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09/09/2004

MARCELO BERABA

A Folha não deu muita importância para o discurso em que a prefeita Marta Suplicy antevê uma crise política de anos caso José Serra vença a eleição municipal. Achou que não merecia sequer uma chamada na primeira página.

Mas é o tema eleitoral mais importante do "Estado" ("Marta diz que sua derrota levará País a crise política") e do "Globo" ("Marta adota tática do medo contra Serra"). O jornal do Rio fez mais: editou a chamada do discurso de Marta junto com o noticiário eleitoral norte-americano ("Medo também é arma eleitoral nos EUA").

O discurso do medo da candidata petista marca, e a própria Folha constata, uma mudança na estratégia da campanha eleitoral no momento em que a disputa está mais acirrada. Por esta razão, acho que o jornal deveria tê-lo noticiado com destaque, como fizeram "Estado" e "Globo".

Em compensação, a Folha destaca bem na sua capa o levantamento que fez sobre repasses do governo estadual (PSDB): "Governo de SP repassa mais a cidades sob gestão tucana". A reportagem continua uma série, que já havia mostrado como os repasses do governo federal (PT) vêm privilegiando Estados e cidades governados por aliados.

Os jornais de hoje têm capas e manchetes bem diferentes, e isto é bom para eles e para os leitores.

Folha: "Rússia quer caçar terrorista no exterior". O jornal investe, pelo segundo dia consecutivo, na seca que castiga, neste momento, várias cidades brasileiras.

"Estado" destaca as notícias econômicas: "Argentina limita importação de carro brasileiro e pede fim de subsídio", "Captações derrubam dólar para R$ 2,90" e "Itamaraty festeja avanços na OMC contra subsídios".

"Globo" dá manchete para o caderno especial sobre revitalização do Rio:

"BNDES analisa projetos de US$ 2 bi para o Estado do Rio".

Crítica incompleta

Não recebi a Edição São Paulo da Folha. A crítica de hoje foi feita apenas com a Edição Nacional.

Dinheiro

O governo argentino anunciou ontem que a Argentina não vai cumprir os prazos definidos pelo Mercosul para liberalizar o mercado de automóveis.

Hoje estava prevista a chegada do ministro da Economia da Argentina. O noticiário da Folha tem o mérito de estar menos emotivo do que o do "Estado". Títulos da Folha: "Lavagna chega para tentar mudar relações" e "Brasil não sabe de acordo adiado" (pág. B7). Títulos do "Estado": "Mais um golpe argentino: agora são os carros", "Em clima ruim, 'debates estratégicos'", "Números não justificam lamento do país vizinho" e "Lavagna traz na mala queixas contra Petrobrás".

Acho que há um problema de edição na pág. B6. A arte "Compare a situação entre alguns países" está deslocada. Como foi editada, parece que se refere à reportagem de baixo ("Rio pode receber outra siderúrgica"), e não ao estudo do Banco Mundial, que está ao lado. Além disso, ela está no meio do bloco de reportagens sobre o BNDES. É claro que havia alternativas de edição.

Máquina pública

O jornal devia um levantamento sobre os critérios de repasses de verbas públicas administradas pelo PSDB, como já tinha feito com o PT. A reportagem de hoje ("Cidades geridas pelo PSDB obtém mais verba do Estado" , pág. A4 de Brasil) tem este mérito. Mas vi dois problemas.

Primeiro, tem razão o secretário que responde pelo governo tucano ("Secretário diz que há equívoco em cálculo per capitã"): os investimentos diretos (R$ 18,9 bilhões) são muito maiores, sem comparação, do que as transferências voluntárias (R$ 796,3 milhões). O jornal deveria analisar a distribuição destes investimentos também. O que não invalida as conclusões que chegou em relação à distribuição das transferências voluntárias.

O segundo problema está no tempo verbal escolhido para relatar a versão do secretário. A reportagem diz que, segundo números fornecidos pelo governo estadual, foram utilizados entre 2002 e 2004 18,9 bilhões em investimentos diretos. O texto continua: "O PT teria ficado com R$ 12,3 bilhões, e o PSDB, com R$ 2,9 bilhões". Por que o condicional? Ou o jornal considera que o número fornecido é confiável e publica sem ressalvas ou não tem confiança e checa. Como está, parece que o jornal desconfia do número dado pelo secretário.

Eleição municipal

O jornal mostra as peças, mas não monta o quebra-cabeça. A edição de hoje comportava um lidão amarrando as várias reportagens sobre o dia de ontem dos candidatos de SP. Ou uma análise. O dia vai entrar para a história desta eleição como aquele em que Marta Suplicy apelou para o medo e em que os candidatos Paulo Maluf e Luiza Erundina confirmaram que o alvo passa a ser a candidatura de José Serra. Há uma lógica nestas decisões e discursos, e o jornal poderia ter explicitado e explicado.

Quem juntou as peças foi a coluna "Toda mídia".

Anencefalia

Li no "Estado", e não encontrei na Folha, a notícia de que o Conselho Federal de Medicina decidiu considerar natimortos os bebês nascidos com anencefalia (sem cérebros). É uma decisão importante porque permite aos pais doarem os órgãos do bebê. Segundo o "Estado", a medida reforça a posição antiaborto, contrariada por liminar recente do STF.

Gastronomia

A nota "Anquier reabre com novidades no menu" (Ilustrada, E8) parece anúncio. É release?

Leitores

Dois leitores ligaram (um de Campinas e outro de Ribeirão Preto) reclamando que as edições que receberam não traziam a reportagem anunciada na capa do jornal, com foto, sobre a celebração do centenário de coroação da imagem de N.S. Aparecida.

     
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