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02/08/2004

MARCELO BERABA

A manchete da Folha de DOMINGO é o achatamento salarial segundo pesquisa do Dieese: "País cria emprego, mas de baixo salário". O "JB" também trouxe pesquisa, do IBGE, e também trata de emprego: "Sem-carteira sustentam crescimento". O "Estado" tem levantamento econômico do Ministério do Desenvolvimento: "Investimento das empresas cresce 30% no semestre". E o "Globo" traz levantamento do Tribunal de Justiça do Rio: "Ações contra 16 empresas paralisam a Justiça no Rio". "Istoé" deixou a capa com a Redação, e o assunto ainda é o presidente do BC, Henrique Meirelles ("O que ele não explica"). O presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, é acusado de mandar dinheiro para fora sem declarar à Receita. "Veja" dedica a capa ao "novo mapa do cérebro" e tem chamada para o Banco Central: "Mais um embaraço para Meirelles". "Época" lançou um suplemento semanal novo, "Época Negócios", possível embrião de uma futura revista de economia. A capa da revista é para este novo suplemento e para o seu principal assunto, uma entrevista exclusiva com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci: "O desabafo de Palocci". Os jornais de banca não perdem tempo com pesquisas sobre emprego e renda e vão direto ao que interessa, oportunidades. Os do Rio, no domingo: "Parceria Extra/CAT traz 1.950 vagas de emprego. Preencha o seu cupom" ("Extra") e "Agosto: mês de concursos - Confira 5.591 vagas" ("O Dia"). O "Diário de S. Paulo", hoje: "Veja onde conseguir emprego sem ter faculdade".

Banco Central

A Folha foi mais rápida desta vez e entrou, ainda no sábado, no caso das novas denúncias trazidas pela "IstoÉ" e pela "Veja" contra o presidente do BC e contra o presidente do BB. No domingo, manteve o assunto ("Casseb, Candiota e Meirelles negam irregularidades",pág. A12), mas como "outro lado". Hoje, segunda, o assunto desapareceu. O "Estado" ignorou, no sábado, as denúncias contra Meirelles e concentrou seu noticiário no presidente do BB, "acusado de sonegação fiscal". No domingo, o jornal tratou do BC: "Novas denúncias, mas Meirelles diz estar tranquilo". Na edição de hoje, o assunto saiu da primeira página, mas foi mantido internamente: "Meirelles inicia semana sob fogo cruzado" (Economia). O "Estado" repercute também a entrevista da "Época" com Palocci ("Autonomia do Banco Central continua de pé"). O "Globo", no sábado, só trata do Casseb. No domingo, tem chamada no alto da sua primeira página para o presidente do BC: "Denúncias complicam situação de Meirelles". Na edição de hoje, ele se defende: "Meirelles diz que nada tem a esconder". Vai ser uma semana com o governo na defensiva. Por conta de outros escândalos, como o da compra de ingressos de show para ajudar o PT, Casseb parece ser o elo fraco.

SÁBADO

Tudo igual


Se tivessem combinado, os editores da Folha e do "Estado" não teriam conseguido fazer capas tão iguais como as que produziram no sábado. Nas bancas, dobrados, os dois jornais estão absolutamente iguais. A mesma foto (desocupação de terra em Goiás), a mesma manchete (superávit no primeiro semestre), a mesma diagramação (foto à esquerda, manchete em três colunas e três chamadas), praticamente os mesmos assuntos. É ruim para os dois jornais. Mostra falta de opção, falta de investimentos próprios, total subordinação à agenda (fraca) do dia.

DOMINGO

O que há de melhor


Eleições - "Partidos usam brecha para esconder doação eleitoral" (pág. A4 e seguintes). O jornal encontrou, na Justiça Eleitoral, nova fonte revelante de informações sobre doações para as campanhas eleitorais. O que se sabia até agora era referente às doações feitas diretamente para os candidatos. O jornal mostrou que as empresas fazem mais doações através dos partidos e esta grana deságua nas campanhas. O assunto teve seqüência na edição desta segunda (pág. A5), que relaciona as empresas que ajudaram nas campanhas do PT e do PSDB de SP com os contratos da Prefeitura e do governo do Estado.

Iraque - "O Iraque pelas lentes de um brasileiro", relato em Mundo (págs. A22 e A23) do fotógrafo Maurício Lima de sua passagem pelo Iraque. A experiência, narrada na primeira pessoa, diz mais do cotidiano do Iraque do que as notícias fragmentadas e sem contexto das agências. A editoria repete iniciativa que já tinha sido bem sucedida com o relato da jornalista brasileira que se juntou aos ilegais na Inglaterra. Um senão: o perfil do fotógrafo, na pág. A22, faz menção a uma foto, premiada nos Estados Unidos, de um iraquiano morto. A foto, na pág. A23, está mal editada e mal identificada.

Elio Gaspari - O jornal mencionou, durante a semana, a presença e o discurso do novo fenômeno político da América, o negro Barak Obama, na convenção Democrata, mas não o tratou como grande fato jornalístico que merecia. Imaginei que teria alguma reportagem sobre ele na edição do domingo, mas o jornal preferiu continuar falando de Teresa Kerry e das filhas dos candidatos. A coluna do Gaspari salva o jornal.

A coluna informa ainda que o PT nacional está entregando a cabeça de Jorge Bittar, candidato à Prefeitura do Rio, ao PFL de Cesar Maia.

Cotidiano - "Brasileiro é adotado e abandonado nos EUA" traz um aspecto novo do drama que o jornal vem chamando de "Estranho no ninho", de brasileiros adotados ou ilegais com problemas nos EUA e outros países. Neste caso, ajuda a recuperar e a entender a história de João Herbert, adotado nos EUA, expulso do país, inadaptado ao Brasil e assassinado há poucos meses sem que os jornais tivessem percebido a tragédia. O personagem agora é outro deslocado, Fabiano do Carmo Oliveira.

Revista - "Herdeiros atômicos". Bons personagens, boas histórias, bom texto e boas fotos.

Problemas

Dinheiro - Não é correto afirmar que Armínio Fraga foi o "mentor da política econômica nos últimos quatro anos da era FHC", como abre o side "Armínio investe em cafeteria". Pode-se dizer que ele foi o executor da política monetária, por exemplo. Mas, mentor da política econômica? Acho impróprio.

Dinheiro - É um desperdício, em épocas de vacas gordas ou de vacas magras, enviar um repórter para percorrer trechos da BR-364 e reduzir seu relato a uma reportagem pequena e perdida na edição ("Motorista leva 2 h para percorrer 25 km", pág. B6). O levantamento feito pelo jornal sobre os problemas de infra-estrutura e de falta de matéria-prima que impedem ou afetam o crescimento do país ganharia se a única reportagem feita fora da Redação tivesse mais espaço e fosse mais bem trabalhada. Um detalhe: a reportagem não informa quantos quilômetros da BR-364 o repórter percorreu. O relato parece indicar que foi apenas um trecho dentro do Mato Grosso. Mas o mapa, que traz o traçado completo da rodovia, induz a pensar que o jornal viajou de Cuiabá a Porto Velho.

SEGUNDA

Capa


A explosão no Paraguai e o "melhor vôlei do mundo" são os assuntos de todos os jornais. A Folha tem bons investimentos na cobertura eleitoral ("Candidato se promove com verbas da Câmara" e financiamento das campanhas, sem chamada na primeira página). As fotos da Folha e do "Estado" são, mais uma vez, iguais.

Eleições

Se a reportagem, boa, da página A5 de hoje, mostra que tanto a Prefeitura (PT) quanto o governo do Estado (PSDB) beneficiam as empresas que contribuíram para as campanhas dos seus partidos, por que o título principal é para a Marta Suplicy? Qual foi o critério jornalístico? Eleição? Os dois partidos e governos têm candidatos. Valores em jogo? Os dois são igualmente altos. O título está errado, na minha opinião. Não era difícil o jornal construir uma abertura comum aos dois governos e partidos e dar um título geral, e não menos forte, que mostrasse que a prática é comum.

     
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