O "hiperisolamento" do Taleban (a rigor, isolamento já havia antes do 11 de setembro) é a manchete dos principais jornais. Folha: "Arábia apóia os EUA contra Taleban"; "Estado": "Arábia Saudita rompe relações com o Taleban" ;"Globo": "Cerco militar, diplomático e econômico isola talibãs". O "JB" ("Bush ataca os direitos civis") optou por enfatizar o projeto que o Congresso americano discute para ampliar a margem de ação investigativa do Estado.
11 de setembro 1) A Folha marca um ponto positivo com o material das páginas centrais do caderno especial hoje sobre o xadrez da situação política e diplomática dos EUA na região do Golfo e no Oriente Médio. Fica clara a complexidade com a qual se trabalha na preparação da "nova guerra". Leigo no assunto, vendo o mapa fiquei com uma pequena curiosidade de ordem filológica que pode ser a de outros vários leitores: por que os nomes dos países da Ásia central (Paquistão, Afeganistão, Cazaquistão, Uzbequistão etc) têm a terminação "ão"? Talvez o jornal possa esclarecer dentro de um material mais amplo; 2) Detalhe: contrariando o "Manual", o jornal voltou a grafar Candahar com "K" (mapa da especial 2); 3) O "Estado" foi mais feliz no tratamento dado ao assunto que na Folha tem como título "Imigração busca brasileiro nos EUA acusado de ligação com Hizbollah" (Especial 7). Em especial, o concorrente ouviu o irmão do ex-comerciante aqui em São Paulo, desmentindo a suposta vinculação, e trouxe foto do brasileiro. Vale lembrar que a Folha publicou em agosto e outubro do ano passado reportagens sobre a ida de Saleh Hage aos EUA. Trata-se, portanto, de um personagem conhecido do jornal. Com base nesses textos, aliás, creio ser necessário um ERRAMOS: ele pediu asilo em abril, não em agosto do ano passado; 4) O título "Países islâmicos não apoiariam ação dos EUA, diz autor" (Especial 8) generaliza e não traduz o que o texto da reportagem afirma. O cientista político em questão, Al-Jabri, diz que esses países não apoiariam ações "que ameaçassem a população civil do Afeganistão". É mais restrito e específico; 5) Não vi na Folha referência à Operação Veritas, nome que, segundo o "Sunday Times", foi dado às iniciativas militares e de espionagem já desencadeadas, desde a semana do atentado, pelo Reino Unido, em acordo com os EUA, no Afeganistão, com envio de aviões etc. É uma informação (traduzida hoje no "Estado") muito importante no teatro do conflito; 6) Creio que a Folha subestima a cobertura da mídia na "nova guerra". Ontem, por exemplo, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, foi questionado sobre se mentiria aos jornalistas se achasse necessário. O "Globo" traz material sobre isso hoje. Outro material interessante está na "Gazeta Mercantil", que traz um perfil da rede de TV "Al-Jazeera", aquela por meio da qual Bin Laden divulga seus comunicados.
Explosivos 1) A Folha confinou a três notas da coluna Mônica Bergamo aquilo que pode ser um grande escândalo de corrupção sujeito a séria investigação. Trata-se do material baseado em anúncio "fúnebre" publicado nos grandes jornais, por trás do qual estaria um conflito pesado envolvendo a construtora Andrade Gutierrez, Maluf e Quércia; 2) Também ficou confinado (a uma notinha Panorâmica, pág. A7) o caso da abertura de inquérito pela Polícia Federal sobre a privatização da Telebrás. Aliás, aqui caberia outro ERRAMOS: a notinha fala em privatização da Telemar, quando esta foi quem comprou a outra; 3) O "Estado" traz informação relevante sobre o caso Maluf: promotores estão ampliando para os EUA a sua devassa nas contas do ex-prefeito. A Folha publica material sobre o assunto hoje, mas de ordem, vamos dizer, processual, sem trazer novidades em termos de investigação. Nesse ponto o jornal começou na frente, mas não tem conseguido manter clara dianteira em relação ao concorrente.
Didatismo 1) Na reportagem "Oposição hostiliza Tebet no Congresso" (Brasil, pág. A4), menciona-se um "projeto de revisão do PPA" sem explicar o que é isso (PPA); 2) O último parágrafo de "Fed quer socorro..." (Dinheiro, pág. B5) fala numa "taxa básica" sem explicar ao que se refere; 3) Na Panorâmica "UOL é o mais..." (Dinheiro, pág. B6), não fica claro se os percentuais de pessoas que acessam a internet em casa e no trabalho se referem aos 23 milhões de internautas ou ao conjunto da população.
PT e a Folha 1) O jornal não explica, mais uma vez, o que estaria por trás, inclusive tecnicamente, do fiasco da apuração eletrônica das eleições internas no PT. No texto de hoje (Brasil, pág. A6), não se menciona, por exemplo, a "briga" entre o partido e a empresa de informática contratada para cuidar do pleito; 2) Há um viés claramente contra a prefeita Marta e seu partido na reportagem de capa de Cotidiano ("Em ano de eleição, SP amplia gasto social"). Por que chamar o orçamento de eleitoreiro se ele, como diz o próprio texto, não faz mais do que traduzir em números as promessas de campanha e as bandeiras do partido? Ao contrário, parece-me meritoso.
Idade do papa Nada justifica a ausência da idade de João Paulo 2o no texto "Papa passa mal durante visita à Armênia" (Mundo, pág. A8).
Frutos dos atentados? O lide de "Governo não descarta novo acordo com o FMI" (capa de Dinheiro) afirma que essa possibilidade derivaria dos "reflexos das turbulências em que o país está mergulhado desde os atentados terroristas nos EUA". Há aí um exagero. O país já vinha mal de bem antes. Pode até vir a "mergulhar em turbulências", mas ainda não o fez. O risco, nesse tipo de apreciação, é dar ao governo a possibilidade de usar os atentados como pretexto para medidas que na verdade seriam necessárias com ou sem eles. Da mesma maneira, falha, ao meu ver, o lide de "Investimento externo é mantido" (mesma página) ao dizer que "a disposição das empresas estrangeiras para investir no Brasil não parece ter sido afetada...". O próprio texto, mais adiante, explica que os investimentos mantidos já haviam sido definidos antes do 11 de setembro e não teriam como ser sustados. É cedo, portanto, para avaliações.
Foto no ar A foto de um agricultor em Portugal não tem nada a ver com a reportagem "EUA atacam protecionismo agrícola" (Dinheiro, pág. B4). Está ali apenas para ocupar espaço.
Crédito Faltou creditar à revista "Época", conforme orienta o "Manual", a informação, repercutida hoje (Cotidiano, pág. C8), do acidente ocorrido em maio em Angra 1.
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