Ombudsman Folha   Folha Online
 
03/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

A atuação política sintonizada do "mundo ocidental" que conta se reflete nas manchetes de hoje. De um lado, a Otan, de outro, Blair, como se atuassem em combinação. Na mesma linha do "New York Times", a Folha ("Evidências contra Bin Laden são 'conclusivas', afirma Otan") e o "Globo" ("Otan reconhece provas contra Bin Laden e apóia a guerra") destacam a declaração da aliança militar. "Estado" ("Blair ao Taleban: entregue Bin Laden ou o poder") e o "JB" ("Blair exige do Talibã Bin Laden ou o poder") optam pelo novo ultimato do primeiro-ministro britânico.

11 de setembro

1) Cada vez mais aparecem como provas ou indícios de participação nos atentados do dia 11 documentos que se referem aos atentados ao WTC em 93, às embaixadas dos EUA em 98 ou ao destróier USS Cole em 2000, relacionando uma coisa com a outra. Isso ressurge hoje em "Otan aceita provas e adota cláusula de defesa mútua" (capa de Mundo/Guerra na América). Fica uma pergunta: quais foram as "provas" apresentadas na definição da autoria daqueles atentados anteriores? Eram mais consistentes do que as exibidas (ou não) até o momento sobre o 11 de setembro? Essa informação, creio, falta ao leitor para que se possa estabelecer alguma conexão;
2) A Primeira Página dá manchete para a Otan, mencionando Blair no texto da chamada. Já o caderno interno abre com Blair, editando a Otan embaixo, ao pé da página? Por que a falta de harmonia?
3) Faltou incluir a Rússia no mapa da arte "Os preparativos para o ataque" (pág. A14). Como mostra a retranca "Secretário dos EUA é enviado ao Oriente Médio" (mesma página), forças russas teriam entrado no Afeganistão pela fronteira do Tadjiquistão. Além do peso geopolítico, a Rússia tem a presença física na região;
4) O título "Afeganistão retoma plantio de papoula" (pág. A15) força um pouco o bastão. No texto, afirma-se que, embora haja consumo, o Taleban praticamente acabou com as plantações de papoula (que são usadas para produzir drogas) e agora AMEAÇA permitir o cultivo se os EUA atacarem. É diferente.;
5) Não vi na Folha duas informações importantes, trazidas por concorrentes: segundo jornal paquistanês, Laden estaria escondido numa antiga base nuclear russa no noroeste do Afeganistão, no meio de montanhas enormes; o Paquistão fechou dois aeroportos próximos à fronteira afegã, para receber aviões norte-americanos;
6) O "Globo" publica hoje interessante reportagem sobre as regras que Bush procura impôr à imprensa. A Folha continua a subestimar a questão da mídia em sua cobertura;
7) Registro, também, para entrevista do enviado especial com um mulá paquistanês pró-Taleban publicada no "Estado";
8) Reportagem à pág. A16 ("Governos disputam doações em NY") considera que os US$ 15 bi de ajuda definidos pelos EUA à aviação estão incluídos no total de US$ 40 bi liberados até o momento pelo governo. Já o texto "EUA admitem recessão, mercado pede ajuda" (capa de Dinheiro) informa que os US$ 40 bi seriam apenas para "reconstrução da infra-estrutura danificada pelos atentados"; os US$ 15 bi fariam parte de um pacote maior, de US$ 100 bi. É preciso esclarecer e padronizar a informação.

Manual?
Sabe-se que, infelizmente, o jornal mantém o péssimo hábito de desrespeitar certos princípios elementares e nada complexos de seu próprio "Manual". Mas há casos realmente incompreensíveis. Um deles é a Panorâmica "Atriz Sharon Stone diz ter tido muita sorte" (Pág. A17), sobre aneurisma por ela sofrido, que não traz a idade da estrela de cinema.

E ACM?
A reportagem "Renúncia deve desencadear novas ações contra Jader" (Brasil, pág. A4) afirma que, com a provável perda de imunidade, o senador paraense terá novas dores de cabeça. Faz lembrar afirmações semelhantes feitas pela imprensa por ocasião da renúncia de ACM, no primeiro semestre. Não valeria a pena verificar o que ocorreu em relação a isso no caso do político baiano? Houve, de fato, novas acusações/processos formais contra ele após a sua renúncia?

Buritis
1) faltou mapa localizando a fazenda (Brasil, pág. A9) supostamente ameaçada de invasão;
2) a Folha deve uma definição mais precisa a respeito da propriedade do imóvel. Escreve-se ora "fazenda de FHC", ora "lugar onde os filhos do presidente possuem uma propriedade", ora "fazenda de propriedade dos filhos do presidente", ora "fazenda da família FHC". Não se trata de filigrana, mas sim de uma definição que implica apreciações eventualmente divergentes quanto à pertinência de uso de tropas federais na proteção ao imóvel.

Garotinho e Mauá
A Folha, a meu ver, precisa entrar no caso que opõe a Assembléia Legislativa ao governador Garotinho, no Rio. Há impeachment em discussão. Naturalmente os jornais do Rio estão em cima. Outro caso que exige retomada: as substâncias tóxicas de Mauá. Não há novidades?

Outro lado
Faltou o "outro lado" da CBF e seus dirigentes na reportagem "Inquérito da Polícia Federal investiga cúpula da CBF" (Esporte, pág. D1).

Resposta
Registro resposta enviada, via SR, pelo editor de Ciência, Marcelo Leite, à nota "Indícios versus evidências", da crítica interna de ontem:

"1. O que o ombudsman disse:
Indícios versus evidências
Ciência traz o título "Novos indícios apontam o local do Dilúvio" (pág. A8). Na sobrelinha e no texto, porém, usa-se a palavra "evidências". Esta última é bem mais contundente (sugere uma certeza) do que a usada no título (só em termos jurídicos indício significa prova circunstancial), o qual, digamos, atenua o impacto da própria notícia. Tudo pode não passar de uma questão mais simples: "indícios" ocupa menos espaço, em título, do que "evidências". Mas, de todo modo, são sentidos diferentes.

2. Resposta de Ciência:
Com efeito, as palavras "evidência", "prova" e "indício" tendem a ser usadas no jornal, inclusive por Ciência, como sinônimos, o que não são. Embora pertinente no atacado, a observação do ombudsman não se aplica à reportagem em questão.
A palavra mais forte, "evidência" foi usada na linha para qualificar o fato de a área submersa ter sido habitada. Já a mais fraca, "indício", foi empregada no título, propositalmente, para estabelecer a conexão --bem mais frágil-- do fato objetivo com o local do Dilúvio.
Por fim, no lide, "evidência" comparece numa construção também cuidadosa, como convém a um texto responsável de Ciência: "... evidências que parecem apoiar a teoria de que uma enchente catastrófica atingiu a região do mar Negro (...) possivelmente inspirando as lendas mesopotâmica e bíblica do Dilúvio".
Contraste-se com o título do jornal concorrente: "Dilúvio do Mar Negro não é lenda, diz estudo".

     
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