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18/12/2006
MARCELO BERABA
O aumento salarial autoconcedido pelos congressistas se mantém no topo dos escândalos dos últimos dias e ainda é o assunto mais destacado pelos principais jornais, embora nem sempre tenha sido manchete.
Folha: "Deputados de 19 Estados também terão aumento" (sábado), "Lula é o presidente mais bem avaliado, mas esperança cai" (domingo) e "Congressistas vão à Justiça contra 91% de aumento" (hoje).
"Estado" - "Deputados de 25 Estados também se dão aumento" (sáb.), "Reajuste estoura teto de 25% dos parlamentares" (dom.) e "Projeto vai tentar barrar supersalários" (hoje).
Embora venha acompanhando bem o aumento dos deputados e senadores, o "Globo" destaca, desde sábado, as operações da Polícia Federal que levaram à prisão de dezenas de policiais do Rio envolvidos com tráfico de drogas e as máfias dos caça-níqueis. A Folha registrou as prisões nas capas de sábado e de domingo, mas hoje já esqueceu o caso, até mesmo na Edição Nacional. É o maior caso de prisões de policiais no Rio, um Estado que provavelmente deve deter o recorde de policiais acusados de envolvimento com crimes. Um dos acusados investigados foi o segundo homem da estrutura policial do Rio nos últimos sete anos. Além disso, pela primeira vez uma operação desta resulta em acusação contra um jornalista, que estaria envolvido, segundo a PF, com o crime. Não há justificativa jornalística para o jornal deixar de dar visibilidade para o caso na Primeira Página. Este não é um assunto local, tem interesse nacional.
As manchetes do "Globo": "PF prende 78 PMs e caça auxiliares de Álvaro Lins" (sáb.), "PF fecha bingos e apreende 6 mil caça-níqueis no Rio" (dom.) e "PF: policiais de Lins protegiam as duas máfias de caça-níqueis" (hoje).
Trabalho digno
A Folha publica, pela segunda vez e agora na Primeira Página de domingo, um informe publicitário que condena as "relações de trabalho disfarçadas que retiram a dignidade do trabalhador" - como as práticas irregulares de cooperativas fornecedores de mão-de-obra, a contratação de pessoas jurídicas (PJs) e a utilização ilegal de estágios. O anúncio informa apenas que é publicado em decorrência de acordo judicial. Pela importância do assunto que trata, pela atenção que provoca e pelo inusitado de sair publicado na Primeira Página do jornal sem identificação da empresa punida, o jornal deveria dar aos seus leitores alguma informação a mais e aproveitar o "gancho" para uma reportagem sobre o problema.
Gol 1907
A entrevista exclusiva com os pilotos do Legacy, nos Estados Unidos, publicada pela Folha ontem ("Americanos que pilotavam Legacy negam falha no rádio"), coroa uma cobertura que tem o mérito, entre outros, de não ter negligenciado o acompanhamento das investigações do acidente e de suas conseqüências no caos aéreo. Destaco porque é muito freqüente os jornais (inclusive a Folha) abandonarem no meio do caminho assuntos importantes que exigem acompanhamento ininterrupto. No caso do acidente e do caos aéreo, é evidente (e bem sucedido) o esforço do jornal para superar as deficiências de conhecimento técnico e a falta de fontes primárias.
Concentração
É muito importante a reportagem "Verba federal para Record cresce sob Lula" (A9) porque comprova, mais uma vez, o alto índice de concentração publicitária nos meios de comunicação, principalmente nas TVs. Embora o destaque para a Record seja justificado por ser a maior novidade do levantamento e pelo aspecto político, o fenômeno mais importante continua a ser o percentual destinado à Rede Globo. O crescimento da Record e de outras emissoras é até desejável se queremos um modelo de comunicação mais equilibrado. De qualquer forma, o jornal está certo ao apontar os interesses políticos que estão por trás da distribuição das verbas públicas de publicidade, como no caso da Record.
É uma pena que a edição da página A9, cortada por um anúncio, não tenha permitido a elaboração de um único infográfico que juntasse as informações das verbas distribuídas com as de audiência para facilitar a comparação. As distorções ficariam mais evidentes.
Segundo o texto "Verba à Play TV caiu neste ano com 'Lulinha'", na mesma página, com a entrada do filho do presidente na Play TV/Rede 21, "a expectativa do mercado publicitário era a de que as verbas de propaganda federal poderiam aumentar para esse canal". Quando o mercado publicitário manifestou esta expectativa? Não seria da Folha esta expectativa?
Foz do Iguaçu
A reportagem "Xiitas da Tríplice Fronteira não falam sobre Hizbollah" (A12) traz poucas novidades, destaca no subtítulo uma informação já conhecida - "EUA acusam membros da comunidade de financiar o grupo islâmico libanês" - e não informa, por exemplo, como o próprio Brasil (Itamaraty, Polícia Federal, governo do Paraná, Prefeitura de Foz do Iguaçu, comunidade local) enxerga as acusações dos EUA e o comportamento da comunidade árabe.
Policiais
A cobertura jornalística da Folha misturou as duas operações da Polícia Federal no Rio - a que investiga o envolvimento de policiais e de um jornalista na máfia dos caça-níqueis e a que investiga o envolvimento de policiais com o narcotráfico em favelas. Embora ambas tenham os policiais e a cúpula da polícia do Rio como alvo, são operações com origem em investigações diferentes e crimes distintos. É melhor, portanto, para a compreensão do leitor e da própria apuração jornalística, que sejam tratadas separadamente. Como a tendência é concentrar a atenção no caso do ex-Chefe da Polícia Civil, o caso dos mais de 400 policiais suspeitos de envolvimento com o narcotráfico ficará esquecido.
Checagem
O jornal vem identificando o deputado Chico Alencar como do PT (A4 de hoje e A9 de sábado). Ele é do PSOL.
Talvez esteja errado o número publicado pelo jornal para mostrar como a Prefeitura de Belo Horizonte está com a cabeça no século 21 ("Fora de SP, 'PT vitorioso' já articula alianças para a sucessão de Lula", A6 de hoje). Segundo o texto, "quase 170 belo-horizontinos votaram na internet para decidir como a prefeitura vai investir R$ 20,2 milhões em nove obras, a partir de 2007". Só 170?
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