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24/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

Com exceção do "Estado" ("Antraz é achado em área do correio da Casa Branca"), o qual nisso (opção pelo bioterrorismo como manchete) se alinha com os diários norte-americanos, os principais jornais do país hoje saem com ênfase para notícias militares da guerra. Folha: "Erro em ataque atingiu área civil, admitem EUA"; "Globo": "Bombas destroem bases de Bin Laden no Afeganistão"; "JB" (mais "analítico"): "Três faces da guerra americana".

Nova guerra

1) Mais uma vez aparece no jornal referência ao mar da Arábia (legenda de foto à pág. A13) sem qualquer indicação ao leitor a respeito de onde ele fica. No mapa, à mesma página, não se vê nenhum mar da Arábia;
2) Padronização: nesse mapa, a cidade de Charicar (grafia conforme o texto "Helicóptero dos EUA é atacado no Paquistão") aparece como Charikar;
3) Louvável a idéia do quadro "A guerra de informações" (pág. A13). O ideal seria mantê-lo, se possível, diariamente, com atualizações. Poderá, se bem trabalhado e mantido, transformar-se num símbolo de uma cobertura de guerra que ao menos procura fugir da parcialidade;
4) O texto "Para EUA, célula terrorista alemã ajudou a planejar atentados" (pág. A14) dá de barato que os nomes ali mencionados sejam mesmo de sequestradores dos aviões usados em 11 de setembro ou de cúmplices. Não dá para cravar, ainda. Por enquanto, são "supostos", ou apontados como responsáveis pelos EUA;
5) Parece-me bem desinteressante, para o caderno, hoje, a entrevista publicada à pág. A17 com o pensador francês Legendre. Fora de contexto. Não entendi por que tanto espaço para ela.

Primeira Página
Ficou solta na capa a arte "Como estão os salários dos professores". Existe uma remissão para a página C-1, mas isso não elimina a necessidade de que houvesse ao menos algum texto noticioso/explicativo sobre ela.

A onda de Tasso
Um detalhe sobre o evento de segunda-feira que inaugurou em São Paulo a campanha do governador cearense: segundo reportagem à página A6, seu discurso/palestra durou 27 minutos. Já a coluna Elio Gaspari (mesma página) diz que Tasso "falou por pouco mais de meia hora". O dólar não vai subir por causa disso, mas, afinal, trata-se de um jornal, não dois.

Vai mesmo?
O jornal não deveria repetir erros do passado. Uma coisa é Paulo Maluf dizer que vai fazer alguma coisa, outra é ele fazê-la, efetivamente. O que, aliás, não vale apenas para o ex-prefeito. Por isso, mesmo que a promessa se confirme no futuro, está errado o título "Maluf vai processar delegado que o conduziu à força à PF" (Brasil, pág. A8) e seu respectivo lide. Como saber se ele vai mesmo?

Sem motivo
A retranca "Justiça permite que Tereza Grossi reassuma cargo de diretoria do BC" (Brasil, pág. A8) não informa o motivo pelo qual essa decisão e a da suspensão da quebra de sigilos foram tomadas. Faltam provas? Há erro formal?

Novo demônio
A nova figura no cenário da lama nacional é Alexandre Paes dos Santos, "o maior lobista de Brasília" (Panorâmica, pág. A8), realçado pelo caso Saúde/Novartis. De onde vem esse sujeito? Qual é o seu perfil?

Dimensões
Brasil e Argentina tentam fechar uma lista de 8.200 itens "sensíveis" para negociar (via Mercosul) com a União Européia, informa a reportagem "Brasil e Argentina não chegam a acordo sobre redução de tarifas", Dinheiro, pág. B5. O mesmo texto lembra que em junho a UE fizera proposta envolvendo 90% da pauta de comércio entre os dois blocos. A dúvida: qual porcentagem dessa pauta esses 8.200 itens significam? Estão longe ou perto dos 90%? Quais são, portanto, dentre outros pontos, claro, as "divergências" entre os blocos nesse caso de comércio internacional? Não está claro.

O pessimismo da Folha
De acordo com a reportagem (e respectiva arte) "Brasil cresce apenas 1% em 2001, segundo previsão do Banco Mundial" (Dinheiro, pág. B9), a projeção do Bird é de que o país irá crescer 2% em 2002. Com base na mesma fonte, o "Globo" fala em 3,5%. O mais provável parece ser o que afirmam "Valor", "JB" e "Estado". O Bird, segundo esses jornais, prevê crescimento entre 2% e 3,5% para 2002. Se for isso mesmo, a opção da Folha pelos 2% é arbitrária e joga lenha na fogueira daqueles que consideram o jornal um órgão sempre pessimista. Pior do que isso: está-se dando ao leitor uma informação deturpada.

Petroleiros
As greves de petroleiros (reportagem da página B10) têm tradição de forte conteúdo político. Nesse sentido, é importante deixar sempre claro para o leitor quais "tendências" seguem as entidades que dirigem o movimento. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) é ligada à CUT? À Força Sindical? A nenhuma delas? O jornal não informa.

Voto na USP
Não dá para saber, a partir de "Primeiro turno tira um da disputa hoje" (Cotidiano, pág. C4), como são formados o colegiado de 1.500 pessoas e o "coleginho" de 267 votantes que definem os primeiros nomes da eleição para reitor da USP. O que são "congregações", cujos representantes, se entendi bem, formariam esse colegiado? A eleição indireta, na USP, é polêmica. Quanto mais clareza, melhor.

Outro lado
Faltou o "outro lado" da polícia (ou do governo) na retranca "Falta velocidade de reação, diz ex-secretário" (Cotidiano, pág. C6), na qual Eduardo Muylaert diz que a polícia "só reage depois da gritaria".

Garrincha
Tudo bem que o jogador seja figura histórica muito conhecida, mas faltou ao menos colocar entre parênteses os seus anos de nascimento e morte em "Disputa sobre Garrincha ganha dois novos recursos na Justiça" (pág. C8).

Notas?
Diluir uma reportagem em duas, três, até quatro notas nos "painéis" do jornal, ainda vai. Mas o Painel FC hoje exagerou. São nove notas (todo o módulo da esquerda) em continuidade. Creio que isso tira sabor e quebra as características desse tipo de coluna.

Didatismo
A retranca "Guga faz estréia na Suíça aliviado" (pág. D4) afirma, a certa altura, que a série principal da ATP "não engloba challengers". O que vem a ser isso? Não há explicação.


     
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