Ombudsman Folha   Folha Online
 
22/09/2006

MARCELO BERABA

A Folha fez uma mudança importante na manchete da Primeira Página.

A Edição Nacional circulou com a declaração do presidente à TV Globo: "Lula põe 'a mão no fogo' por Mercadante". Mais tarde, com o depoimento de um dos Vedoin à Polícia Federal, o título mudou: "Vedoin isenta Serra do caso sanguessuga".

Embora as palavras dos Vedoin já não mereçam grande credibilidade, tantos depoimentos e entrevistas contraditórios já deram, o jornal, ao optar por mais esta declaração, deveria ter colocado na formulação da manchete ou da linha de apoio a informação completa: Vedoin disse que não sabia de indícios contra Serra, mas voltou a acusar Abel Pereira de receber propinas na gestão do também tucano Barjas Negri, sucessor de Serra. O título interno contempla as duas informações e mostra que a Primeira Página teria condições de ter feito formulação parecida - "Vedoin isenta Serra, mas acusa sucessor". Como está, a manchete da Folha faz parecer que a única preocupação do jornal é isentar o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, e não a apuração do esquema dos sanguessugas que teria se apropriado do Ministério da Saúde nos governos FHC e Lula.

A manchete do "Globo" é uma informação importante. Embora veiculada no "Jornal Nacional", não está na Folha: "Escândalo: PF investiga entrada ilegal de dólares". Segundo a Globo, a PF já tem a informação de que os dólares foram emitidos em abril nos EUA, foram remetidos para um banco em Miami, foram levados para um outro país e entraram no Brasil sem passar pelo Banco Central. Segundo o "JB", as investigações da PF apontam para Jorge Lorenzetti - "Dólares incriminam churrasqueiro de Lula".

São graves as informações da Folha de que a "Polícia Federal quis restringir acesso a dados da investigação" e de que o delegado que comandou a operação inicial que prendeu os petistas no hotel em São Paulo foi afastado do caso.

O "Estado" e os jornais econômicos realçaram as conseqüências da crise provocada pelo dossiê dos Vedoin na economia:

"Estado" - "Escândalo afeta mercado e risco país dispara 7%".

"Valor" - "Risco-país sobe 7% e dólar avança".

"Gazeta Mercantil" - "A crise política, enfim, faz todo o mercado tremer". O "enfim" permite várias leituras.

No "Estado", mereceram destaques outras notícias ruins da economia: "CNI reduz para 2,9% a projeção de crescimento da economia" e "Arrecadação cresce no INSS, mas déficit está 15,6% maior".

"O Dia", que vem fazendo uma cobertura da crise do dossiê bastante favorável ao governo, ignora as investigações policiais e os desdobramentos na economia: "Vox Populi e Ibope: Lula no 1º turno". Segundo o "Correio Braziliense", "Planalto arma operação para blindar Lula".

Dossiê

Segundo o "Estado", grampo da Polícia Federal revela que o PT teria mobilizado pelo menos onze pessoas na trama do dossiê. Como foram identificados seis, faltariam cinco.

É inquestionável que o presidente Lula cometeu um erro quando se referiu, na entrevista na Globo, a "Dezessete dias que abalaram o mundo". A referência errada pode ter sido ao filme ("Treze dias que abalaram o mundo"), como concluiu a Folha, mas pode ter sido também ao livro de John Reed, "Os dez dias que abalaram o mundo".

Eleição

Há um erro na legenda da foto da página A16 que ilustra a reportagem "Fórum Nacional discute pacto pós-eleição". O segundo à esquerda na foto é Cristovam Buarque, e não João Carlos Meirelles.

Painel

Não entendi as notas SC1 e SC2 do "Painel" (pág4). Estão redigidas como se fossem correções. Se forem, deveriam ter saído na seção "Erramos" ou acompanhadas do título "Erramos", conforme orientação do "Manual da Redação" (pág. 41). Se não forem correções, ficaram incompreensíveis.

"Mundo"

Acho que o jornal avaliou mal as declarações do ditador do Paquistão, que afirmou que os Estados Unidos ameaçaram bombardear o país e fazê-lo voltar à Idade da Pedra se não colaborasse na guerra contra o Taleban ("EUA ameaçaram com bombas, diz Musharraf", pág. A18). É o líder de um país aliado dos Estados Unidos revelando publicamente, num programa de TV, informações de Estado.

O jornal não deu visibilidade à visita conturbada de Chávez, o presidente da Venezuela, a uma igreja no Harlem, em Nova York. A informação não consta da reportagem da Edição Nacional ("Livro citado por Chávez explode em vendas", pág. A19) e, na Edição SP, é um parágrafo no final do texto.

Segundo o "Estado", a "Venezuela pretende comprar equipamentos militares do Brasil". Reportagem de Genebra.

"Cotidiano"

A Folha ignorou o Mapa da Violência, estudo divulgado ontem pelo Ministério da Justiça com dados sobre criminalidade nos Estados. Segundo o "Globo", a violência caiu 18,5% em São Paulo entre 2004 e 2005 e o Rio é o Estado com o maior número absoluto e a maior taxa de mortes decorrentes de crimes violentos. É um dado favorável ao candidato Geraldo Alckmin. Uma curiosidade: mesmo com números tão desfavoráveis, toda a antiga cúpula da Secretaria de Segurança do Rio é candidata a deputado federal ou estadual.

     
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