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25/09/2006
MARCELO BERABA
A imagem mais impressionante do domingo está na capa de todos os jornais de hoje: a dor da juíza de atletismo que teve o pé transpassado por um dardo. A foto da Folha é a que deixa menos nítida a ponta da lança, confundida com a meia. Mas é forte, de qualquer maneira.
As manchetes reproduzem as frases do discurso de Lula ontem em Sorocaba:
Folha - "Lula diz que 'mata' eleição no 1º turno - Presidente se compara a Jesus Cristo e Tiradentes ao falar de traição no caso do dossiê contra tucanos". O jornal editou, sob o título "Cristo e Tiradentes", um quadro que destaca as principais frases do candidato.
"Estado" - "Lula: 'Podem denunciar, mas ganho no 1º turno - Presidente critica 'elite' e diz que Cristo e Tiradentes também foram traídos".
"Globo" - "Lula se compara a Cristo e diz que ganha no 1º turno - Presidente afirma que abandonou a modéstia e vencerá de 'cara limpa'".
A Polícia Federal e os jornais não avançaram nada em relação ao escândalo do dossiê e o noticiário entrou na fase de cobranças e intenções.
Folha - "CPI critica a demora para revelar origem de dinheiro" e "PF vai pedir a quebra do sigilo telefônico de cinco petistas".
"Estado" - O assunto sumiu da Primeira Página.
"Globo" - "PF quer sigilo de bancos" e "Dinheiro seria levado de avião".
Eleições 2006
A importância dada pela Folha e pelos demais jornais ao discurso de Lula em Sorocaba justificava a publicação da sua íntegra ou a remissão para a leitura da íntegra na internet - no caso da Folha, no Folha Online.
Há trechos importantes do discurso que a Folha não menciona. Por exemplo, a referência à "elite aristocrática" (a campanha não é de um candidato contra outro, "mas do povo trabalhador contra uma elite aristocrática que manda neste país desde que Cabral chegou aqui"). A publicação da íntegra ou a remissão para a internet permite que o leitor tome conhecimento de todo o discurso e o avalie por seus próprios critérios.
A mesma observação vale para os discursos de Alckmin na Paraíba.
Como a campanha tende a ficar cada vez mais acirrada (vide discursos de sábado) e a cobertura acaba sempre valorizando os discursos mais do que qualquer outro ato de campanha (exceto as pesquisas), seria uma boa medida pensar em publicá-los ou remeter para a internet.
As reportagens "Setores da oposição já propõem negociar agenda mínima de votações para 2007" (pág. A5 da Ed. SP) e "Presidente acena à oposição para evitar crise de governabilidade" (pág. A10 da mesma edição) se completam. O esforço do jornal de buscar informações de bastidores além do cenário conturbado de véspera da eleição teria tido mais força se elas tivessem sido editadas juntas.
Muito boa a iniciativa do "Folhateen" de encaminhar perguntas sobre alguns dos problemas que interessam ou afetam os jovens para respostas dos principais candidatos à Presidência da República. Achei, no entanto, que a edição ficaria melhor com comentários de especialistas e/ou uma análise das repostas. As respostas que Lula e Alckmin deram, por exemplo, para a questão de cotas mereciam uma intervenção do jornal indicando as divergências que estão em jogo e que foram disfarçadas pelos dois candidatos.
Dossiê
Está boa a reportagem da Folha que reconstitui a rotina de Luiz Antonio Vedoin na prisão em Cuiabá ("Vedoin tem direito a TV e visita diária de sua mulher", pág. A9). Mas a reportagem do "Estado" ficou mais forte porque flagrou, inclusive com foto, a visita ontem, domingo, de toda a família à prisão. O que na Folha está reconstituído com testemunhas, no "Estado" está documentado. Há inclusive o registro de um policial saudando a mulher de Vedoin com um beijo.
Quem passa o dia com cela aberta é Luiz Antônio Vedoin, e não a sua mulher, que não está presa. Esta mal redigida, portanto, a "lupa" da página A9: "Mulher de Vedoin, que passa dia com cela aberta, usa fato de ser advogada ...".
Resposta
Recebi da editora de "Mundo", Claudia Antunes, via Secretaria de Redação, a seguinte mensagem a respeito dos comentários que fiz na Crítica Interna de sexta-feira:
"Acredito que está correta a sua avaliação sobre a entrevista do ditador do Paquistão, mas não a avaliação sobre a visita de Hugo Chávez ao Harlem. Ao abrirmos com o aumento das vendas do livro "Hegemonia ou Sobrevivência", que nem é o último lançamento do Noam Chomsky, dimensionamos melhor o impacto do discurso do presidente venezuelano na ONU e de sua passagem por Nova York. Demos dois parágrafos sobre a visita ao Harlem na edição nacional e três na São Paulo".
Embora a venda do livro tenha sido um enfoque criativo e pertinente, o incidente no Harlem foi mais uma evidência da deterioração das relações entre os dois países, que acabou tendo mais um ato no sábado, com a retenção do ministro das Relações Exteriores da Venezuela no aeroporto de Nova York ("Venezuela pede retratação por detenção de ministro", pág. A14 de hoje). Acho que a edição poderia ter dado visibilidade para as duas notícias - a da venda do livro e a do atrito no Harlem.
Aviso
Viajo amanhã para São Paulo para participar da comissão julgadora do Prêmio Folha. Não haverá, por esta razão, a Crítica Interna.
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