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30/08/2004
MARCELO BERABA
Manchetes de DOMINGO:
Folha: "1 milhão vive longe da saúde básica em SP";
"Estado": "Maior parte das ONGs vive à custa de dinheiro público";
"Globo": "Cem mil empresas do Rio funcionam sem licença".
As revistas:
"Veja": "O Jornal Nacional que você nunca viu - Os bastidores do telejornal assistido por 30 milhões de brasileiros"; anuncia como exclusivo: "O livro dos 35 anos do JN: uma reflexão inédita sobre sua história";
"Época": "Fincado no poder - O PT se organiza como grande empresa para se manter no Planalto";
"IstoÉ": "Sexo adolescente - A primeira vez, a masturbação, o orgasmo: os jovens estão confusos. O difícil começo para eles... e para os pais".
Manchetes de SEGUNDA:
Folha: "Vôlei ganha ouro e Brasil faz sua melhor Olimpíada";
"Estado": "Governo quer ajuste de R$ 8 bi para equilibrar a Previdência";
"Globo": "Bi faz do vôlei o destaque do Brasil". Quase todos os outros jornais têm manchetes e fotos destinadas ao último dia da Olimpíada, ao ouro no vôlei, ao infortúnio na maratona e ao resultado final do Brasil.
Chacinas no centro de S. Paulo
Escrevi, na coluna de ontem ("O povo da rua"), que o jornal perdera, ao longo da semana que passou, a oportunidade de discutir com profundidade o problema das pessoas que vivem nas ruas de São Paulo. Afinal, são dez mil indigentes que, independentemente dos assassinatos, mostram as contradições da cidade.
O noticiário acompanhou as investigações policiais e a guerra político-eleitoral acirrada pelos assassinatos. Mas não deu a mesma atenção para a compreensão do fenômeno e para a discussão sobre políticas públicas capazes de enfrentar o problema.
Imaginei que o jornal se debruçaria sobre o tema no final de semana, mas acabei frustrado.
Há uma reportagem muito boa publicada no domingo ("Excluído revela estratégia de sobrevivência", pág C9), a melhor que o jornal publicou sobre a vida destas pessoas, o artigo do Josias de Souza ("SP revoluciona o combate à exclusão social", uma peça de ironia) e duas charges antológicas do Angeli (A2 de sábado e de domingo). Mas o problema e as possíveis formas de enfrentá-lo (emprego, assistência, moradia, inversão de recursos) não foram tratados. E o jornal teve duas excelentes oportunidades para fazê-lo:
- Primeiro, no tradicional debate que o jornal promove na seção "Tendências/Debates" aos sábados. O jornal preferiu perguntar para os debatedores se "os esportes de alto rendimento são sobrevalorizados no Brasil".
- Depois, no domingo, quando poderia ter colocado o problema, que mobilizou a cidade ao longo da semana, para os candidatos à prefeitura: o que pensam? como pretendem enfrentar o problema? suas propostas são viáveis ou apenas eleitoreiras? há políticas públicas bem sucedidas nesta área?
A falta de sensibilidade do jornal ficou mais evidente, na minha opinião, quando, no domingo, optou por dar mais destaque, no caderno "Cotidiano", a duas reportagens que soam alienadas no momento em que a cidade ainda não sabe o que aconteceu no entorno da Sé. A primeira é a capa do caderno, "Calçadas de SP viram prova de obstáculos". Neste momento, os obstáculos das calçadas são o menor problema das ruas de São Paulo. Aliás, como demonstra a pesquisa do Datafolha publicada no mesmo dia na página A4 de Brasil. A outra reportagem, no mínimo inoportuna, é a da pág. C6, "Centrão muda, mas não recupera glamour".
Os problemas das calçadas e do centro de São Paulo, nesta semana, foram outros. E não se tratava de buracos nem de falta de glamour.
A informação de que a Guarda Municipal pode estar envolvida nos assassinatos saiu na Edição SP de sábado ("Agressor usava farda da GCM, dizem feridos", capa de "Cotidiano"), teve repercussão na Edição SP de domingo ("Prefeitura diz que colabora, mas polícia recebe fichas desatualizadas da GCM", em Brasil, pág. A14), mas não foi publicada até agora na Edição Nacional. Fora de SP não se sabe que guardas municipais são suspeitos de terem assassinado seis moradores de rua.
Talvez o jornal possa começar a ouvir especialistas neste fórum que começa hoje em BH e que está anunciado na pág. C5 de Cotidiano ("Nova morte aflige morador de rua em BH").
Olimpíada
Esperava uma edição de hoje com os resultados completo da Olimpíada, como fez o "Globo". A Folha foi muito parcimoniosa na publicação de resultados ao longo de toda a cobertura. A edição de hoje poderia ser histórica, para consulta, se trouxesse os resultados completos (ouro, prata e bronze) de todas os esportes disputados. É algo que um jornal pode fazer, e que não está ao alcance das TVs.
Achei nossas coberturas boas em geral, e o grande problema que apontei, ao longo das competições, foi o da falta de preocupação em fazer um registro exaustivo dos resultados.
O "Globo" de hoje destinou duas páginas e meias para os resultados. Mesmo com a crise, que exige economia de papel, acho que teria sido um gasto bem feito, e que o leitor merecia. A Folha poderia ter trazido, pelo menos, a relação de recordes olímpicos e mundiais. Afinal, não foram tantos.
Além da qualidade de várias reportagens e análises feitas ao longo da cobertura, quero fazer um destaque no caderno "Atenas 2004": os textos da coluna "O maratonista", assinados por Paulo Sampaio, foram quase sempre muito bons. Ele conseguiu fugir do lugar comum das reportagens de comportamento, encontrou temas divertidos, alguns surpreendentes, e mostrou um texto bem cuidado.
SÁBADO
> A reportagem da página B4 está certa quando diz que uma juíza abriu processo contra o banqueiro Daniel Dantas. Mas o título está errado:
"Juíza denuncia Dantas por calúnia" (Dinheiro, pág. B4). Ela não denunciou, mas aceitou a denúncia do MP.
Será que a capa de "Dinheiro" ("Arrocho recorde não reduz dívida") não merecia uma chamada na primeira página? Ali estão, é verdade que num texto para iniciados, os principais números que explicam as contradições da política econômica.
DOMINGO
É tão rara a presença de um jornalista da Folha na Cisjordânia, que é uma pena que não tenha havido mais espaço para seus relatos na edição de domingo. A edição de hoje poderia ter trazido a continuação das reportagens.
Do material publicado pelos outros jornais e revistas no domingo, destaco o dossiê do "Estado" sobre as ONGs. É um assunto que justifica o interesse e o investimento. Elas têm hoje uma presença forte na economia e na sociedade, várias assumem tarefas do Estado, e algumas acabam sendo utilizadas por governos e políticos para driblar leis e licitações.
Aviso
Participarei amanhã de um seminário sobre cobertura de casos de corrupção no Sindicato dos Jornalistas do Rio e, por esta razão, não farei a Crítica Interna.
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