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26/04/2007

O leitor e as 'leis que não pegam'

MÁRIO MAGALHÃES

O leitor da Folha recebeu hoje novamente um jornal no qual alguns magistrados são tratados ora como juízes, ora como desembargadores federais.

A crítica diária vem insistindo sobre a necessidade de padronização. Se o ombudsman martela, não o faz por obsessão, mas por defender o interesse dos leitores que, em um texto, lêem uma denominação que na retranca seguinte já é outra. O jornal está errado se acha que padronizar o que é passível de padronização não significa informar corretamente.

As recentes contradições não ocorreriam se fosse respeitada norma divulgada pelo Programa de Qualidade em agosto do ano passado. Ela afirma: "Não existe o cargo de 'desembargador federal' para se referir ao juiz federal que atua no TRF, embora alguns juízes federais se intitulem assim. Pela Constituição Federal, só há cargos de desembargadores nos Tribunais de Justiça".

Nas duas retrancas do alto da pág. A12, sobre personagens investigados na Operação Hurricane (Furacão), eles são descritos como "desembargadores federais". Também aparecem como juízes.

A "lei" do Programa de Qualidade voltou a ser relembrada ontem à tarde no sistema ao qual os jornalistas da Folha têm acesso.

O resultado de hoje é que, uma vez mais, os leitores receberam uma informação que, segundo o próprio jornal concluiu em agosto de 2006, está incorreta.

O leitor e os mistérios da economia

No sábado uma só retranca citou cinco vezes um certo "swap cambial reverso". Não explicou o que era. Na crítica diária da segunda-feira, lembrei que o leitor não é obrigado a saber o que significa.

Hoje, na capa de Dinheiro, surge de novo, duas vezes, o "swap cambial reverso". Mais uma vez, o jornal não traduz o palavrão ao leitor.

Se a insistência expressa convicção de que a explicação é dispensável, é uma pena. O jornal se destina também a especialistas, mas deve ser escrito principalmente ao leitor não iniciado no economês.

O leitor e as 'previsões'

Na segunda-feira, a Folha informou: "São Paulo tenta conter crise interna". De fato, levar uma goleada de 4 a 1 do São Caetano e ser eliminado do Campeonato Paulista balança qualquer um.

Hoje, foi esta a abertura da principal matéria da capa de Esporte, noticiando o 2 a 2 do São Paulo com Audax Italiano, resultado que classificou o time do Morumbi para as oitavas-de-final da Libertadores: "A previsão era de uma vitória tranqüila e uma classificação sem sustos".

A pergunta óbvia: de quem era tal previsão? Como poderia esperar vitória tranqüila uma equipe que vem de uma goleada humilhante, que tenta conter a crise, que decidia a passagem à próxima fase em uma competição duríssima, em que são poucos os jogos fáceis?

Pior ainda é a lógica cômoda para o jornalista e que não presta serviço ao leitor: se o jornal diz hoje que previa vitória tranqüila e classificação sem sustos, por que não escreveu isso ontem? A previsão não foi publicada na Folha de quarta-feira.

Se o jornal fazia tal vaticínio, por que não o bancou?

Falar depois é fácil. Em outras palavras, é informar mal.

Na primeira, notícia de ontem

A primeira página destaca: "Serra propõe criar mínimo regional de R$ 410 em SP". É notícia relevante para quem recebe e para quem paga. Há um problema, porém: a Folha adiantou ontem parte da novidade, justamente a referente aos R$ 410. Hoje, na primeira, pareceu informação envelhecida.

Painel do Leitor

A carta do desembargador Celso Guedes, referente a assunto associado à Operação Têmis, estaria mais bem editada em Brasil, e não no Painel do Leitor.

Outro problema: a mensagem do leitor José R. A. de Sant'Anna está encimada pelo intertítulo "Ieltsin". Ocorre que ela fala de artigo sobre a condição dos negros no Brasil, e não sobre o falecido presidente russo.

Um presente ao leitor

Há no jornalismo detalhes que, por saborosos, colhem um sorriso e são como antídoto ao mau humor. É o caso da nota de hoje do Painel que conta o resultado da decisão do deputado Dr. Rosinha de "bater chapa" na disputa pela presidência da Frente Parlamentar de Saúde. Rosinha perdeu por 46 a 1. O título inspirado: "Gol de honra".

Meio Ambiente - Bastidor

A edição da reportagem "Pressão de Lula acelerou as mudanças no Meio Ambiente" (pág. A5) repete procedimento recente, quando uma retranca de outro lado saiu páginas antes das acusações. Dessa vez, o bastidor saiu antes das notícias. Dificulta a leitura.

O texto fala de "mudanças anunciadas ontem", "mudanças no Ibama". Quais são elas? Descobre-se apenas uma página depois.

O parágrafo final cita dois ministros que "avaliam" que o "pedido" de "mais informações" para autorizar a construção de hidrelétricas no rio Madeira "pode comprometer o cronograma e causar falta de energia para atender ao objetivo do governo de elevar o crescimento anual do PIB (Produto Interno Bruto) para cerca de 5%".

A retranca informa (ou dá a entender) que as usinas funcionarão a partir de 2012. Se o objetivo de crescer 5% é imediato, por que a inexistência de geração de energia em 2012 vai prejudicar, agora, o resultado de 5%? O jornal deveria explicar a "avaliação" dos ministros. Pode até estar certa, embora pareça estranha. Mas não deveria ser relatada sem espírito crítico.

Meio Ambiente - Dia seguinte

Não era simples o desafio da Folha hoje, o de recuperar os furos sofridos, sobre a divisão do Ibama e o convite ao delegado Paulo Lacerda para chefiar o órgão. A impressão é de que se saiu bem. A apresentação das razões dos setores pró e contra a liberação da construção das hidrelétricas no rio Madeira tem um pluralismo que deveria inspirar cotidianamente o jornal.

Papel sobrando 1

A pág. A6, com o noticiário sobre o Ministério do Meio Ambiente, informa três vezes o nome do Ibama por extenso. Desperdiça espaço e toma tempo do leitor.

Lide no pé

A retranca "Policial suspeito diz conhecer procurador alvo de investigação" (pág. A12) parece estar com as notícias principais no fim. Exatamente no último parágrafo: "Ontem à noite, Xuxinha foi indiciado pela PF por formação de quadrilha. Ele pediu o benefício da delação premiada, o que foi aceito". O "Estado" abre uma página com essas informações.

Terminologia jurídica

Dúvida : o texto "Liberação da programação da TV recebe duras críticas" (pág. A13) diz que "um mandado de segurança do STJ autorizou que as redes exibam em quaisquer horários os seus programas [...]".

Não seria uma liminar (decisão provisória), em vez de mandado de segurança? A Justiça concede a liminar, mas não o mandado de segurança.

Calçados, têxteis

Peço desde já desculpa caso tenha ocorrido falta de atenção, mas não encontrei informações importantes na longa cobertura sobre aumento do imposto de importação para produtos dos setores calçadista e têxtil: a produção, o faturamento, o lucro e a produtividade vêm caindo ou subindo nos dois ramos da indústria?

A arte mostra queda na exportação de calçados. Mas faltam números sobre outros desempenhos, cujo conhecimento é decisivo para o leitor formar opinião sobre a iniciativa do governo.

Papel sobrando 2

Com poucas diferenças, os textos "Medida protecionista gera críticas" (pág. B2) e "Economistas temem que a tarifa maior valorize real" (pág. B3) repetem informações. De porcentagens citadas a entidade (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) e consultoria (Tendências) consultadas.

Pauta

Está na pág. B5 ("Setor registra 1ª morte do ano na colheita de cana") uma bela pauta. Do que morreu o trabalhador rural?

Papel bem aproveitado

Com menos espaço que "Globo" e "Estado", a Folha faz uma cobertura muito boa sobre educação, a partir dos novos números divulgados. Uma observação de fundo: depois de conhecer as diversas opiniões registradas e considerar as informações, a impressão é de que uma dose maior de ceticismo faria bem ao jornal. O motivo é que não há sinais de que vá haver fiscalização eficiente das verbas a serem transferidas aos municípios e da veracidade dos dados que o governo federal receberá (sobre reprovação, por exemplo; ou aprovação sem critérios).

Previsível

Havia muitas opções para o alto da pág. C3, cujo título é "Cidades do Nordeste têm pior desempenho". Não é que não seja importante, mas é previsível, o que reduz a temperatura jornalística.

Escândalo político?

O jornal deveria investir ainda mais e repercutir amplamente a informação de que o município de São Paulo teve sua rede municipal classificada em colocação indevida no ranking divulgado em 2006, ano eleitoral. Vale investimento de reportagem para apurar se foi mesmo erro técnico ou não. E memória sobre o uso do ranking na campanha do ano passado.

Reprovação

Se for verdade o que o secretário da Educação de Ramilândia (PR) disse, houve equívoco no ranking escolar que condenou a cidade ao pior índice (a aprovação de 93.2% teria se transformado em reprovação). É importante checar. A imprensa em geral considerou correta a posição. Fez bem a Folha em dar a palavra ao secretário.

Assinaturas demais

É a segunda vez que toco no assunto: faz parte da cultura da Folha assinar textos com uma assiduidade que considero excessiva. Ao contrário do que costumam supor muitos jornalistas, assinatura demais não valoriza o profissional, mas vulgariza um código que deveria ser preservado para apuração, interpretação e missões jornalísticas diferenciadas.

Hoje, mais uma vez, Esporte assina relato de partida de futebol disputada do outro lado do Atlântico ("Chelsea dá primeiro troco no Liverpool", pág. D4). O repórter não estava no estádio. Assistiu à partida (provavelmente) pela TV. Por que assinar?

     
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