Em mais um dia histórico, as manchetes dos principais diários brasileiros de circulação nacional: Folha: "EUA atacam Afeganistão; Bin Laden lança ameaças" "Estado": "Começa o ataque aliado ao Taleban" "Globo": "Bombas e comida sobre o Afeganistão" "JB": "Bombardeio pode durar 7 dias" "Valor": "EUA atacam Afeganistão" "Gazeta Mercantil": "Consequências incertas de um ataque esperado"
Nova guerra 1) Os ataques iniciados ontem contra o Afeganistão inauguram uma nova etapa em termos de cobertura jornalística. Permanece, claro, a necessidade/obrigação de análises/entrevistas de fundo geopolítico. Tende a ganhar mais força, porém, o noticiário da guerra propriamente dita. Isso significa: informações sobre operações militares (inclusive números relativos a vítimas), refugiados, acompanhamento dos embates internos no governo dos EUA (e aliados) e nos países islâmicos, além da movimentação diplomática internacional (manutenção ou não da coalizão estabelecida). Nessa medida, dadas as dificuldades de obtenção de dados (haverá, como já se disse, censura e restrições), a Folha tende a ficar "na mão" das agências, ou limitar-se aos seus (poucos) correspondentes próprios. Cresce de importância, aí, o acompanhamento sistemático e reprodução no jornal (sempre que possível) de material da imprensa internacional (especialmente dos EUA, Europa e dos países árabes ou islâmicos). Na edição de hoje do jornal, além dos itens que procurarei expor, senti ausência de material desse tipo (indispensável, creio, nessa "nova guerra"); 2) Acho inadequado o chapéu "América contra-ataca". Não se trata, no fundo, de um contra-ataque. Claro que esse elemento está presente em termos imediatos, mas o que começou foi uma ação prolongada, cujo alcance, ao que tudo indica, vai muito além de um contra-ataque. E certamente não é só uma ação da "América". Melhor seria, creio, algo como "A nova guerra". É só imaginar que esse chapéu tende a permanecer no jornal meses a fio; 3) Na chamada da Primeira Página, afirma-se que os ataques começaram às 21h27. Outros jornais trazem horário diferentes (a verificar). 4) Na mesma chamada (e isso vale para o caderno especial também), há informação do número de aviões e mísseis utilizados (inclusive uma arte, no caderno), mas não se consegue dar ao leitor a dimensão do que isso significa. Por exemplo: é muito ou pouco comparando com outras investidas em ou de outros países em outros conflitos? Não valeria lembrar, por exemplo, que o Afeganistão tem aproximadamente o tamanho de Minas Gerais? 5) Achei apropriada a mudança de "Começou" para "Guerra" entre uma edição e a outra no caderno especial. Registro apenas que, na minha casa, onde recebo dois exemplares ao mesmo tempo, o primeiro veio com um caderno e o segundo, com o outro; 6) No "lidão", afirma-se que Bin Laden fez um discurso "tentando caracterizar o confronto como sendo entre o islã e os 'infiéis'". Por que "tentando"? O terrorista, claramente, caracterizou o conflito dessa forma; 7) Senti falta de material do correspondente no Paquistão, justamente num dia histórico; 8) Também faltou, na Folha, uma cronologia das diversas intervenções militares dos EUA ao longo do século; 9) É difícil saber ao certo quem tem razão. Mas não vi na Folha a informação (trazida pelo "Estado") de que a casa do mulá Omar (líder do Taleban) em Candahar foi atingida. Do mulá, aliás, há um interessante perfil feito pelo "Daily Telegraph" e reproduzido no "Globo"; 10) A retranca "Ação expõe divergências no governo" (pág. A10) informa que, segundo o "NYT", o vice-presidente Cheney fez uma espécie de recuo e concordou com a estratégia de coalizão do secretário de Estado Colin Powell. Em texto do jornal americano reproduzido em outros jornais, porém, já uma avaliação que vai em sentido diferente, dando a entender, inclusive, que a chamada "doutrina Powell" sofreu uma derrota desde o 11 de setembro. A verificar; 11) Observei que o jornal evitou atribuir porcentagem para definir o quanto a Aliança do Norte e o Taleban ocupam, respectivamente, do território afegão. Desapareceram os "10%" ou "5%". Se é proposital, cabe explicar ao leitor quais mudanças teriam ocorrido para justificar essa alteração; 12) Ou muito me engano, ou na bomba que aparece em foto da pág. A13 há as letras "WTC", em tamanho maior, além dos dizeres "Pentagon" e "USA", como traz a legenda. Seria um detalhe importante para a riqueza da imagem e dos símbolos do conflito; 13) Nessa retranca, aliás ("Ação visa 'amaciar' terreno afegão"), creio que faltou uma remissão para a arte central, onde há ilustrações e dados sobre as armas mencionadas no texto. Não é uma questão formal, mas sim algo necessário, para facilitar a vida do leitor que não entende nada de materiais bélicos; 14) Deve-se ao leitor uma análise do papel desempenhado por Tony Blair no atual momento. É bem maior do que a Folha parece, pela edição, admitir. Não por acaso, o "NYT" e o "Post" incluem os britânicos em suas manchetes de hoje. Certamente, não se trata, apenas, de uma vontade belicista pessoal exacerbada do primeiro-ministro (como dão a entender analistas mencionados na retranca "'Riscos da falta de ação são maiores', diz Blair", pág. A16). O Reino Unido teme ser alvo de novos atentados. Além disso, tem laços históricos de peso com os EUA (valeria mostrar quais são). Erra o jornal, a meu ver, ao não trazer a íntegra do discurso de Blair; 15) Não vi na Folha a posição assumida pela Líbia, de considerar justificadas as ações dos EUA. Não é um posicionamento qualquer; 16) Há uma retranca ("Ação é terrorismo, diz xeque no Brasil", pág. A19) que ouve lideranças muçulmanas que endeusam Bin Laden. Por que o jornal também não ouviu lideranças católicas, protestantes ou judaicas? 17) Fica uma pergunta: por que os EUA e aliados escolheram justamente ontem para atacar? Há indicações em reportagem do "JB" que traz informações sobre uma reunião ocorrida no sábado logo após o retorno do secretário de Defesa de sua turnê pelo Golfo. Há ainda a explicação, parcial, de que a escolha se deveu ao fato de que hoje seria feriado bancário nos EUA, o que cairia bem para evitar pânico ou irregularidades no mercado. Confere? É preciso explicar; 18) Interessante foto no "Estado" (feita pela "AP") mostra as manchetes de jornais europeus registrando os ataques. A Folha não teve acesso a essa foto? 19) Vale chamar a atenção, também, para texto do "Sunday Times" (igualmente no "Estado") mostrando a estratégia de defesa armada pelo Taleban; 20) O texto "País estava em ruínas mesmo antes do ataque" (pág. A12) trata o Afeganistão como um país com "mais de 20 milhões de habitantes". Não está errado, já que, segundo a arte central, há oficialmente 26 milhões de habitantes ali. Mas a diferença de seis milhões é razoável (23% de 26 milhões). Equivaleria a 39 milhões de pessoas se aplicada a proporção, por exemplo, no Brasil. Seria como dizer que em nosso país há mais de 130 milhões de habitantes; 21) Informação curiosa, publicada na "Gazeta Mercantil" hoje: a rede Habib's, por razões óbvias, adiou a sua "estréia" nos EUA.
Outros assuntos (fim de semana) 1) Há que se registrar reportagem da revista "Isto é" sobre doleiro que fugiu do país levando muito dinheiro do Ministério dos Transportes. É um caso importante; 2) O mesmo vale para reportagem da "Veja" sobre os "fundos" da Força Sindical. Este é um caso que a Folha levantou inicialmente, anos atrás, mas que, aparentemente, deixou de lado; 3) Pesquisa do Ibope publicada no "Valor" hoje indica que Lula pode ganhar no segundo turno. Mesmo sendo um instituto sobre o qual pairam algumas sombras, é evidente que se trata de uma indicação de tendência a ser considerada.
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