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15/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

As ameaças de bioterrorismo tomaram conta das edições do fim de semana. Tudo indica que elas podem ser reais. Jornalisticamente, porém, seria ossível caracterizá-las de duas formas: continuidade do embate entre terror e os EUA ou tentativa de diversionismo em relação aos ataques ao Afeganistão no momento em que começam a aparecer as mortes de civis. Todo cuidado é pouco para não cair, em especial, na segunda hipótese. As manchetes hoje: Folha: "EUA admitem terror com antraz"; "Globo": "EUA dizem que casos de antraz são bioterrorismo"; "JB": "EUA caçam tropa de elite de Bin Laden"; "Estado": "Bush recusa oferta do regime afegão e intensifica ataques".

Nova guerra (fim de semana)

1) O chapéu "América contra-ataca" está completamente defasado, ainda mais se se considera que está havendo um ataque terrorista com armas bacteriológicas. Creio que o jornal deveria pensar num "lema" que pudesse dar conta em permanência (na medida do possível, claro) da "nova guerra";
2) A idéia de diversionismo que menciono na abertura desta crítica pretende chamar atenção para que o jornal não embarque no que pode ser apenas uma onda. Toda atenção será pouca, mais uma vez;
3) O texto "Congresso muda o pacote contra o terror" (pág. A13, sábado) noticia que há divergências entre as medidas aprovadas na Câmara e as aprovadas no Senado dos EUA. Mas não mostra como fica a questão agora. Quem decide? O Senado vai rediscutir e terá a palavra final antes da sanção presidencial?
4) Um registro para boa reportagem da revista "Época" sobre a questão mídia/censura/guerra. Faz um interessante e polêmico apanhado histórico;
5) O texto de abre "EUA admitem ter atingido área residencial em Cabul" (pág. A13, domingo) contém no lide afirmação de que os EUA atacaram uma base no sul do Iraque. Dá margem a confusão. De cara, a pergunta é esta: opa, então já expandiram a guerra? Só no 13o parágrafo se informa que em tese o ataque não tem nada a ver com a campanha contra o terror. Ainda assim, fica uma dúvida, já que, nesse mesmo trecho se afirma, na voz de um militar dos EUA, que iraquianos haviam ameaçado com "atos contra aviões da coalizão";
6) Parece-me inadequada a tradução de "story" por "história" no texto "'Aquilo parecia talco de criança'" (pág. A9, segunda), no qual a jornalista do "NYT" conta sua experiência ao receber carta que poderia conter antraz. O melhor seria "notícia", ou "matéria", não? Aliás, faltou foto da jornalista, publicada no "Globo" domingo;
7) Faltou contextualização na retranca "Líder islâmico diz que espionagem é preconceito" (pág. A10, segunda), sequência da reportagem do domingo sobre espionagem da Abin. Quem não leu esta última não entende do que se trata;
8) Quadro na capa do caderno (segunda) indica que os sintomas de contaminação pelo antraz já começam no segundo dia, sendo parecidos com gripe comum. Já o texto "Serra descarta uma guerra biológica no Brasil" (pág. A10) diz que eles aparecem entre o quinto e o sétimo dia. Falta ajustar;
9) Há uma formulação ambígua no texto "Protesto no Paquistão deixa um morto, e tensão interna aumenta" (segunda, pág. A12). Afirma-se: "A Casa Branca, que nega ajuda direta à Aliança do Norte, já discute...". Nega-se a dar ajuda, ou nega que esteja ajudando? O texto permite as duas interpretações;
10) O texto de Engels, reproduzido na contracapa (hoje, segunda), exigia uma contextualização, um resumo explicativo, não apenas um "saiba mais" sobre o autor;
11) O "NYT" publicou importante reportagem sobre os "falcões" do Pentágono, encabeçados pelo subsecretário da Defesa, que insistem em atacar o Iraque. O "Estado" reproduz o texto no sábado;
12) Interessante também a declaração do filho de Bin Laden trazida pelo "Sunday Mirror" segundo a qual o pai é "invisível" e "nunca será capturado";
13) Ao que me recordo, a Folha ainda não "apertou" o conjunto dos presidenciáveis com relação ao conflito. Não valeria a pena comparar o que dizem?

Globo
A reportagem "Relação da Globo com cartolas é investigada" (A8, domingo) parece-me correta, mas peca ao embaralhar no conjunto de seu material (texto e arte) contratos atuais (2000/2001/2002) com os que estão sendo de fato investigados (de 1997 a 1999).

Palanques estaduais
Segundo um leitor de Rondônia, Ernandes Amorim é do PGT e não do PPB (quadro "Os palanques...", pág. A10, domingo).

Afeganistão aqui
Duas observações sobre a interessante reportagem "Afeganistão, São Paulo, espera bomba cair" (pág. C7, domingo):
1) O texto não vai tão longe a ponto de sustentar a sobrelinha quando esta afirma que "Bin Laden é mascote em rua do Jardim Ângela...". O máximo que se afirma, nesse sentido, é que um menino disse que poderia dar a um cachorro o nome do terrorista saudita;
2) Faltou o "outro lado" do pesqueiro que existe na região e que, segundo moradores ouvidos pela reportagem, abrigaria ações supostamente ilícitas.

Nova York aqui
A reportagem "Esquecida, NY nordestina ironiza tragédia americana" (pág. C6, domingo) exigia mapa do Maranhão, localizando a cidade.

Sísifo
O caso da retranca "Schumacher iguala 'tempo de serviço' de Senna nas pistas" (Esporte, domingo, pág. D5) é típico daqueles que exigem a idade dos protagonistas (ano de nascimento e morte, no caso do brasileiro). Esse dado ajudaria a entender melhor as comparações entre os dois automobilistas.

Propaganda ou serviço?
A reportagem "Seguro é mais importante na juventude" (Folhainvest, hoje, pág. B6) traz um lide que leva à indagação acima: "Se você é novo e saudável e acha que por isso não precisa de um seguro de vida, está enganado. Segundo os especialistas ouvidos pela Folha, esse produto deve ser adquirido antes de se pensar em um plano de previdência". Ora, a maioria dos "especialistas" ouvidos são de empresas de seguro. É o tipo da reportagem que exigiria, a meu ver, mais cuidados, ouvindo-se, no máximo, consultores.

Heston e o macaco
A nota "Esconderijo", na coluna Monica Bergamo de sexta (dia 12), afirma que Charlton Heston interpretou um macaco em "O Planeta dos Macacos". Ao que consta, ele interpretou um astronauta. A verificar.

     
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