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30/10/2006
MARCELO BERABA
Como os principais jornais retrataram o resultado final da eleição presidencial:
Folha - "Lula é reeleito, promete crescimento e pede união".
"Estado" - "Lula promete abrir segundo mandato com reforma política".
"Globo" - "Reeleito Lula, governo fala agora no 'fim da era Palocci'".
"Valor" - "Lula conquista segundo mandato" e "Novo programa fiscal a caminho".
"Gazeta Mercantil" - "Lula, mais de 58 milhões de votos, propõe conciliação".
"JB" - "Lula promete 1º mundo".
"O Dia", que nesta campanha eleitoral não escondeu o apoio à reeleição, fez a manchete mais "lulista" entre os jornais de peso que li: "O povo não é bobo e elege Lula de novo".
Eleição 2006
A Folha editou um caderno especial com 20 páginas com os resultados do segundo turno das eleições para a Presidência e para os governos estaduais, contra 24 páginas do "Estado". O caderno estava bom, embora com vários problemas.
Na cobertura dos fatos de ontem, ponto para a reprodução da íntegra do discurso feito por Lula após a confirmação de sua reeleição, embora deva se lamentar que o jornal não tenha conseguido editar o texto na Edição Nacional fechada às 21h45.
Na reconstituição dos bastidores da campanha eleitoral, destaque, pela informação exclusiva, para a reportagem "PT pensou em apostar na divisão do país" (título da Edição Nacional, pág. 6). A outra reportagem que completa os bastidores do primeiro mandato do governo Lula - "Durante a crise, ministros sugeriram renúncia" - desapareceu na Edição SP.
Boa a idéia de colocar, na seção "Entrevista da 2ª", as mesmas questões sobre o significado da reeleição de Lula e sobre o seu novo mandato para oito especialistas com pontos de vistas distintos.
O infográfico "A votação para presidente" (pág. 7 da Ed. SP) deveria ter incluído os percentuais dos votos válidos para cada candidato em todos os Estados neste segundo turno. A reportagem que acompanha o infográfico - "Alckmin encolhe no segundo turno; Lula sofre derrota em sete Estados" - faz referências aos votos válidos.
O jornal deveria ter contemplado o ponto de vista de um intelectual do nível de Francisco de Oliveira e de José Arthur Giannotti que escrevesse um artigo especial para a Folha com o ponto de vista de quem votou em Lula com convicção. Os dois artigos publicados são bons, mas ambos são de críticos do governo, como se identificam.
Acho que faltou uma reportagem que tivesse informações sobre o que se passa neste momento no interior do PT (os enfrentamentos entre as diversas forças e projetos partidários) e que explorasse o futuro imediato do partido. Mudará? Será "refundado"? Continuará o mesmo? Como estão se movimentando as várias articulações internas? Quais as próximas crises?
Faltou também a expectativa dos movimentos sociais - MST, setores "progressistas" das igrejas Católica e evangélicas, negros, sem-teto etc. - em relação ao segundo mandato. Houve frustrações em relação ao primeiro mandato? Haverá mais cobrança agora? De que tipo?
E a repercussão internacional?
Na cobertura dos resultados para os governos estaduais, o jornal não conseguiu evitar o que Janio de Freitas chamou (na coluna de hoje, "A carta de Lula", na página A5 de Brasil) de "precipitações do jornalismo". Lá está, na página 15 da Edição Nacional: "Derrota do PFL marca fim das oligarquias". Fim das oligarquias? É um tanto de ingenuidade e outro tanto de falta de informação.
A ficha deve ter caído e houve a mudança para a Ed. SP - "Resultado expõe derrota de oligarquias".
A Edição Nacional circulou sem a coluna de Mauro Paulino, diretor do Datafolha.
Era inevitável a pauta comparando as comemorações da vitória de Lula em 2002 e agora em 2006. Mas o leitor da Edição SP saiu perdendo com a substituição da seleção de charges de Angeli, Jean e Glauco (contracapa da Edição Nacional) pela reportagem "A festa encolheu". O jornal deveria ter tido espaço para as charges e as reportagens. Ficou parecendo que as charges entraram na Edição Nacional como calhau, e não como opção editorial.
Aliás, a reportagem "A festa encolheu" (na Ed. SP) faz referência a uma missa a São Judas Tadeu no sábado mas não informa em que igreja, horário, nome do pároco, alguma informação mais precisa sobre um fato que considerou tão importante a ponto de encerrar o texto fazendo contraste com o desânimo descrito na festa de ontem à noite na Avenida Paulista.
> O jornal informa, na Primeira Página e na capa do caderno "Eleições 2006" da Edição Nacional, que o presidente Lula, com a reeleição, é o 39º presidente do Brasil. Esta informação sumiu na Edição SP. Estava errada? Se sim, precisa ser corrigida.
Números
Números soltos não querem dizer muita coisa. A reportagem "Eleito herda Estado com déficit de R$ 2,2 bi" (pág. 16 do caderno "Eleições 2006") informa que o consumo de água por habitante no Rio é de 550 litros. Mensal? Anual? É muito? É pouco? Há algum padrão internacional? Pode ser comparado com outros Estados? O texto diz que o dado é "aparentemente positivo", mas indica desperdício e ineficiência na distribuição. Por que?
Dossiê
Tem razão a coluna de Jânio de Freitas de domingo ("Iguais, mas diferentes") quando avalia que o tratamento dado pelos meios de comunicação (e pela Polícia Federal) à trama armada em Pouso Alegre, Minas, que envolve o PSDB, não está merecendo dos jornais o mesmo tratamento que deram ao envolvimento do PT no dossiê dos Vedoin. O caso de Pouso Alegre já sumiu das páginas.
México
A Folha não vem dando a atenção devida para a grave crise política no México provocada pelos distúrbios violentos e pelos assassinatos em Oaxaca. Pela dimensão que os protestos assumiram e pela reação do governo, já era hora de o jornal ter informações próprias, e não apenas via agências, e textos analíticos que ajudem a explicar o que está ocorrendo naquele país.
Controle de vôo
Há um aspecto da operação-padrão imposta pelos controladores de vôos desde sexta-feira que a Folha apenas mencionou ("Para sindicalista, acidente gerou reavaliação do trabalho", na Edição Nacional, e "Queda do Boeing motivou protesto", na Ed. SP), mas sem se aprofundar: o movimento parece ser uma confissão de culpa, ainda não assumida oficialmente, de que o desastre do Gol também teve alguma responsabilidade do controle aéreo.
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