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23/08/2004
MARCELO BERABA
Precisou de uma nova onda de ataques e mais dois mortos para os jornais de São Paulo considerarem, enfim, as chacinas de mendigos no centro da capital o principal assunto e levá-lo para as suas manchetes de HOJE. Antes tarde. Folha: "Moradora de rua morre em novo ataque". O título do "Estado" é mais forte e compreensível: "Novos ataques a moradores de rua: já são seis mortos". "Diário de S. Paulo": "Novo ataque a morador de rua mata um e fere três no Centro". O "Globo": "Novo ataque mata sexto morador de rua em SP - Quinze mendigos foram agredidos a pauladas desde quinta".
A conquista da medalha de ouro de Robert Scheidt em Atenas é a foto e o alto de página de todos os jornais brasileiros que vi, com exceção dos econômicos. Outro assunto é o roubo de "O grito", de Munch.
As manchetes de DOMINGO:
Folha: "Marta ganha prazo na dívida com União". "Estado": "Servidor de elite ganha mais que nos EUA". "Globo": "Consumo no Brasil paga mais imposto que em países ricos". Todos trouxeram cadernos especiais sobre Getúlio Vargas (50 anos de sua morte); a Folha lembrou também os 25 anos da Anistia. As capas das revistas: "Veja": "Poder interior - Os caminhos para construir uma sólida estrutura mental e emocional capaz de colocar ordem no caos do dia-a-dia". "IstoÉ": "A síndrome do pânico - Conheça os principais sintomas do problema"; "Época": "Adoção - Saiba por que essa idéia cresce no Brasil".
"Veja" atacou a "IstoÉ" e "IstoÉ" atacou "Veja" por conta do caso Ibsen Pinheiro.
SEGUNDA
Dinheiro
É um exagero e uma impropriedade jornalística usar o adjetivo "popular" para designar algum fundo de investimento, como está no título da primeira página e da capa de "Dinheiro": "Fundo menos popular rende mais" e "Fundo menos popular tem ganho elevado". O próprio mercado, que é para iniciados, desconhece estes fundos, como a própria reportagem informa. Não são, portanto, fundos menos populares, mas fundos menos conhecidos. De investimento mesmo, o "povo" conhece a poupança, e assim mesmo de ouvir falar.
Aliás, já que tratei de investimentos financeiros e povo, uma das melhores fotos de hoje está no pé da página B6 de "Dinheiro": é nítido o esforço de se enxergar as dimensões do mercado de capitais.
Chacina
O governo do Estado dizer que não tem condições de garantir a segurança de todo o Estado porque é grande demais, já seria escandaloso. Agora, dizer que não tem condições de garantir a segurança no centro da capital do Estado, aí é a decretação da falência da política de segurança pública. É difícil fazer comparações com outros secretários de segurança e dizer quem é o pior, mas as declarações feitas desde quinta-feira pelas autoridades do Estado sobre o caso dos mendigos são indecentes.
Não vi esforço do jornal para informar como o governador do Estado, Geraldo Alckmin, está tratando da crise que se abateu sobre sua política de segurança. Falta bastidor. É de se supor que o governo do Estado esteja preocupado com os estragos que o caso podem causar na imagem do governador e do seu candidato a prefeito. Tem havido reuniões na cúpula do governo para tratar disso? Há uma estratégia definida para evitar aparecer o nome do governador ligado ao caso? Há uma blindagem do governador? O secretário de Segurança está "prestigiado"? Corre o risco de cair depois de tantas bobagens que falou? Lembro que em episódio de semelhante gravidade, ocorrido no Rio recentemente (chacina na Casa de Custódia de Benfica), o jornal se destacou exatamente por mostrar os bastidores das decisões tomadas pelo governo estadual e sua estratégia para evitar maiores desgastes para a imagem da governadora e do secretário de Segurança.
Já está na hora de o jornal mudar o "chapéu" deste caso. No primeiro dia ainda se justificava compará-lo com a Candelária, do Rio. Agora, já tem vida própria, e é tão ou mais grave porque se repetiu sem qualquer ação da polícia. É melhor inventar um nome paulistano para o caso. "Estado" e "Diário de S. Paulo" têm chapéus iguais: "Barbárie".
Olimpíada
O jornal informa (Especial 9, da Edição Nacional) que Torben Grael "assume a liderança na star", mas não informa quantas regatas faltam para a final. A disputa nesta classe está no início, no meio ou já está terminando? E quando é a próxima regata? O Brasil tem chances de medalha em outras classes da vela? Com o ouro no laser, era de se esperar informações mais detalhadas sobre as outras classes em que concorrem brasileiros.
DOMINGO
Não recebi a Edição SP da Folha de sábado e de domingo. Por esta razão, as observações que seguem referem-se à Edição Nacional.
A Folha tem dois grandes investimentos em efemérides, os 25 anos da Anistia e os 50 da morte de Getúlio Vargas. Em relação à Anistia, duas observações: - O caso do José Dirceu já está muito batido, foi contado várias vezes por todos os jornais, e era dispensável. E a foto do Genoíno dentro do quadro sobre José Dirceu não se justifica. - O jornal perdeu uma boa oportunidade de discutir melhor a questão da "indústria da indenização", tema que incomoda os nossos leitores em particular por conta da indenização do Cony. A discussão ficou perdida nas entrevistas com o ministro Márcio Tomaz Bastos e com Fernando Gabeira. Mas não há um debate. O quadro "Como funciona a anistia" ajuda a entender os critérios, mas não há um debate.
É uma pena que o levantamento feito para "Dinheiro" (capa e páginas seguintes) sobre a ida de funcionários graduados do governo para a iniciativa privada ("Passagem pelo governo alavanca carreiras") tenha sido editada com tantos erros. Ainda bem que foram corrigidos na própria edição.
Não foi possível comparar os cadernos sobre Getúlio Vargas.
O "Estado" investiu com mais rapidez na chacina dos mendigos e saiu com reportagem especial, além do noticiário do dia, que a Folha também tem.
SÁBADO
Fotos
A reportagem de "Cotidiano" é sobre o concurso de miss disputado num presídio do Rio: "Portuguesa é a 1ª miss Bangu", diz o título (pág. C3 da Edição Nacional). A foto teria de ser da presa vencedora, a portuguesa. Ela é a personagem. Mas o jornal preferiu mostrar várias presas sendo maquiadas por uma presa famosa.
Problema semelhante, no caderno "Atenas 2004". Na página Especial 5, "O Personagem" do vôlei é Fabiana ("Tímida, Fabiana deixa a reserva e rouba os holofotes"), mas os holofotes da Folha estavam voltados para Érika.
Nos dois casos, o jornal chama a atenção do leitor para um personagem e publica a foto de outro. É estranho.
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