Sai a guerra; volta o antraz... Por trás do ziguezague dos últimos dias (revezamento de manchetes entre guerra e antraz) se esconde um problema que a imprensa não consegue -e não talvez não possa--, por enquanto, resolver (veja abaixo). Nas manchetes de hoje, mais uma vez, pouca dúvida havia quanto à prioridade. Folha: "Antraz fecha Câmara dos EUA"; "Globo": "Antraz contamina 34 no Senado americano e fecha a Câmara"; "Estado": "Exposição de mais 31 ao antraz fecha Câmara dos EUA"; "JB": "Terror retoma ofensiva com antraz".
Nova guerra
1) Nenhuma informação, até o momento, autoriza dizer que as cartas com antraz, nos EUA, tenham como remetentes os mesmos terroristas que Bush acusa de terem perpetrado os ataques de 11 de setembro. Cresce, ao contrário, a tendência a se favorecer a investigação no sentido de ataques "domésticos". Isso coloca uma enorme dificuldade para a cobertura da imprensa: afinal, há, ao que parece, terroristas e... terroristas. Faz sentido editar tudo num mesmo caderno sob um único "chapéu"? Até agora, não foi possível responder. Os jornais caminham às cegas, arriscando-se a misturar banana com laranja. Se as "autoridades" concluírem pela hipótese doméstica, os EUA poderão ser acusados, querendo ou não, de abrigar terroristas, tal como o Afeganistão! Esse seria o esquisito paradoxo: em Cabul, um regime teocrático ditatorial outorga apoio e aval a Bin Laden; em Washington, a livre movimentação permitida pela democracia dá oportunidade ampla de atuação a bioterroristas. Assim como atira bombas no Afeganistão, será que os EUA terão de bombardear, ainda mais, as liberdades e os direitos civis em seu próprio país? 2) A esse propósito, vale a pena ler artigo do "Guardian" reproduzido hoje no "Estado" segundo o qual "a alma dos americanos está se enrijecendo" desde 11 de setembro; 3) É no mínimo duvidoso o título "Taleban rouba comida da ONU, e ONGs pedem suspensão da ação" (Mundo, pág. A15). Segundo o texto, a milícia "tomou" a maior parte da comida enviada ao Afeganistão. Seus integrantes "ocuparam" dois depósitos com trigo, mas "não há relato de violência". Ora, se não há confirmação de emprego de violência, então não se pode dizer que houve roubo (ver o verbete à página 158 do "Manual"); 4) Por falar em definição de termos, está mais do que na hora de o jornal abrir com transparência a discussão sobre o nome antraz. O artigo de hoje em "Tendências/Debates" mostra que o termo pode estar sendo usado pela imprensa brasileira (de língua portuguesa, em geral) de modo totalmente equivocado. Se isso se confirma, terá sido um grande vexame -não apenas da Folha, claro. Por que não abrir logo a discussão nas páginas do jornal, ouvindo especialistas, já que o termo parece polêmico? 5) É forte a impressão de que o governo norte-americano está, neste momento, fortemente desorientado. Além de Bin Laden, há o antraz e, agora, o recrudescimento das hostilidades entre israelenses e palestinos... com Bush na China. Não valeria uma análise? 6) Registro a interessante entrevista dada ao "Estado" por um dirigente da Aliança do Norte, irmão do líder militar assassinado morto dias antes do 11 de setembro; 7) Não vi na Folha duas informações importantes: a) A Câmara dos EUA aprovou lei que aumenta os poderes do governo de quebrar sigilos bancários; b) Segundo o "Post", trabalha-se com a hipótese de que nem todos os sequestradores eram suicidas;
Serra e Serra A reportagem "Dossiê apócrifo expõe disputa eleitoral" (Brasil, pág. A4) mostra que a agência DM9DDB poderia estar envolvida num sistema pró-José Serra. Em seu (correto) "outro lado", é dada a palavra ao presidente da agência. A questão é que esse executivo se chama Afonso Serra. Teria sido prudente informar ao leitor se se trata de uma incrível coincidência, ou se ele tem parentesco ( e qual) com o ministro da Saúde. Não é uma dúvida pertinente?
Harmonia editorial Na reportagem "Recurso tenta reabilitar Orçamento de SP" (Brasil, pág. A9), em que se mostra a disputa entre o Judiciário e o Executivo na confecção orçamentária, faltou remissão para o material da capa de Cotidiano (greve no Judiciário).
Garotinho versus Benedita Não vi na Folha notícia, destacada naturalmente pelos jornais do Rio, de que o governador Anthony Garotinho acusa sua vice de desvio de R$ 500 mil para uma ONG. Mais um lance na sucessão presidencial.
Parentes suplentes O Senado rejeitou ontem projeto que impede parentes de serem suplentes de parlamentares da Casa. Também não vi na Folha a informação.
Apagão No embate entre os Estados nordestinos e o "ministério do apagão" quanto aos feriadões, sabe-se que a região ficou bem abaixo das metas de economia de energia, mas falta uma informação mais precisa quanto aos índices de economia atingidos por cada Estado, separadamente. O CE afirma ter chegado aos 20%. E os demais? Quanto cada um cortou?
Outro lado Faltou o lado do ex-banqueiro em "CVM rejeita proposta de Calmon de Sá" (Dinheiro, pág. B2). O que pretende ele fazer agora? O que ele achou dessa rejeição?
Visual enganoso A arte "O crescimento da dívida interna" (Dinheiro, pág. B6) faz um cruzamento visual entre barras que mostram o valor da dívida desde dez/99 e uma curva que mostra a porcentagem que os papéis cambiais representam nessa dívida. Só que a curva, a cada barra, está desproporcional. No mês de dez/99, por exemplo, o percentual é 22,82%, mas a curva está quase na metade da barra...
Dubiedade O texto do abre da capa de Cotidiano afirma que a proposta do Tribunal de Justiça aos grevistas é de um abono de R$ 150 a ser pago em fevereiro. Já a arte diz que se oferece uma gratificação no mesmo valor a ser paga a partir de fevereiro. São duas coisas bem diferentes. Qual é a correta?
Juizados para quê? Qual é a utilidade dos novos Juizados Especiais Federais, sobre os quais fala a Panorâmica "Juizados farão amplo uso da internet" (Cotidiano, pág. C4)? Faltou informar ao leitor.
Telefônica versus eletrônica Talvez não seja um erro, mas certamente foi um lapso que fez nascer o título "Pirataria eletrônica dá prejuízo de R$ 400 milhões à Embratel" (Cotidiano, pág. C4), que trata, claramente, de pirataria telefônica.
Plano petista? Equivoca-se o título "Plano Diretor petista será anunciado hoje" (Cotidiano, pág. C8). O plano, feito pelo secretário (sem partido) Jorge Wilheim, é da prefeitura. Administração e partido são coisas diferentes.
Edmundo, de novo Depois de dias noticiando a transferência para o Figueirense (SC), a Folha informa hoje, no Painel FC, que Edmundo vai para Tóquio. Ao menos para os leitores, foi uma grande surpresa, para a qual o jornal, parece, tampouco estava preparado.
Sísifo Faltou a idade da cantora mexicana Gloria Trevi, em "Para PF, cantora mexicana fez inseminação artificial" (Cotidiano, pág. C6).
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