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28/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

A Folha ("Bin Laden recebeu pedido para deixar o país, diz Taleban") e o "Globo" ("Talibãs localizam Bin Laden e pedem que ele deixe o país") embarcam a meu ver de modo ingênuo numa espécie de jogo do Taleban em suas manchetes de hoje (leia abaixo). O "Estado" ("Alívio para empresas faz dólar cair 2,3%", mesma opção de tema, diga-se, dos diários econômicos) e o "JB" ("Banco reage ao governo e eleva juros") saem com a economia brasileira em dia sem grandes revelações sobre a "nova guerra".

11 de setembro
1) É difícil imaginar que o Taleban tenha tido dificuldades para encontrar Bin Laden. Não há dúvida de que eles estão "fechados", um lado e outro. Trata-se, mais provavelmente, de uma manobra política do "governo" do Afeganistão (em acordo com o terrorista saudita) com vistas a, ao menos, ganhar tempo. Claro que é notícia o fato político de o Taleban anunciar que o pedido dos clérigos chegou a Bin Laden, mas não creio que merecesse ser manchete;
2) A situação interna do Afeganistão continua a ser o maior desafio da cobertura neste momento. Os textos reproduzidos do "New York Times" (abre da capa de Mundo) já afirmam que o Taleban controla 90% do território, não mais, portanto, os 95% de que se falava antes. A reportagem "Paquistaneses vão a Cabul para negociar" (capa), porém, ainda trabalha com a porcentagem de 95%. Não se trata de uma questão apenas de números, claro. O desafio é mostrar o que de fato está acontecendo internamente. Mesmo em relação a essas porcentagens, valeria a pena o jornal ter destacado a mudança (afinal, dobrou, em tese, a área ocupada pela Aliança do Norte);
3) Afirma-se em "Bush pede paciência a americanos" (A10) que o governo apresentou na sede da ONU ontem o seu plano de "guerra". Mas fica por aí. Quais são os pontos principais desse plano?;
4) Relacionado com isso, ressalte-se artigo do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, publicado originalmente no "NYT" e reproduzido no "Globo" e no "Estado". Fica bastante clara, nele, aquela que parece ser a estratégia, ao menos publicamente anunciada, de Bush;
5) Faltou mapa da tríplice fronteira em "Argentina reforça segurança de espaço aéreo" (A11);
6) O texto "Generais poderão abater aeronaves" (A11) toca de passagem numa das questões que Bush está submetendo ao Congresso em relação à segurança nos aeroportos e vôos. Falta no jornal, creio, material que mostre como está, justamente, o debate entre os parlamentares sobre a questão dos direitos civis. Parece haver resistências significativas. O "Globo" traz algum material a respeito disso hoje, referindo-se a métodos de investigação do FBI;
7) A imprensa, de modo geral, e a Folha inclusive, está esquecendo o ataque ao Pentágono. Qual é a situação das investigações ali? Confirmou-se o número de mortos? Como está a retirada de escombros e corpos?
8) Outra questão pouco trabalhada está indicada ao pé do texto "País deve impedir que Cabul seja base para o terror mundial" (A14), originalmente publicado no "Financial Times": "Manter uma coalizão dependerá das distinções sutis entre grupos terroristas domésticos... e grupos terroristas de alcance internacional...". Eis um inusitado aspecto que exige aprofundamento;
9) Difícil entender por que a Folha não deu o "pendant" das fotos que mostram o executivo Edward Fine no dia do atentado, cheio de pó (uma das imagens que marcaram o evento), e ele agora, com uma gravata da bandeira dos EUA (vi nos concorrentes). Da mesma forma, a curiosa foto do Bush pai em vôo de carreira. Na contracapa do caderno de hoje da Folha (só para mencionar um exemplo), há duas fotos frias que bem poderiam ceder espaço a algo mais interessante em matéria de visual;
10) Também não vi na Folha importante notícia de que o Paquistão congelou as contas bancárias de dois importantes grupos religiosos que integravam a lista de 27 "nomes" elaborada pelos EUA.

Jader
O material sobre a abertura de processo contra o senador paraense (Brasil, A4 e A5) não deixa claro o motivo formal que levou à decisão do conselho de Ética. Aparece somente a questão do desvio do Banpará. Nada se fala sobre o fato de ele ter ou não mentido em plenário. Não era esse um dos motivos principais? Ele desapareceu hoje.

Marcação
O chapéu "A incrível conta que encolheu", na capa de Dinheiro ("BC muda regras e corta o déficit público"), traz uma ironia que não me parece fazer sentido. A própria reportagem, em diferentes retrancas, mostra claramente que a adaptação de critérios pelo BC está sendo feita de forma transparente e obedece a padronização internacional. Qual é, então, o problema?

Outro lado
Dois textos-legenda ("Leitão na faixa", na pág. B8, Dinheiro, e "Álcool", em Cotidiano, C7) fazem afirmações que exigem o "outro lado". Ele está, ali, totalmente ausente. O formato, convenhamos, não ajuda, mas essa dificuldade não deveria anular um dos princípios editoriais mais caros ao jornal.

Menores
1) Merecia muito mais destaque a Panorâmica "OEA processa Brasil por assassinato de 19 meninos" (Cotidiano, pág. C5). Na edição nacional, o texto é um pouco maior, mas, mesmo assim, fica como Panorâmica. Trata-se de um caso escandaloso;
2) A reportagem "Doze são indiciados por morte de estudante" (Cotidiano, pág. C6), sobre assassinato em Campinas, traz em iniciais os nomes dos envolvidos --corretamente, pois são menores. No caso do rapaz apontado como autor do tiro, publica-se, no entanto, além das iniciais, o apelido ("Chambinho"). A meu ver, é uma forma de identificar o jovem. Do ponto de vista estritamente legal, não tenho instrumentos para dizer se aí há ou não uma falha. Mas do ponto de vista do princípio de manter o anonimato em caso de menores de idade, creio que o jornal errou.

     
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