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22/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

As ações militares e a perspectiva de sua intensificação antes do inverno afegão são tema das manchetes de hoje, depois de um fim de semana em que, mais uma vez, o bioterror dividiu o espaço da mídia com os ataques anglo-americanos. Folha: "EUA esperam tomar Cabul em breve"; "Estado": "Forças dos EUA se aproximam da capital afegã"; "JB": "EUA abrem nova frente na guerra"; "Globo": "EUA querem derrubar Talibã até dezembro".

Nova guerra (fim de semana)

1) A Folha de fato esqueceu os escombros e os mortos do WTC. Segundo texto publicado no "Estado" sábado, o número oficial, agora, está em 4.923;

2) O texto de abre do caderno no sábado ("EUA iniciam ataque por terra a tropas do Taleban") afirma que o porta-aviões Kitty Hawk está no mar das Arábias. Onde fica isso? Na arte interna (página A14), ele aparece no oceano Índico;

3) O mesmo texto afirma que os EUA possuem 45 mil tropas em suas forças especiais. Não seriam 45 mil homens ou militares? Tropa não é um conjunto de soldados?

4) Dois títulos forçam a barra em relação aos respectivos textos. O primeiro é a retranca "'Garotos vão morrer', afirma veterano russo" (sábado, pág. A14), segundo a qual um ex-coronel entrevistado considera que "muitos desses garotos americanos PODEM morrer". O segundo é "Taleban desafia EUA, mas faz proposta" (abre da página A15). A rigor, a milícia não fez proposta nenhuma. Admitiu apenas que estaria disposta a negociar um cessar-fogo. Não dá para ser levado a sério como proposta;

5) Faltou um mapa no texto "Israel mata 6 palestinos após ultimato" (pág. A18, sábado). Várias localidades são mencionadas. Fica uma grande confusão;

6) Sobre esse conflito, aliás, vale registrar reportagem do "Globo" (segunda), de acordo com a qual os trabalhistas ameaçam deixar o governo de Israel;

7) A reportagem "Apec evita respaldar ação do EUA" (segunda, pág. A19) afirma que o encontro de líderes em Xangai reuniu representantes de 19 países. Na foto oficial do evento, no alto da página, porém, contam-se 20 pessoas. Qual é o certo?

8) A reportagem "Serviço telefônico para tirar dúvidas sobre o antraz tem falhas" (pág. A14, domingo) indica o endereço da Funasa na internet como "local" em que o leitor pode ficar sabendo telefones de alguns Estados para obter informação regional. Está errado, creio, delegar à web a tarefa. Pelo menos uma parte dessas informações, além da de Brasília (que consta), deveria estar disponível no papel. O jornal ainda tem essa função. Mandar o leitor para a web, creio, só deve acontecer quando os dados forem impublicáveis (por espaço) ou como complementação, não por abdicação;

9) O título e o lide do texto "EUA atacam Candahar por terra" (pág. A20, domingo) deveriam ser para a notícia da morte de dois soldados norte-americanos durante operação na sexta-feira à noite. Foram as primeiras baixas dos EUA, ao que tudo indica. O fato tem, no mínimo, valor histórico importante;

10) Não vi na Folha relato sobre a reunião que teria ocorrido na quinta-feira entre representantes da mídia e o secretário de Defesa, Rumsfeld, sobre a cobertura da guerra (o "Globo" traz o assunto em sua edição de hoje);

11) Um leitor lembra que o material histórico que mostra a incidência de ataques biológicos desde o século 14 (pág, A15, domingo) não menciona o uso de contaminação por cadáveres coléricos ordenado pelo Duque de Caxias na Guerra do Paraguai. O "JB" trouxe no fim de semana reportagem sobre isso.

Discutível nota

A nota "Orçamento próprio" do Painel de sábado (pág. A4) caracteriza Goro Hama como uma "discutível figura...". O que isso quer insinuar? Aliás, quem é Goro Hama? Será que o leitor médio sabe?

Tudo ou nada...

Na edição de sábado, Esporte dedica meia página (é o abre da D4) à volta de Hugo Duppre às piscinas depois de quatro anos de suspensão por doping. Procurei ontem e hoje no jornal o resultado de seu desempenho na competição que ocorreria no fim de semana. Não encontrei nada. Ele competiu? Ganhou? Sumiu.

E o outro lado?

1) Três urbanistas foram ouvidos em "Para especialistas, Plano Diretor é genérico" (sábado, pág. C3). Nenhum favorável ao projeto da prefeitura foi ouvido. Nem mesmo o secretário, Jorge Wilheim. Mais uma vez, água no moinho daqueles que afirmam que a Folha "persegue" Marta;

2) Senti falta da versão do laboratório Novartis no material "Agenda de lobista envolve tucano e assessora da Saúde" (pág. A4, segunda). Envolvida no caso, o que a empresa afirma?

Como se retalia?

O material encabeçado por "Brasil obtém vitória sobre o Canadá na OMC" (Dinheiro, sábado) menciona repetidas vezes a possibilidade e o direito de retaliação comercial. O que vem a ser isso na prática? Como um país, legalmente, pode retaliar outro? Não há explicação.

Sísifo

1) Faltou a idade do ex-diretor da ANP em "Zylbersztajn rompe tendão-de-aquiles em jogo e adia volta à universidade" (Panorâmica, pág. B4, Dinheiro, sábado);

2) Faltou o perfil político (histórico) do prefeito de Belém no pingue-pongue "Ala esquerda acusa Lula de domesticar PT" (pág. A7, domingo);

3) Faltou a idade do veterano César Sampaio, na entrevista com o jogador publicada à pág. D4, Esporte, domingo;

4) Faltou a idade do ministro Paulo Renato no pingue-pongue à pág. C7 (domingo);

5) Faltaram idade e dados sobre a formação da (pouco conhecida) cientista política Eli Diniz na entrevista publicada à pág. A9 (segunda);


Ford ou Volks?

Segundo um leitor, o presidente da Anfavea, morto na sexta, começou carreira na indústria automobilística na Volkswagen, não na Ford, como diz texto "Morre Célio Batalha..." (domingo, pág. B6).

Pretos, pardos...

A arte na capa do caderno "Menos iguais" (FolhaTrainee) traz barra segundo a qual 45,3% da população são brancos. Esse percentual se refere a negros. O dado está invertido. Na mesma arte, a legenda de retângulo preto registra "negros e pardos", quando deveria registrar, de acordo com os textos, "pretos e pardos", já que "negros" não aparece na classificação do IBGE.

Exagero

Tudo bem que seja meritosa a ação da Pastoral da Criança, mas a reportagem "Guerra incentiva 'exportação' de pastoral" (segunda, pág. C3) exagera no tom laudatório.

Depreciação

É depreciativa a legenda da foto (pág. C3, segunda) segundo a qual o frade franciscano "se diz especialista em sexualidade". Por que o "se diz..."? Se o jornal não sabe se ele é mesmo ou não, deveria escrever a legenda de outra forma. Nada na reportagem indica que o personagem em questão seja uma espécie de impostor.

Didatismo de fora

O texto de abre da Folhainvest (segunda) é impenetrável para quem tenha menos de alguns meses de experiência em economia. Faltam didatismo e clareza. Sobram conceitos cifrados.

Garante mesmo?

A reportagem "Gastos com juros serão menores em 2002" (Folhainvest, pág. B6) usa o verbo garantir de modo inadequado, desaconselhado pelo "Manual".

     
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