Ombudsman Folha   Folha Online
 
04/10/2006

MARCELO BERABA

As manchetes dos principais jornais ainda se referem aos desdobramentos do resultado eleitoral. A exceção é o "Estado", que deu visibilidade para o noticiário das eleições mas abriu uma manchete em seis colunas para o desastre do avião da Gol: "Legacy é culpado pela tragédia". A Folha ou foi mais cautelosa ou não teve as fontes do "Estado": "Aeronáutica suspeita de falha no Legacy em acidente".

Em relação ao segundo turno das eleições, o alto da Edição São Paulo da Folha é inteiro para o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin: a foto (com os Garotinho), a manchete ("Casal Garotinho vai apoiar Alckmin") e a submanchete, uma entrevista com o tucano ("Lula está à minha direita, afirma candidato do PSDB"). O "Globo" deu uma informação a mais do que a Folha na manchete: "Apoio de Rosinha e Garotinho a Alckmin abre crise no Rio". E registrou: "César Maia critica aproximação e diz que aliança é 'tiro na cabeça' do tucano". O jornal do Rio só publicou uma foto, de Alckmin com o casal do Rio.

O "Estado" é o único dos três grandes jornais que desde segunda-feira, com a definição do segundo turno, vem tendo a preocupação de editar na Primeira Página, em igualdade de condições, as fotos dos dois candidatos, Lula e Alckmin. O título eleitoral do "Estado": "Lula escala ministros e aliados para atacar PSDB" (na Folha, "Ministros tiram férias para reforçar a campanha do PT"). Segundo o "Estado", "Serra já nomeia e interfere em decisões".

Eleições 2006

Na memória que o jornal faz hoje a respeito da força do casal Garotinho, "Peemedebista sofre declínio político no Rio" (pág. A4), é reproduzida a versão de que o ex-governador "tinha usado na sua pré-campanha um avião pertencente ao Comendador Arcanjo (PSDB), acusado de comandar o crime organizado em Mato Grosso". Dois problemas:

> - Se não me engano, ficou comprovado que o ex-governador alugou o avião de uma empresa que tinha autorização da Justiça para alugá-lo e ele não tinha conhecimento de que pertencia ao Comendador. Se estou certo, é um ponto importante que deve ser esclarecido. Como saiu, ficou parecendo que o ex-governador tratou diretamente com um criminoso ou teve o apoio dele.

> - O Comendador Arcanjo pertence ao PSDB? Se não, está errada a indicação da sigla entre parêntesis, mesmo que ele em algum momento tenha pertencido. Se pertenceu e já não pertence mais e o jornal achou relevante destacar a informação, deveria ter escrito de outra forma - ex-PSDB ou algo parecido.

Segundo a nota de abertura do "Painel" (pág. A4), surgiu ontem uma "nova denúncia de compra de votos ligada ao grupo comandado pelo casal" Garotinho. Não vi a notícia da tal denúncia na Folha, apesar do casal ser a manchete da Primeira Página.

Não entendi por que a formalização do apoio de Sérgio Cabral a Lula ("Lula e Cabral formalizam aliança no Rio") não teve, na Edição Nacional (a que chega ao Rio), o mesmo destaque do apoio dos Garotinho a Alckmin. A notícia de ontem da Folha foi que Sérgio Cabral estava sendo assediado por Lula e Alckmin (página Especial A6). O fechamento do acordo dos dois candidatos (Lula e Cabral) é, portanto, uma notícia nova e deveria ter tido o mesmo destaque da outra.

Aliás, o jornal deveria ter editado juntas as duas informações sobre o segundo turno no Rio. Teria sido mais fácil para o leitor entender a confusão das alianças que se formaram no Estado, suas causas e possíveis conseqüências.

Fiquei sem entender se o texto "Programa do PT vai tentar tirar o foco do dossiê" (pág. A8 da Edição SP) é um texto de opinião, de análise ou informativo. O texto conclui, sem atribuir a ninguém, que "os petistas tentarão, em vão, tirar esse debate [ética e dossiê] da campanha". Por que "em vão"? E se conseguirem?

A reportagem "Candidatos linha-dura não se reelegem e 'bancada da bala' fica enfraquecida" (pág. A15) fez um levantamento incompleto. Um exemplo: o texto cita a saída de Josias Quintal, do Rio, mas não registra a eleição de Marcelo Itagiba e Marina Magessi. É possível que um levantamento mais cuidadoso pelos Estados acabe mostrando que houve substituições na "bancada", e não necessariamente um enfraquecimento.

Acabamento

> As frases destacadas na página A4 da Edição Nacional não têm nada a ver com a reportagem sobre o apoio do casal Garotinho a Alckmin. Elas são transcrições do depoimento de Jorge Lorenzetti à PF.

"Dinheiro"

A Cia. de Bebidas Ipiranga, objeto da reportagem da capa do caderno ("Fabricante da Coca é autuada em R$ 18 mi") não tem presidente, porta-voz, diretor, rosto, um nome que apareça? O sujeito das aspas é sempre uma companhia sem rosto? De quem é a companhia? O jornal não acha isso estranho? Está dando para o caso o mesmo tratamento que deu para outros casos de empresas autuadas por sonegação fiscal?

Segundo o "Estado" e a "Gazeta Mercantil", Daniel Dantas foi condenado por corte da Inglaterra em ação ganha por Luís Demarco Almeida. Não cabe mais recurso. Não vi na Folha.

"Cotidiano"

Como assinalei acima, a reportagem do "Estado" sobre o acidente aéreo é conclusiva - "Legacy enganou controle aéreo e ignorou alertas pelo rádio" -, enquanto a da Folha está num estágio anterior - "PF investiga se piloto do Legacy falhou". A fonte da Folha é a Polícia Federal; a do "Estado" são peritos da Aeronáutica. Mesmo a reportagem da Folha com base em fontes da Aeronáutica não é tão conclusiva: "Aeronáutica suspeita de defeito no Legacy" (título da Edição SP). Na Edição Nacional, a capa foi para a Aeronáutica, mas depois mudou para a Polícia Federal.

A Folha registra, no "Outro lado" publicado na capa do caderno, que "Empresa [do táxi aéreo] diz que pilotos são habilitados" para conduzir o modelo Legacy 600. O "Estado", no entanto, tem informações colhidas nos Estados Unidos, na agência americana de aviação, que não há registro de habilitação do piloto neste tipo de aeronave. A ver.

A Folha traduz o artigo do repórter do "New York Times" ("Foram os 30 minutos mais assustadores da minha vida") mas não informa, como fez o "Estado", que o artigo, publicado no jornal, no site do jornal e no seu blog, provocou manifestações de leitores que protestaram por entender que o relato da tragédia com o Boeing ficou em segundo plano. Segundo o jornal, muitos acharam que ele foi insensível e precipitado (por chamar os pilotos do jatinho de heróis) e a reportagem acabou retirada da primeira página do portal. Teria sido importante a Folha ter percebido e registrado esta reação.

     
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