Ombudsman Folha   Folha Online
 
26/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

O "hiperisolamento" do Taleban (a rigor, isolamento já havia antes do 11 de setembro) é a manchete dos principais jornais. Folha: "Arábia apóia os EUA contra Taleban"; "Estado": "Arábia Saudita rompe relações com o Taleban" ;"Globo": "Cerco militar, diplomático e econômico isola talibãs". O "JB" ("Bush ataca os direitos civis") optou por enfatizar o projeto que o Congresso americano discute para ampliar a margem de ação investigativa do Estado.

11 de setembro
1) A Folha marca um ponto positivo com o material das páginas centrais do caderno especial hoje sobre o xadrez da situação política e diplomática dos EUA na região do Golfo e no Oriente Médio. Fica clara a complexidade com a qual se trabalha na preparação da "nova guerra". Leigo no assunto, vendo o mapa fiquei com uma pequena curiosidade de ordem filológica que pode ser a de outros vários leitores: por que os nomes dos países da Ásia central (Paquistão, Afeganistão, Cazaquistão, Uzbequistão etc) têm a terminação "ão"? Talvez o jornal possa esclarecer dentro de um material mais amplo;
2) Detalhe: contrariando o "Manual", o jornal voltou a grafar Candahar com "K" (mapa da especial 2);
3) O "Estado" foi mais feliz no tratamento dado ao assunto que na Folha tem como título "Imigração busca brasileiro nos EUA acusado de ligação com Hizbollah" (Especial 7). Em especial, o concorrente ouviu o irmão do ex-comerciante aqui em São Paulo, desmentindo a suposta vinculação, e trouxe foto do brasileiro. Vale lembrar que a Folha publicou em agosto e outubro do ano passado reportagens sobre a ida de Saleh Hage aos EUA. Trata-se, portanto, de um personagem conhecido do jornal. Com base nesses textos, aliás, creio ser necessário um ERRAMOS: ele pediu asilo em abril, não em agosto do ano passado;
4) O título "Países islâmicos não apoiariam ação dos EUA, diz autor" (Especial 8) generaliza e não traduz o que o texto da reportagem afirma. O cientista político em questão, Al-Jabri, diz que esses países não apoiariam ações "que ameaçassem a população civil do Afeganistão". É mais restrito e específico;
5) Não vi na Folha referência à Operação Veritas, nome que, segundo o "Sunday Times", foi dado às iniciativas militares e de espionagem já desencadeadas, desde a semana do atentado, pelo Reino Unido, em acordo com os EUA, no Afeganistão, com envio de aviões etc. É uma informação (traduzida hoje no "Estado") muito importante no teatro do conflito; 6) Creio que a Folha subestima a cobertura da mídia na "nova guerra".
Ontem, por exemplo, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, foi questionado sobre se mentiria aos jornalistas se achasse necessário. O "Globo" traz material sobre isso hoje. Outro material interessante está na "Gazeta Mercantil", que traz um perfil da rede de TV "Al-Jazeera", aquela por meio da qual Bin Laden divulga seus comunicados.

Explosivos
1) A Folha confinou a três notas da coluna Mônica Bergamo aquilo que pode ser um grande escândalo de corrupção sujeito a séria investigação. Trata-se do material baseado em anúncio "fúnebre" publicado nos grandes jornais, por trás do qual estaria um conflito pesado envolvendo a construtora Andrade Gutierrez, Maluf e Quércia;
2) Também ficou confinado (a uma notinha Panorâmica, pág. A7) o caso da abertura de inquérito pela Polícia Federal sobre a privatização da Telebrás. Aliás, aqui caberia outro ERRAMOS: a notinha fala em privatização da Telemar, quando esta foi quem comprou a outra;
3) O "Estado" traz informação relevante sobre o caso Maluf: promotores estão ampliando para os EUA a sua devassa nas contas do ex-prefeito. A Folha publica material sobre o assunto hoje, mas de ordem, vamos dizer, processual, sem trazer novidades em termos de investigação. Nesse ponto o jornal começou na frente, mas não tem conseguido manter clara dianteira em relação ao concorrente.

Didatismo
1) Na reportagem "Oposição hostiliza Tebet no Congresso" (Brasil, pág. A4), menciona-se um "projeto de revisão do PPA" sem explicar o que é isso (PPA); 2) O último parágrafo de "Fed quer socorro..." (Dinheiro, pág. B5) fala numa "taxa básica" sem explicar ao que se refere;
3) Na Panorâmica "UOL é o mais..." (Dinheiro, pág. B6), não fica claro se os percentuais de pessoas que acessam a internet em casa e no trabalho se referem aos 23 milhões de internautas ou ao conjunto da população.

PT e a Folha
1) O jornal não explica, mais uma vez, o que estaria por trás, inclusive tecnicamente, do fiasco da apuração eletrônica das eleições internas no PT.
No texto de hoje (Brasil, pág. A6), não se menciona, por exemplo, a "briga" entre o partido e a empresa de informática contratada para cuidar do pleito;
2) Há um viés claramente contra a prefeita Marta e seu partido na reportagem de capa de Cotidiano ("Em ano de eleição, SP amplia gasto social"). Por que chamar o orçamento de eleitoreiro se ele, como diz o próprio texto, não faz mais do que traduzir em números as promessas de campanha e as bandeiras do partido? Ao contrário, parece-me meritoso.

Idade do papa
Nada justifica a ausência da idade de João Paulo 2o no texto "Papa passa mal durante visita à Armênia" (Mundo, pág. A8).

Frutos dos atentados?
O lide de "Governo não descarta novo acordo com o FMI" (capa de Dinheiro) afirma que essa possibilidade derivaria dos "reflexos das turbulências em que o país está mergulhado desde os atentados terroristas nos EUA". Há aí um exagero. O país já vinha mal de bem antes. Pode até vir a "mergulhar em turbulências", mas ainda não o fez. O risco, nesse tipo de apreciação, é dar ao governo a possibilidade de usar os atentados como pretexto para medidas que na verdade seriam necessárias com ou sem eles.
Da mesma maneira, falha, ao meu ver, o lide de "Investimento externo é mantido" (mesma página) ao dizer que "a disposição das empresas estrangeiras para investir no Brasil não parece ter sido afetada...". O próprio texto, mais adiante, explica que os investimentos mantidos já haviam sido definidos antes do 11 de setembro e não teriam como ser sustados. É cedo, portanto, para avaliações.

Foto no ar
A foto de um agricultor em Portugal não tem nada a ver com a reportagem "EUA atacam protecionismo agrícola" (Dinheiro, pág. B4). Está ali apenas para ocupar espaço.

Crédito
Faltou creditar à revista "Época", conforme orienta o "Manual", a informação, repercutida hoje (Cotidiano, pág. C8), do acidente ocorrido em maio em Angra 1.

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.