficou ruim o título "Irmã de jogador é libertada após resgate" (pág. C9 da Edição SP). É claro que após ser resgatada ela estava libertada!

Sei que a intenção era outra, mas no caso teria que ter ficado explícito que ela foi libertada após o pagamento do resgate, como está no título da Edição Nacional.

Bolívia

A propósito do noticiário sobre a Bolívia, recebi do editor de "Dinheiro", Sérgio Malbergier, via Secretaria de Redação, a seguinte resposta ao comentário que fiz ontem na Crítica Interna, em que chamei a atenção para a manchete do "Valor" ("Bolívia assume refinarias sem pagar Petrobras"):

"A manchete do "Valor" está errada. A Bolívia não está assumindo as refinarias da Petrobras via resolução. Desde o decreto de nacionalização, emitido em maio, o governo já havia determinado que assumiria o controle acionário das duas unidades, mas até agora não há um consenso sobre o valor a ser pago. O novo argumento do governo boliviano, com a nova resolução, é que a Petrobras superfaturou o preço dos produtos de suas refinarias no mercado interno boliviano, e esse excedente, de ao menos US$ 320 milhões, terá de ser levado em consideração no cálculo do valor das refinarias. Ou seja, eles querem um encontro de contas. Portanto, as duas unidades continuam sob administração da Petrobras, sem previsão de mudança do controle acionário até um acordo entre as partes. Além disso, a resolução do governo boliviano noticiada pelo "Valor" hoje foi publicada um dia antes pela Folha, apesar de o "Valor" estar com repórter em La Paz. A reportagem da Folha de hoje, quinta-feira, é uma suíte, e o título traz, mais uma vez, uma informação exclusiva, a decisão de cancelar a reunião de alto nível entre os ministros dos dois países marcada para amanhã (sexta), em La Paz".

Alguns comentários:

1 - Antes de tudo, o mérito da Folha: realmente o jornal foi o primeiro a noticiar, na Edição SP de quarta-feira, a resolução do governo da Bolívia ("Bolívia cria monopólio de derivados de petróleo e GLP") e a antecipar, na edição de ontem, que o governo brasileiro havia cancelado a reunião com autoridades bolivianos prevista para hoje em La Paz.

2 - Não concordo que a manchete do "Valor" esteja errada, embora isso seja problema do "Valor". O confisco das receitas, como a Folha passou a sintetizar a resolução na edição de hoje, e o artifício de apontar "ganhos extraordinários" da estatal brasileira no cálculo da aquisição das refinarias significa, na prática, a apropriação das refinarias sem pagamento.

A minha impressão é a de que a resolução do governo da Bolívia, agora suspensa, ainda não foi completamente compreendida. Tanto que os jornais usam, de forma indiferente, confisco, expropriação, rebaixamento, encampação e outros termos sem precisão jurídica. A própria interpretação da Folha foi sendo alterada desde a primeira reportagem.

3 - De qualquer maneira, ficou claro que a Primeira Página da Folha não percebeu imediatamente a importância da resolução baixada pelo governo da Bolívia na noite de terça-feira e, apesar de dois "furos" seguidos, o assunto só foi para a capa do jornal no terceiro dia da crise, hoje.

4 - É impressionante também como os outros jornais, com exceção do "Valor", custaram tanto a acordar para a notícia e a destacá-la. Só o fizeram diante da reação do governo brasileiro.

     
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