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06/07/2004
MARCELO BERABA
As manchetes dos jornais são distintas, mas o noticiário está bem parecido: balanço dos 18 meses do governo Lula, início da campanha eleitoral, tarifas telefônicas, inflação em SP, Mercosul (Argentina restringe, México adere) e tráfico.
Manchetes:
"Governo não fiscaliza o Bolsa-Família" (Folha); "Argentina cria barreiras a eletroeletrônicos brasileiros" ("Estado"); "Aracaju, Sobral e SP recebem mais verba federal que o Rio" ("Globo"); "Governo testa a arte da paciência" ("JB").
O "Valor" também optou pela decisão Argentina de impor barreiras aos eletrodomésticos do Brasil. O "Correio Braziliense" foi na linha do "Globo" ("Governo reserva mais dinheiro para petistas").
Nos jornais de banca, os destaques são para o aumento parcelado das tarifas telefônicas e para a ação do tráfico no Rio.
A Folha tem um presente para os seus leitores, exclusivo e de qualidade: a conversa com Martin Amis, Paul Auster e Ian McEwan, na Ilustrada.
Manchete
Tenho dúvidas em relação à manchete da Folha, acredito que não tenha sido a melhor opção.
É verdade que o governo deixou de fiscalizar no primeiro semestre deste ano a freqüência escolar dos filhos das famílias beneficiadas com as bolsas. Mas, segundo a própria reportagem: 1 - o controle já era irregular antes; 2 - duas outras exigências foram fiscalizadas; e 3 - o governo informa que está mudando a forma de fiscalizar a freqüência às aulas porque a anterior era "frágil". O governo diz que a falta de fiscalização da freqüência escolar no semestre não compromete o programa. A Folha não tem informação que contrarie este posicionamento.
Acho que o jornal tinha um bom assunto, a publicação da reportagem é justificada, mas exagerou no título ("Governo não fiscaliza o Bolsa-Família", quando ele fiscaliza duas das três exigências) e na opção por manchete.
Privilégios
O jornal "matou", na Edição Nacional, a cobertura sobre a distribuição de verbas federais para aliados do governo ("Oposição acusa governo de fraude eleitoral", pág. A7). O fato de ter sido a manchete de ontem não justifica o abandono do caso.
Polícia Federal
A Folha deu muito mal a crise na Polícia Federal de São Paulo. Não tem nada na Edição Nacional e apenas uma nota na Edição SP ("Chefe em São Paulo destitui delegados", pág. A8). O "Estado" também só deu na edição que fechou mais tarde. O "Globo" deu bem.
Balanço Lula
O "Estado" deu mais espaço e visibilidade que a Folha para o contraponto ao balanço dos 18 meses do governo Lula. Achei que o jornal não estava preparado para checar os dados oficiais. Isso já acontecera com o balanço da Marta Suplicy.
O "Estado" deu um alto de página ("Balanço confunde dados e derrapa em omissões") e uma arte. A Folha se limitou a uma arte ("O balanço de Lula", pág. A5). O "Globo" questiona apenas os dados da reforma agrária.
Argentina
Manchete do "Estado" já na sua edição nacional, a decisão da Argentina de criar barreiras a importações de eletrodomésticos do Brasil foi mal avaliada pela Folha na sua Edição Nacional. "Argentina cria novo sistema de compra" é o título, fraco, de um texto pequeno, perdido na pág. B6. Na Edição SP, a notícia ganhou o alto da página 7 e um título mais apropriado: "Argentina barra eletrodomésticos brasileiros".
O "Estado" já tinha o principal da notícia na sua edição nacional (alto de página) e jogou o assunto, na edição para São Paulo, na capa do caderno, com mais informações. Como a Folha, ele começou a rodar com a inflação em SP na capa.
Resposta do Editor
Recebi do Editor Sergio Malbegier, de Mundo, a seguinte explicação:
"Disse o ombudsman em sua crítica de sexta-feira que 'a Folha se redime da edição de ontem, em que omitiu a frase histórica do ex-ditador ao se apresentar ao tribunal iraquiano (Sou Saddam Hussein al-Majil, presidente da República do Iraque)'. Ora, nenhum dos jornais de prestigiosa cobertura internacional que consultamos --Le Monde, El País, NYTimes, Washington Post, Guardian, Independent e Times-- trouxe a frase. Só a vimos publicada no Globo e no Estado. E o motivo, creio, é a dependência total que temos aqui no Brasil das agências que pode gerar procedimentos ralos, como o de que tudo que elas trazem é publicável. Explico: Apenas uma matéria da France Presse trazia a tal frase, sem citar fonte de origem da informação, às 13h46. Nenhuma outra agência e nenhum outro jornal usou a frase nos onlines. Não havia jornalistas naquela audiência, e a France Presse não a atribuiu a ninguém. E, em despachos posteriores sobre o mesmo assunto, a própria AFP não a repetiu. Então, creio, o erro foi dos concorrentes locais, apesar de termos sido nós os criticados, ao cravar que a tal frase foi dita. (Segue abaixo, para conhecimento do ombudsman, despachos daquele dia da AFP, AP e Reuters).
Outro ponto da crítica, cobrando explicação de o motivo de algumas frases de Saddam ditas na quinta estarem no jornal de sexta e não na íntegra publicada, foi respondido em troca da edição Nacional e na edição São Paulo: foram ditas antes da tomada formal do depoimento no tribunal".
No caso, bastava ter citado a fonte da notícia, a agência France Presse.
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