Ombudsman Folha   Folha Online
 
24/08/2004

MARCELO BERABA

O assunto mais importante para um jornal de São Paulo continua a ser, na minha opinião, a chacina de mendigos no centro da cidade. Foram duas ondas de ataques letais contra uma população indefesa; nestes ataques, foram mortas seis pessoas e nove estão feridas com traumatismo craniano, sendo que cinco estão em estado grave e podem morrer ou sobreviver com seqüelas; os ataques ocorreram no centro da maior e mais rica cidade brasileira (onde a Folha tem sede); o caso, por suas características e por todas as razões anteriores, deixou de ser um caso local e virou um caso nacional; a polícia, até a edição de hoje, não tinha um rumo; e isso tudo acontece às vésperas de uma eleição que coloca em lados opostos a Prefeitura e o governo do Estado.

Por todas estas razões, não consigo entender:

1 - que o caso não tenha sido a manchete do jornal;

2 - que o caso não tenha sido a capa de "Cotidiano".

Jornalisticamente, nenhuma das duas decisões se justificam.

A manchete escolhida --"Ganho das indústrias cai no primeiro semestre"-- é um estudo parcial da economia, trata apenas de números, e que não são muito diferentes dos números do mesmo período do ano passado. Na Edição Nacional, o estudo não era sequer a manchete do caderno "Dinheiro".

A capa de "Cotidiano" --"Governo proíbe venda de 63 inseticidas"-- é um serviço relevante, mas que não tem importância maior do que as séries de crimes que a cidade assistiu, e que ainda estão sem solução.

O editorial do jornal chama os ataques aos mendigos de "selvageria" e "barbárie". A Redação, que praticamente escondeu o caso na primeira página e internamente, deveria ter lido a última frase do texto da página A2: "Ou o país enfrenta essa realidade com a determinação que o desafio exige ou estaremos condenados a viver numa sociedade cada vez mais marcada pela selvageria".

As manchetes dos dois concorrentes:

"Estado": "Câmara quer apurar assassinato de mendigos";

"Globo": "Lula: massacre de moradores de rua 'cheira a preconceito'".

Massacre no Centro

"Estado" e "Globo" deram mais espaço e destaque para a cobertura dos ataques e assassinatos de mendigos no centro de São Paulo que a Folha. O "Estado" edita o material na capa do seu caderno "Cidades" e nas três páginas seguintes. O "Globo" abre a sua editoria Nacional, página 3, com o assunto, e o estende pelas páginas seguintes.

Além das informações sobre as investigações e a cobertura da vigília, aqueles jornais foram ouvir autoridades em Brasília, têm manifestações de parlamentares (segundo o "Estado", deputados federais vão formar comissões para acompanhar o caso) e ouviram vários especialistas em crimes em série, em grupos neonazistas e em população de rua. Além de escondida e minguada, a cobertura da Folha está incompleta.

Os jornais trazem as principais informações já levantadas pela investigação policial, mas dão destaques diferentes para os detalhes.

O "Globo" publicou três cartas de leitores (dois do Rio e um de Minas) indignados com as matanças no centro de São Paulo. Será que nenhum leitor da Folha ou do "Estado" escreveu ontem para estes jornais a respeito do assunto?

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.