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09/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

As manchetes se dividem hoje em duas linhas básicas: a continuidade dos ataques ao Afeganistão e a comunicação dos EUA à ONU de que podem fazer ataques a outros países. Folha ("EUA mantêm ataque ao Taleban") e "Estado" ("Bombardeio diminui no segundo dia") optam pela primeira linha. "Globo" ("EUA avisam à ONU que vão atacar outros países") e "JB" ("EUA ampliam fronteira da guerra"), pela segunda. O uso do nome Taleban na manchete da Folha dá lugar a uma discussão interessante e necessária (veja a observação abaixo).

Nova guerra
1) A formulação da manchete de hoje da Folha suscita uma discussão que pode parecer, de início, bizantina, mas certamente não o é. Os ataques, afinal, são contra o Afeganistão ou contra o Taleban (como está no título)? Ao optar por uma definição ou outra, o jornal acaba, sutilmente, por favorecer (ou não) a visão norte-americana. A rigor, dada a carência de informações confiáveis, o fato é que se trata de um bombardeio ao Afeganistão, com prováveis vítimas civis. Se ele está acertando os alvos específicos (Taleban), ainda é cedo para definir;
2) Enigmático o título "Guerra de atrito" (caderno especial). Somente lendo a reportagem da pág. A15 "Ação demonstra dificuldade para a definição dos alvos" é que entendi o que isso significa. A explicação que há no lidão da capa do caderno é insuficiente;
3) Insisto na questão do didatismo: no texto "Pedindo 'paciência', EUA fazem bombardeio menor" (A14), fala-se que os bombardeiros B-2 usam "tecnologia furtiva". O que é isso?
4) Onde anda e o que está fazendo o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney? Ativo e presente na mídia nos primeiros dias, praticamente desapareceu. Qual está sendo o seu papel? Segundo a reportagem "EUA avisam à ONU que podem atacar outros países" (pág. A16), não há consenso sobre o assunto (ampliação do conflito) no gabinete de Bush. O "sumiço" do vice teria algo a ver com isso, ou ele está atuando fortemente por debaixo do pano?
5) Uma vez solta a jornalista britânica que estava detida pelo Taleban, creio que cabe esclarecer aos leitores se ela, afinal, era uma agente secreta ou não, conforme se especulou (reportagem à pág. A17);
6) O jornal, até o momento, não noticiou a posição da Líbia em relação aos ataques norte-americanos e britânicos. Segundo a agência "Ansa", ela apoiou. É isso mesmo?
7) Há na pág. A20 uma foto cuja legenda afirma se tratar de uma pessoa durante protesto na Escócia contra a guerra. Não há menção a essa manifestação em nenhum texto;
8) O sobrenome do brasileiro que está a bordo de um navio de fuzileiros navais dos EUA é Fortes, não Portes, como está no texto "Família não consegue contato com brasileiro" (pág. A21). Vale um ERRAMOS, não?
9) Interessante a reportagem "Sem imagens do front, TVs dos EUA estão paralisadas" (pág. A22). Dá conta dos desafios colocados para a cobertura do conflito num quesito caro aos norte-americanos: a imagem. Creio que o jornal deveria, no entanto, tentar produzir material semelhante sobre a mídia impressa. Ora, se as TVs estão com dificuldade, não deve crescer o peso da cobertura dos jornais?
10) Registro para a interessante reportagem trazida pelo "New York Times" e reproduzida no "Estado" sobre o "clima" e a tensão reinante a bordo do porta-aviões norte-americano Enterpraise. Revela-se, ali, por exemplo, entre vários outros detalhes, o temor de um contra-almirante de que, se seu nome fosse conhecido, estaria colocando em risco a segurança de sua família na Virgínia. A Folha tem os direitos de reprodução do "NYT". Por que desprezar um material como esse?
11) O concorrente local traz também retranca na qual líderes muçulmanos na França repudiam o uso que Bin Laden faz da sua religião. Eis um assunto importante. Será que a imprensa não consegue mostrar nenhuma voz dissidente de peso, dentro do islamismo, capaz de criticar o terrorista, posto que, quanto a apoiá-lo, muito já se publicou?
12) Agora que os EUA parecem levar mais a sério a ameaça de um ataque de ordem bacteriológico, creio que seria o caso de a Folha mostrar aos leitores o que é, afinal, a tal bactéria antraz. A reportagem "FBI investiga ligação entre casos de antraz e terrorismo" (pág. A23) apenas esboça alguma explicação. Afinal, de onde ela surgiu?

Pastel
Há um "pastel" no texto "Pai de Jader é chamado para assumir mandato" (Brasil, pág. A7). Após o intertítulo, menciona-se o nome Fonseca sem qualquer indicação de quem se trata.

     
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