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17/09/2004
MARCELO BERABA
A Folha dá manchete para o recorde da Receita: "Arrecadação federal cresce 22% em agosto". A linha fina tenta dimensionar a importância da informação: "Receita atribui recorde a crescimento econômico; analista vê maior carga tributária". O jornal, acertadamente, consegue espaço no alto de sua capa para as investigações relativas aos ataques a moradores de rua, em São Paulo ("3 suspeitos são presos por mortes de sem-teto"), e para informações exclusivas ("Europa faz uma oferta melhor para o Mercosul" e "Casa Civil aumenta em 28% cargos de confiança").
O "Estado" reserva a manchete para a tramitação da Lei de Biossegurança ("Transgênico: Senado adia aprovação, mas governo diz que não editará MP"), mas mantém a visibilidade para os assuntos (CPI do Banestado) que deu destaque ontem: "Para Virgílio, dossiê paralelo é 'a cara de Zé Dirceu '" e "Opportunity terá de explicar uso de dinheiro".
O "Globo" informa que é balela esta história de independência do Banco Central: "Lula e Palocci atuaram para impedir alta maior dos juros". E "Valor" também tem informação relevante: "Palocci propõe a Lula elevar superávit fiscal". O "Estado" tem chamada menos enfática: "Governo estuda crescer superávit".
Ah, sim! E tem a Luana Piovani, na capa do "Dia".
"Erramos"
O "Manual da Redação" assim orienta, na sua página 41, a correção de erros: "...informe qual o erro cometido, corrija-o e procure acrescentar informações de forma didática". Era o caso, hoje, em relação ao mapa de Israel publicado, ontem, errado. Acho que o jornal deveria ter editado, no mesmo formato mínimo de ontem, o mapa correto com a localização da cidade de Bnei Sakhnin, sede do time de futebol israelense.
No "Estado"
Não vi na Folha as declarações do presidente da Câmara, João Paulo, para quem os deputados são obrigados a apoiar o governo para sobreviver no Congresso ("Para João Paulo, deputado vira refém do governo"). Também está no "Globo": "João Paulo: atual sistema eleitoral obriga deputados a aderir ao governo".
O "Estado" continua a investir nos dados colhidos na CPI do Banestado: "Opportunity terá de explicar remessas de dólares". Está parecendo que, se as investigações forem realmente adiante, o Opportunity pode ficar em situação difícil porque alguns de seus clientes, flagrados por terem enviado dinheiro para o exterior via doleiros, informam que tinham feito aplicações através do banco. A responsabilidade, portanto, é do Opportunity.
O jornal está ignorando o enfrentamento entre oposição e governo provocado pela quebra de sigilo bancário de Tasso Jereissati. Embora não seja novidade, o fato parece alimentar a crescente hostilidade entre os dois lados. Não é o único fator, uma vez que estamos em vésperas de eleições e acabamos de assistir à ofensiva governista no Senado, mas está tendo peso no ambiente político.
Iraque
De Francis Fukuyama para Fernando Canzian (pág. A10): "Quem acredita que é possível realizar eleições gerais [no Iraque] no final de janeiro deve estar fumando algo muito forte. Isso não será possível".
A profecia pode ser furada, mas a frase é ótima.
Superávit e juros
"Valor" e "Estado" informam que o governo discute proposta do Ministério da Fazenda de aumentar o superávit primário ainda em 2004 para evitar aumentar a taxa de juros. Segundo os dois jornais, a proposta é da Fazenda, mas o presidente Lula já participa das discussões.
O "Globo" informa que o presidente Lula e o ministro Palocci trabalharam ao longo da semana para garantir que o aumento da taxa de juros fosse o menor possível. Para isso, fizeram gestões junto ao Banco Central. Eles "teriam decidido intervir pessoalmente após serem informados que parte dos diretores do Comitê de Política Monetária (...) defendiam uma alta imediata de 1,5 ponto percentual na Taxa Selic".
Tanto a reconstituição da reunião e decisão do Copom que aumentou em 0,25 ponto os juros como os bastidores das conversas entre a Fazenda e o Planalto são, a meu ver, as informações mais importantes de hoje na economia, e não estavam na Folha.
Massacre no centro
Vale lembrar, a propósito da prisão temporária de dois PMs e de um segurança suspeitos de terem atacado e matado moradores de rua ("Juiz manda prender três por ataques na Sé", capa de Cotidiano), que quase sempre que a polícia, pressionada, trabalha com prazos, acaba fazendo besteiras. No caso, pressão da imprensa e do próprio governo, às vésperas de uma eleição importantíssima e para a qual precisa apresentar resultados na área de segurança.
Lendo a Folha e o "Estado", fica claro que a polícia já tem uma história pronta (esquema de tráfico de drogas na região central), mas as provas de autoria ainda são frágeis. Algo parecido com o que ocorreu com o Zoológico.
Retrato da violência
O retrato da violência não está na queda de 17% de homicídios em quatro anos no Estado de São Paulo (pág. C1 da Edição Nacional e C3 da Edição SP) ou de 26,54% na capital. Está na permanência dos índices escandalosos de 35,8 assassinatos por 100 mil habitantes no Estado e de 47,2 na cidade em 2003.
As razões de queda de homicídios são muitas. Acho difícil atribuí-las às políticas de segurança, menos ainda afirmar, como está na reportagem, "que as políticas de combate à violência têm conseguido atingir seus objetivos" A mesma queda é encontrada em outros Estados e cidades do Brasil.
Há um dado importante que a reportagem não procurou aprofundar: a pesquisadora Maria Fernanda Tourinho Peres questiona, com razão, a avaliação otimista da Seade porque as estatísticas disponíveis, tanto no Rio como em São Paulo, subestimam as mortes por agressões e os homicídios.
Independentemente disso, acho que o jornal deveria ter destacado que o índice de 47,2 assassinatos por 100 mil hab. é um escândalo. Bastava compará-lo com os de outras grandes cidades e capitais do mundo.
Municípios como Nova Castilho (98/100 mil), Iaras (89), Itapecerica da Serra (80,3) e tantos e tantos outros mostram o "sucesso" da política de segurança. Um bairro como o Brás ter um índice de 89,2 assassinatos por cem mil habitantes em 2003 é para chorar.
Sugiro ao jornal voltar às estatísticas da Seade com questionamentos e com a preocupação de perceber que o que mostram é indecente. A notícia, insisto, não está na queda de 17% (que deveria ser registrada com destaque) mas na permanência de indicadores insuportáveis.
Aspas
Título da página E6 de Ilustrada: " 'Intelectual', Nei Lopes traz Cuba ao samba carioca". Por que aspas no intelectual se não se trata de uma citação? O texto da reportagem não coloca aspas quando o identifica como intelectual e militante da cultura afro-brasileira. Considera-o, portanto, um intelectual. Por que a edição recorreu às aspas? Acha que ele não é um intelectual? Neste caso, deveria colocar aspas no texto da reportagem ou eliminar o termo.
Em coluna recente na Folha ("Para que servem as aspas", de 1/7/04), o professor Pasquale lembra que, entre outras funções, as aspas têm a de "acentuar o valor irônico ou figurado de certas expressões".
As aspas, no caso de Nei Lopes, parecem indicar que, para o jornal, um músico popular não pode ser intelectual.
Aliás, é impressionante o uso de aspas nos títulos do jornal, principalmente em "Esporte" e "Ilustrada".
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