O Afeganistão sofreu ontem aquele que teria sido o ataque mais intenso desde domingo. Parecem confirmar-se a radicalização e a intensificação do conflito. Com exceção da Folha ("Ataque matou líderes do Taleban, dizem EUA"), os principais jornais deram manchete para esse fato. "Estado": "Cabul recebe o mais pesado bombardeio"; "Globo": "EUA lançam maior ataque e usam bombas subterrâneas"; "JB": "Cabul sob fogo cerrado". A Folha foi o jornal que mais destaque deu à questão da "censura" a Bin Laden, questão altamente polêmica (leia nota abaixo).
Nova guerra 1) Não está devidamente retratado no jornal o fato de que os ataques de ontem foram os mais intensos até o momento. Não há nem sequer um título que dê conta disso. A questão da "censura" e a do iminente ataques com uso de helicópteros e forças terrestres são obviamente importantes, mas houve subestimação da notícia de guerra; 2) Parece-me bem mais complexa do que o jornal dá a entender a questão do "pedido" do governo dos EUA às redes de TV no sentido de evitarem divulgar declarações/vídeos de Bin Laden e da Al Qaeda. Nada aqui deve ser visto como preto ou branco, simplesmente. De início, é inegável que o governo tem o direito de fazer a solicitação. Ainda mais na situação extraordinária de agora. O que não quer dizer que os meios de comunicação sejam obrigados a acatá-la. Quanto a estes, por sua vez, têm, sim, o direito de optar por divulgar ou não aquilo que considerem adequado, princípio este mantido pela própria Folha (veja o verbete "Razões de segurança" no "Manual", pág. 48). A seleção, aliás, faz parte da natureza do trabalho jornalístico. Algumas emissoras afirmaram que vão "editar" eventuais novas declarações. Como se comportaria a Folha numa situação como essa? Não é simples. A obrigação básica do jornal, a meu ver, hoje, diante do pedido de Bush/Rice, deveria ser abrir um debate, trazendo diferentes pontos de vista, e não assumir, no noticiário, que houve censura e ponto final. Trata-se de uma visão simplista de cobertura do assunto. Um editorial do "NYT" e um artigo do "Post" reproduzidos no "Globo" entram um pouco no tema; 3) Como estão os escombros do WTC e do Pentágono? Não vi mais nenhuma reportagem sobre isso no jornal, após um mês dos atentados; 4) O mapa ao pé da pág. A19 não mostra onde se localiza o Iraque. É importante que esse país apareça nas ilustrações, já que está cotado, nos próprios textos do caderno, como um eventual alvo na possível expansão das ações militares da "nova guerra"; 5) Por falar em mapa, faltou um na retranca "EUA estudam ampliar ação na Ásia" (pág. A22), em que Malásia, Filipinas e Indonésia aparecem, também, como países nos quais supostos terroristas se abrigam (há um lapso na edição desse texto, tirado certamente on line do "NYT": no nono parágrafo aparece um "...disseram funcionários hoje"); 6) O texto "Egípcios consideram EUA agressores" (pág. A23) traz alguns parágrafos com mais de trinta linhas. Exigia um trabalho de edição/copidescagem. Não é o "estilo" da Folha; 7) Diplomata iraquiano afirma em "Embaixador americano adverte Iraque na ONU" (pág. A23) que a ação dos EUA está ferindo o direito internacional. Será isso mesmo? De fato, a Folha, me parece, ainda não entrou fundo nessa questão: até que ponto os ataques ao Afeganistão possuem respaldo no direito internacional? 8) Interessante retranca no "JB" afirma que aquele rapaz afegão de 16 anos que apareceu em vários jornais (Folha inclusive) como tendo perdido uma perna nos bombardeios foi atingido, na verdade, por uma das inúmeras minas que já existem desde os anos 90 no país. Usou de mentira, segundo o texto, para poder sair do Afeganistão como refugiado. Mais um caso de "versão", que choverão às dezenas; 9) Li no "Valor" texto que mostra o papel de Tony Blair na coalizão antiterror e os motivos políticos que o levam a assumi-lo. Fazia falta uma análise como essa na imprensa. Não é definitiva, mas traz informações interessantes; 10) O "Estado" publica informação de que tropas russas já estariam dentro de território afegão. A conferir.
Medeiros 1) A retranca "PL dá apoio a Medeiros, e PT ainda insiste na aliança" (Brasil, A4) informa que, segundo José Genoino (PT), o caso do deputado do PL não deve afetar as negociações com vistas à candidatura Lula. Pergunto: quais são, de fato, na vida real, essas negociações? Até onde se chegou? Independentemente, até, da questão ideológica ou programática, não há enormes conflitos entre PT e PL nos diferentes Estados? Não há forte oposição a isso dentro do PT? Valeria aprofundar o assunto; 2) Faltou a idade de Luiz Antônio de Medeiros no perfil dele traçado na mesma página; 3) Ainda nesse material, nada se diz sobre a recente decisão do STF de quebrar o sigilo do Ibes, último fato que fez o caso ressurgir.
Outro lado Falta o outro lado do ex-senador paraense em "Procuradores movem ação contra Jader hoje" (Brasil, pág. A6).
Impunidade Em todo o material da capa de Dinheiro sobre os "feriadões" do Nordeste contra o apagão, nada se menciona sobre a aplicação ou não dos cortes de luz para os consumidores que não cumpriram suas metas como um dos fatores que podem ter contribuído para o baixo índice de redução de consumo de energia na região. Foram feitos esses cortes? Os motivos desse nível insuficiente não estão claros. Nota do Painel SA, por exemplo, atribui peso enorme ao uso de ar condicionado, segundo a Aneel, pela classe média.
A crítica interna é de responsabilidade do ombudsman Bernardo Ajzenberg. Circula diariamente na Redação da Folha e na Empresa Folha da Manhã Ltda.
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