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27/09/2006
MARCELO BERABA
Folha e "Estado" mudaram suas Primeiras Páginas no correr da impressão em função das notícias que esquentaram a campanha eleitoral.
A Folha manteve a manchete - "Dólares do dossiê vieram de Miami legalmente, diz PF" -, mas acrescentou, na Edição SP, a cobertura do debate entre os candidatos ao governo de São Paulo - "Rivais de Serra atacam segurança em debate" - e a notícia de que a "Justiça manda prender Freud e mais 5 ligados ao escândalo". Embora a decisão da Justiça tenha sido de segunda à noite, a imprensa só tomou conhecimento tarde, pelo que parece. O "Estado" começou a rodar, como a Folha, com o resultado parcial das investigações sobre o dossiê, mas com uma manchete que questiona a Polícia Federal - "PF já sabe tudo sobre os dólares do PT, e não conta". Depois, mudou a manchete para os mandados de prisão: "Justiça manda prender 6 petistas ligados a dossiê". O jornal manteve o título sobre os dólares e não deu destaque para o debate, exceto por uma foto de Mercadante e Serra ("Debate: Jogo de duplas"). Em relação aos dólares do dossiê, vale lembrar que o "Estado" já tinha dado, tendo como fonte a mesma Polícia Federal, que "Parte do dinheiro entrou ilegalmente no País".
O "Globo" também saiu com a ordem de prisão: "Justiça decreta prisão de envolvidos com dossiê".
Nenhum dos grandes jornais deu destaque na Primeira Página para a pesquisa eleitoral da CNT/Sensus, a mais recente (feita depois da do Ibope e do Datafolha) e a que dá a maior diferença entre Lula e a soma de seus adversários.
A Folha traz, enfim, uma notícia relevante sobre a gestão do ex-governador Geraldo Alckmin em São Paulo: "Alckmin deixou R$ 1,2 bilhão de rombo para Lembo em SP". A chamada teve mais destaque na Edição Nacional.
Eleições 2006/Crise do Dossiê
Desapareceu, na Edição SP, a meia página de noticiário sobre o suposto envolvimento do ex-ministro Barjas Negri (PSDB) no escândalo dos sanguessugas publicada na Edição Nacional.
Os títulos das reportagens da Edição Nacional que caíram: "Presidente de CPI vê prova contra tucano", "Empresário daria à Justiça papéis contra tucano" e "Abel agora diz que foi duas vezes à Saúde" (página A7).
Para abrigar o noticiário dos debates que terminaram tarde, a Edição SP teve de excluir algumas reportagens publicadas da Edição Nacional. Precisavam ser exatamente as referentes ao noticiário sobre o suposto envolvimento dos tucanos?
Justiça
Ficou muito reduzida e quase sem visibilidade, na Edição SP, a notícia de que foi extinta a ação penal contra o juiz federal Ali Mazloum ("STF extingue ação penal contra juiz", pág. A13).
Coronel Ubiratan
Segundo a Folha, nenhuma prova material ligando Carla [Cepollina] à morte do coronel Ubiratan havia sido apresentada oficialmente até ontem. Mesmo assim, a polícia disse que a namorada matou o coronel e o jornal publicou a notícia (é o título da Primeira Página da Folha de hoje e de vários jornais).
Acho que temos aí um bom caso para a reflexão da Redação. O jornal se baseia na palavra da polícia (e na iminência do indiciamento da namorada, anunciado há dois dias), mesmo sem as provas materiais apresentadas. A polícia tem fé pública, e é provável que seja esta a justificativa do jornal para publicar a notícia que incrimina a namorada mesmo sem as provas.
A Folha e os outros jornais agem corretamente ao noticiar o caso desta forma antes do indiciamento? Lembro de dois outros casos famosos em que a dinâmica do noticiário foi a mesma - a polícia tinha suspeitos, incriminou-os publicamente sem provas, a imprensa publicou as acusações e depois a própria imprensa teve de fazer a sua mea culpa por precipitação e irresponsabilidade. Foram os casos da Escola Base - e ali havia, desde o início, pelo menos um laudo pericial que parecia sustentar as suspeitas - e no crime da Rua Cuba.
Como disse, é um caso para reflexão.
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