Ombudsman Folha   Folha Online
 
08/09/2004

MARCELO BERABA

O "Estado" foi mais o mais crítico dos jornais ao noticiar o desfile comemorativo ao Dia da Independência, em Brasília: "Governo dá tom triunfalista à festa do 7 de Setembro", é a manchete. A Folha, primeiro jornal a registrar, semana passada, a intenção do governo de transformar a festa em uma grande manifestação patriótica, fez apenas um registro fotográfico na primeira página. Na Edição Nacional, editou uma foto boa ("Enquanto os tanques não vêm"), mas comum e sem informação do que foi realmente a produção de Duda Mendonça em BSB. A foto da Edição SP, "Aquele abraço" (mostra Lula e o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima), tem mais informação e poderia ter saído na Edição Nacional. O "Globo" deu destaque para a festa, mas sem o tom crítico do "Estado": "Público recorde no Sete de Setembro --Campanha de marketing e apelo de Lula levam cerca de 60 mil ao desfile".

É um indicador negativo para a Folha e para o "Estado" que tenham editado nas suas primeiras páginas a mesma foto de Lula abraçando Vanderlei.

Embora o fato tenha ocorrido em Brasília, onde os dois jornais têm equipes próprias de fotógrafos, a foto publicada é da Reuters. O "Globo" tem foto própria.

A grande manifestação de ontem no Brasil inteiro, o "Grito dos Excluídos", não mereceu menção na capa da Folha nem na do "Estado".

A Folha retoma a discussão sobre a proposta do pacto econômico, informação exclusiva sua da semana passada, e dá ao assunto o destaque da manchete:

"Plano de pacto Fiesp-CUT divide cúpula do governo".

Publicidade oficial

Segundo a Folha, Marta Suplicy acusou o governador Geraldo Alckmin de gastos excessivos com publicidade. Segundo a Folha, Alckmin respondeu que gasta menos por habitante que a prefeita. Segundo a Folha, Marta respondeu que o Estado gasta mais de R$ 50 milhões para influenciar os votos dos leitores. Segundo a Folha, o PSDB respondeu que a estratégia de comunicação do PT pode ser comparada ao modelo nazista. Esta é a essência da reportagem da pág. A6, de Brasil ("Após cordialidade em desfile, Alckmin e Marta se atacam").

Este é o tipo de reportagem que vai ficando cada vez mais comum na campanha eleitoral, e que não acrescenta quase nada para o leitor. O modelo consiste em simplesmente reproduzir as acusações dos dois lados, sem qualquer interferência jornalística. Por interferência jornalística entendo rechear a reportagem, ou criar um texto de apoio, com informações objetivas sobre o assunto de modo que o leitor possa sair do pântano das aspas com algum dado concreto. No caso, o jornal dispõe de números das verbas publicitárias e eleitorais tanto do município como do Estado. Se o tema é publicidade, por que não aproveitar o pretexto das acusações para esclarecer os leitores?

Isso vem acontecendo com muita freqüência. Sem a intervenção com dados, fatos, memória e avaliações de especialistas, o jornal reduz seu papel a mero transmissor de futricas. Não é que as acusações não sejam importantes. Mas sem as informações que o jornal tem condições de fornecer, ficam parecendo apenas futricas.

7 de Setembro

O contraponto ao "triunfalismo" da festa de Brasília foram as manifestações, em várias cidades brasileiras, do "Grito dos Excluídos".

Acho que o jornal editou mal as manifestações de ontem.

Hamas

> Diz o texto "Retaliação do Hamas contra Israel será 'justificada', afirma Korei" (pág. A8 de Mundo): "Tido como moderado, o premiê palestino, Ahmed Korei, usou termos duros para condenar o recente ataque aéreo israelense que matou 14 militantes do Hamas, afirmando que essa ação incentivará uma dura resposta ao grupo terrorista e que uma eventual retaliação será 'justificada'".

Não seria "uma dura resposta do grupo terrorista"? O sentido é bem diferente. Pelo que entendi, Korei está prevendo uma dura resposta do Hamas às mortes que sofreu.

Cáucaso

Todas as menções à Ossétia do Norte feitas pelo jornal desde o sábado têm como referência geográfica o Cáucaso, a cadeia de montanhas entre os mares Negro e Cáspio. Mas nenhum mapa editado pelo jornal desde então mostrou a sua localização. Em diversos textos desde então a região é tratada como região do Cáucaso sem que seja explicado para o leitor a razão. É como se todos soubessem.

Indonésia

Boa a entrevista com a mãe do surfista brasileiro preso na Indonésia, em Cotidiano.

> Detalhe: o texto "Brasileiro condenado à morte recorreu de decisão" (pág. C4 da Edição Nacional), informa que o instrutor de vôo livre Marco Archer Cardoso Moreira foi "o último brasileiro a ser condenado à morte por tráfico de drogas na Indonésia". Pelo que li no próprio texto da Folha, ele é o único brasileiro condenado à morte, e não o último.

     
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