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05/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

Dentre os principais jornais, só o "Estado" ("Paquistão aceita provas dos
EUA contra Bin Laden") e o "Globo" ("EUA já sabem quais alvos bombardear no
Afeganistão") dão manchete hoje para a "nova guerra". A Folha, a meu ver
equivocadamente (ler comentário abaixo), abre com a renúncia de Jader
("Jader renuncia para evitar cassação"), enquanto o "JB" ("FH veta salário
mínimo de R$ 200") dá manchete em linha crítica contra o Planalto.

11 de setembro

1) O melhor que se pôde ler nos jornais de hoje sobre o tema está na Folha.
São os relatos das gravações de ligações telefônicas de pessoas
desesperadas nos instantes imediatamente posteriores aos choques dos aviões
contra as torres. Eis um diferencial de peso;
2) O anúncio, pelo Paquistão, de que admite terem os EUA apresentado provas
contra Bin Laden é uma notícia de grande importância política que merecia a
manchete do jornal, mais do que a ultraprevisível renúncia de Jader
Barbalho. Esta última seria tranquilamente a manchete em tempos "normais".
Mas não é o caso hoje;
3) Detalhe: a legenda da foto da pág. A16 menciona uma "... passagem do
presidente (Bush) AO Departamento de Estado...". O certo seria PELO, ou
algo assim, não?
4) A retranca "Relatório deixa Brasil convicto sobre Bin Laden" (pág. A17)
afirma que vários membros do governo tiveram já conhecimento das "provas"
contra o terrorista saudita. Mas não fala se FHC teve. O presidente foi
informado por seus ministros? Suponho que sim, mas o jornal não informa;
5) No "Perfil" de Edward Said (contracapa de Mundo), faltou informar que há
livros do autor em português, publicados no Brasil;
6) Em seu terceiro parágrafo, a Panorâmica "Explosão de fábrica que matou
29 pode ter sido..." (pág. A19) afirma que os terroristas suicidas
islâmicos usam várias cuecas e camisetas nos atentados "...para proteger o
corpo para sua chegada ao paraíso". Faltaram aspas aí, ou algo que deixasse
claro, como creio ser o caso, que o jornal não banca a idéia de que essas
pessoas de fato se encaminham para o "paraíso".

Jader
1) Há uma redação confusa no texto "Documento foi escrito semana passada"
(Brasil, pág. A10). Ele afirma que a eleição de Ramez Tebet para a
presidência do Senado "convenceu o senador paraense de que nenhuma manobra
regimental de última hora levaria seus adversários a prosseguir com o
processo de cassação de seu mandato...". Se entendi bem, o verbo
"prosseguir", aqui, está errado, não? O certo seria "interromper", ou um
sinônimo;
2) No material sobre a renúncia, creio que caberia uma análise mais
aprofundada sobre a possível relação entre o conflito Jader-ACM, que
culminou com a queda de ambos, e o jogo da sucessão presidencial. É pouco
provável que tudo tenha se resumido a uma questão de embate pessoal entre
os dois caciques.

Outro lado
A reportagem "BC afasta diretora e consultor do cargo" (Brasil, pág. A13)
traz afirmação do Ministério Público segundo a qual inexistiu base legal na
operação de socorro ao banco Marka em janeiro de 99. Faltou a posição do BC
sobre isso.

Didatismo
O caderno Dinheiro, a partir da capa, traz extenso material sobre a crise
argentina, que parece voltar com toda força. Para o leitor comum, é difícil
entender a diferença, de forma e de conteúdo na atual conjuntura, entre
dolarização, conversibilidade e desvalorização. Faltou didatismo.

"JB" e "GM"
1) A venda de parte da "Gazeta Mercantil" para o "JB" (Dinheiro, pág. B5) é
um lance relevante nas mudanças que têm ocorrido no mercado de jornais nos
últimos anos. Ficou, creio, uma dúvida no texto de hoje: de onde, afinal, o
"JB" está tirando dinheiro para fazer essa aquisição? Não estava o jornal
carioca até pouco tempo atrás enrolado em dívidas etc? O leitor tem direito
a uma explicação;
2) Segundo o "Valor", o negócio prevê também compartilhamento de parte do
conteúdo editorial. Se confirmado, será outra mudança a merecer
acompanhamento.

Título confuso
Tive a impressão de que o título "Calote e isenções engolirão 42% do IPTU"
(Cotidiano, pág. C4) está incorreto e não bate com o texto da reportagem.
Ele dá a entender que a arrecadação já está comprometida nesse percentual.
Quanto ao calote (inadimplência), ok. Mas quanto às isenções, não. As
isenções são dinheiro que a prefeitura deixará de arrecadar. São coisas
diferentes. Creio que o título faz uma mistura inadequada e, de certa
forma, enganosa.

Prisão injusta
Fiquei com uma dúvida depois de ler a curiosa reportagem "Manobrista fica
56 dias na prisão injustamente" (Cotidiano, pág. C5): ele tem, em tese,
direito a alguma indenização?

Mar Morto?
A Panorâmica "Queda de avião faz Fifa adiar partida decisiva entre
israelenses e austríacos" (Esporte, pág. D1) afirma que o avião russo caiu
ontem no mar Morto. Ele caiu no mar Negro, certo?

Angra, novamente
Achei equivocada a retirada, na edição SP, da reportagem sobre novo
incidente na usina de Angra. Publicada na edição nacional, merecia pelo
menos uma Panorâmica na SP.

Politicamente incorreta
Assim me parece a afirmação de que o bate-boca entre Pelé, Eurico Miranda
e Edmundo Silva na inauguração da Liga Rio-SP foi "um espetáculo digno de
botequim" (Esporte, pág. D2). O que o jornal tem "contra" os botequins?

Errei
Ao contrário do que afirmei ontem, a Folha publicou, sim, texto sobre o
sequestro de jornalistas por terenas no Mato Grosso. Saiu numa Panorâmica
ao pé da pág. A10.

     
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