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17/04/2007
Blacksburg, Mundo
MÁRIO MAGALHÃES
A crítica de hoje é exclusiva sobre o caderno Mundo, concentrada no noticiário sobre o massacre na Universidade Técnica da Virgínia, em Blacksburg. Tem mais jornalismo comparado (cotejando a Folha com outras publicações) do que habitualmente.
Massacre - Jornais parecidos
A (boa) cobertura da Folha e de seus dois principais concorrentes diários ("Globo" e "Estado") é muito parecida. Obedeceu ao roteiro obrigatório: o relato do massacre na Virgínia, a palavra de testemunhas, a versão dos brasileiros que estudam ou dão aulas na universidade, a análise sociológica e psicológica feita por acadêmicos, a questão das armas nos EUA, o histórico de matança em instituições de ensino.
Os três jornais não enviaram repórter à cidadezinha. Reconstituíram o clima por agências, emissoras de TV americanas e entrevistas por telefone (ou e-mail). Nos três, os correspondentes em Washington e as Redações concentraram as reportagens.
Massacre - Primeiras páginas
Manchete da Folha: "Atirador mata 32 pessoas nos EUA".
A do "Estado", com exceção de uma palavra suprimida, é igual: "Atirador mata 32 nos EUA".
O "Globo" introduz já na manchete a questão das armas: "A maior tragédia das armas".
Os três escolheram foto idêntica para a primeira página. É a mesma do "New York Times". "El País" preferiu a do homem carregado por policiais da capa do caderno Mundo da Folha.
Massacre - Asiáticos
A identificação do atirador não está em nenhum jornal, porque seu nome só foi anunciado hoje. O fato de ser um estudante sul-coreano pode gerar reações nos EUA à numerosa presença de estrangeiros em seu ensino superior (só chineses são dezenas de milhares). O jornal deveria ficar atento.
Coincidência: o autor das fotos das primeiras páginas tem sobrenome Kim, coreano.
Massacre - Espaço
A Folha deu dois altos de página. A cobertura ocupou uma página inteira e dois terços de outra.
O "Globo" deu três páginas inteiras. O "Estado", duas inteiras e um pequeno espaço de uma terceira.
Embora com menos espaço, a cobertura da Folha foi semelhante à dos concorrentes.
Massacre - Problemas
a) Está incompleta a última frase do primeiro parágrafo depois do intertítulo "Sangue por todo o lado", no texto "Homem mata 32 em universidade nos EUA" (pág. A11). Ficou incompreensível. (Considero a leitura da edição SP/DF concluída às 23h15.)
b) No texto "EUA estão 'chocados', diz Bush" (pág. A12), é pouco clara a tradução de sistemas "anti-bully" como "anti-valentão". Ficou melhor a tradução do "Estado" para "bullying": "humilhação de um aluno por outro".
c) Ao falar em Columbine, a Folha prestaria um serviço aos leitores se empregasse recurso que o jornal consagrou na imprensa brasileira, informando entre parênteses como se pronuncia.
d) A Folha não traz nenhuma entrevista em pingue-pongue com testemunha ocular do massacre. O "Globo" entrevistou um estudante, Trey Perkins, cujas respostas são impressionantes.
e) A Folha sublinha que o governo dos EUA qualificou o massacre da Virgínia como o mais violento causado por tiroteio na história do país. Na manchete de hoje, o "New York Times" confirma a informação. Valeria ter acrescentado que, em 1927, segundo o "Estado", um assassinato em massa deixou 45 mortos em uma escola de Michigan. O ataque foi feito com dinamite.
f) Os concorrentes informam, como o "Jornal Nacional" de ontem, que recentemente houve ameaça de explosão de bombas na universidade. Não li a informação na Folha, mas pode ter sido falta de atenção minha.
g) O texto "Instituição se destaca na área técnica" (pág. A11) dá a entender, com o verbo "destacar", que a Virginia Tech é uma das melhores instituições de ensino superior dos EUA. O texto, porém, descreve um ranking no qual a universidade figura como a 77ª melhor.
Massacre - Folha Online
Faz bem o jornal em publicar uma remissão para a Folha Online, indicando ao leitor um caminho para se atualizar sobre o noticiário do massacre.
Massacre - Controle de armas
Embora não tenha dado título para o tema, a Folha foi o jornal que melhor descreveu o _pelo menos_ desconforto do presidente Bush ao ter que se pronunciar sobre o controle de armas (uma porta-voz falou por ele).
Agora o jornal poderia, além de aprofundar a discussão (contemplando a palavra dos pré-candidatos a presidente nos EUA), ouvir os defensores das duas posições que no Brasil se opuseram no plebiscito do desarmamento.
Assegurando a palavra para opinião divergente, o jornal poderia se esforçar para entrevistar o cineasta Michael Moore, autor do filme "Tiros em Columbine" (se não for possível, seria importante registrar suas eventuais declarações feitas a outros meios).
Massacre - Histórias
A falta de cobertura no local me pareceu um problema no jornal de hoje. Considerei correto o tom sóbrio da cobertura. E a edição de Mundo como um caderno separado, com capa, deu ao noticiário mais destaque.
O grande desafio para a edição de amanhã é contar as histórias impossíveis de contar hoje: a trajetória do assassino, quem foram as vítimas (há estrangeiros entre elas), como foi exatamente o massacre, por que a universidade não interrompeu as aulas. E muitas outras.
Os leitores da Folha tiveram em mãos um bom trabalho jornalístico sobre a tragédia. Mas o jornal não se diferenciou.
França
O título da Folha hoje na reportagem sobre as eleições presidenciais na França é pouco claro: "Questões táticas dominam final da campanha francesa" (pág. A15).
O texto _produzido pela Redação, com apoio de informações de agências internacionais_ se concentra na aliança ou não dos candidatos Ségolène Royal e François Bayrou em eventual segundo turno contra Nicolas Sarkozy. Informa que Bayrou tem "chances reduzidas de ir ao segundo turno". Poderia ter informado por quê. É o que as pesquisas indicam? Quais são os números?
O jornal informa que sondagem do instituto CSA publicada em "Le Parisien" mostra empate entre Ségolène e Sarkozy em segundo turno. Ontem eu indaguei na crítica diária sobre margem de erro em pesquisa. A cobertura de hoje esclarece: "As pesquisas não indicam na França margem de erro".
O "Globo", ao falar do mesmo levantamento CSA, diz que "a margem de erro, segundo [o] instituto, é de 2,5%".
O jornal carioca publica hoje uma página sobre a campanha na França. Uma repórter está viajando por todo o país, contando sobre a vida dos seus habitantes e as grandes questões do pleito. Uma boa série de reportagens.
Equador
Fez bem a Folha em dar um alto de página à aprovação da convocação da Constituinte no Equador por esmagadora maioria de votos ("Vitorioso, Correa diz não querer pacto com oposição", pág. A14).
A Folha produziu o texto na Redação, com apoio de agências internacionais e do "Financial Times". "Globo" e "Estado" cobriram com enviados especiais.
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