Ombudsman Folha   Folha Online
 
09/11/2006

MARCELO BERABA

A Folha fez bem em dar visibilidade, na Primeira Página e internamente, sem histeria, para a quebra dos sigilos do telefone do jornal em Brasília e do celular da repórter. Mesmo que não tenha havido a intenção de violação do sigilo da fonte ou de intimidação, o fato é que houve a quebra dos sigilos. Não é um problema só do jornal nem somente da garantia da liberdade de imprensa. É mais um caso a demonstrar como o recurso de quebra de sigilo virou rotina (e não apenas da Polícia Federal, mas das polícias estaduais) e vem sendo mal utilizado, às vezes de forma criminosa _como já vimos acontecer em casos em que, sob o pretexto de monitorar criminosos, a polícia espionou cidadãos comuns.

O assunto principal dos grandes jornais foi o resultado das eleições nos Estados Unidos, e não poderia ser outro o destaque.

Folha - "Caos no Iraque derrota Bush; secretário da Defesa renuncia".

"Estado" - "Bush é derrotado e Rumsfeld cai".

"Globo" - "Ação de Bush no Iraque é reprovada e Rumsfeld cai".

A manchete do "Valor" esquece o mundo e é para iniciados: "Vitória democrata facilita a renovação do SGP". Aliás, uma avaliação diferente da feita pela Folha: "Democratas podem dificultar comércio com o Brasil".

Os dois jornais econômicos têm destaques na capa que ajudam a entender o resultado das eleições brasileiras: no "Valor", "Estados do Sul começam a sair da crise econômica"; na "Gazeta Mercantil", "Relatório da ONU mostra Brasil menos desigual". [A "Gazeta Mercantil" e o "JB" quebraram o embargo pedido pela ONU para a divulgação do relatório anual do Pnud.]

O "Estado" deu bastante visibilidade para mais uma ação criminosa em Gaza: "Ataque de Israel mata 18, a maioria mulheres e crianças". A Folha deu apenas o registro de um título, sem texto: "Israel mata 8 crianças em Gaza, e Hamas dá fim a cessar-fogo". As mortes exigiam mais destaque.

Folha

> A repercussão "Ex-ministros contestam a polícia e a Justiça" (pág. A8) informa que foram ouvidos três ex-ministros da Justiça, mas só cita dois, Paulo Brossard e José Paulo Cavalcanti Filho.

> Parece haver um erro de datas neste trecho, que reconstitui os telefonemas da Folha: "A Folha ligou para o telefone celular de Gedimar somente a partir do dia 21, ou seja, dois dias depois da última ligação da Editora Abril. Dois dias antes, no dia 23, a Folha também ligou para o telefone de Gedimar por meio de dois outros números do jornal, mas esses não tiveram o pedido de quebra feito".

O jornal podia lembrar outros casos em que, no meio de pedidos genéricos de quebra de sigilo telefônico, foram quebrados os sigilos de pessoas que nada tinham a ver com a investigação. Parece claro que nem sempre a Justiça solicita à Polícia todas as informações necessárias para avaliar se deve ou não autorizar a quebra do sigilo.

Ministério

O jornal afirma, na Edição Nacional ("Lula deve ser reunir com Gerdau para discutir ministério", pág. A10), que Fernando Haddad já está confirmado no Ministério da Educação no próximo mandato. O "fico" do Lula pareceu dúbio, como o próprio jornal explica na página A5 quando informa que Lula explicou que foi uma brincadeira. A ver.

Publicidade

O jornal deu bem, na Edição SP, as conclusões do relatório do TCU sobre gastos com publicidade oficial ("TCU vê prejuízo em gastos com publicidade", pág. A11). Uma observação: como o relatório se refere ao período de 2000 a 2005, é importante que também sejam ouvidos os responsáveis pela propaganda do governo FHC.

É impressionante que os governos tenham gasto no período mais de R$ 5 bilhões em ações publicitárias. Há uma discussão de fundo, sobre a limitação de verbas para propaganda do governo, que o jornal deveria trazer para as suas páginas.

Como a reportagem só saiu na Edição SP, imagino que amanhã estará também na Edição Nacional e com novas informações.

Estados Unidos

Está boa a cobertura da Folha, com muitas informações, análises, projeções e repercussões.

Há problemas de acabamento na Edição Nacional. Dois exemplos:

- A reação de Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, está em duas retrancas, na página A19 ("Chávez comemora") e na página A20 ("Países pedem nova política ao Congresso americano").

> - Embora no curto perfil do senador eleito Bernie Sanders (pág. A16) esteja informado que ele será o único independente no Senado, o perfil de Joe Lieberman diz que ele foi eleito senador como independente. Neste caso, que se repete na Edição SP, acho que há um erro.

Embora o "Valor" e a Folha tenham avaliações um pouco diferentes do que poderá ocorrer com o comércio exterior entre os Estados Unidos e o Brasil agora que os democratas terão maioria no Congresso, fica claro que os dois jornais ainda estão tateando, sem informações seguras, sobre o que deverá ocorrer.

Senti falta de um texto com informações oficiais e de bastidores sobre como o governo brasileiro e o Itamaraty estão interpretando a vitória dos democratas e a derrota de Bush. O "Estado" avalia que a saída de Donald Rumsfeld da Defesa é boa para o Brasil. Será? Fará diferença?

Embora a chamada na Primeira Página faça referência ao envolvimento de Robert Gates, o novo secretário de Defesa dos Estados Unidos, no escândalo Irã-Contras, o pequeno perfil publicado em "Mundo" ("Ex-diretor da CIA toma lugar de Rumsfeld", pág. A16) ignora o caso.

Oriente Médio

A atenção justificada do jornal nos resultados das eleições nos Estados Unidos resultou numa pouca atenção com o que ocorreu ontem na faixa de Gaza. O resultado trágico da ação militar e as reações que certamente ocorrerão justificavam mais espaço no jornal ("Israel mata 8 crianças em Gaza, e Hamas cobra revide", pág. A21).

Aviso

Participo amanhã de um seminário no Instituto Ayrton Senna, em São Paulo, e por esta razão não haverá Crítica Interna.

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.