Ombudsman Folha   Folha Online
 
25/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

Folha ("FMI aborta negociação com Argentina") e "JB" ("Um milhão de mutuários em risco") sinalizam, com suas capas de hoje, que começa a chegar o momento de reequilibrar as prioridades, no aguardo de informações de primazia inquestionável sobre a "nova guerra" para que este tema volte a ser manchete. "Estado" ("Câmara dos EUA aprova pacote de US$ 100 bilhões") e "Globo" ("Talibãs usam civis como escudos contra bombas") mantêm o conflito como notícia principal hoje.

Nova guerra
1) Onde está o correspondente da Folha na região do conflito? Sumiu das páginas do jornal nos últimos dias. O concorrente local continua ali. Faz diferença para a cobertura;
2) Não é prioridade do ombudsman procurar erros formais no jornal, mas chama demais a atenção a retranca "Foz quer apoio contra denúncias infundadas" (Mundo, pág. A14), que traz logo no lide um "haja" em vez de um "aja". É vergonhoso para a Folha. O mesmo texto traz também um "pastel" na segunda linha do quarto parágrafo;

3) A reportagem "ONU critica ataque em aldeia" (pág. A15) suscita uma importante discussão e mostra como o jornal está vulnerável a inclinações e parcialidade, até mesmo involuntárias, nessa cobertura. A edição desse texto é, digamos, antiamericana. Só de passagem, em seu décimo parágrafo, sem nem mesmo um intertítulo, o texto menciona a informação de que o Taleban estaria usando civis como "escudo" (manchete do "Globo"). A informação merecia retranca à parte ou, no mínimo, presença na sobrelinha da reportagem. Tal como está, a Folha "esconde" o assunto;
4) Outra subestimação se configura no texto "Aliança fala em ganho territorial" (mesma página), o qual "esconde" no pé a informação de que oficiais americanos acreditam que, ao contrário do que se tem dito, o inverno poderá ajudar as forças americanas no Afeganistão;
5) Pertinente e esclarecedor o mapa da Cisjordânia publicado à pág. A16. Faltou apenas incluir dados de dimensão (área), informação relevante para entender a temperatura e a densidade dos confrontos. A Cisjordânia, salvo engano, é menor do que a Grande São Paulo...
6) Falha a Primeira Página ao não trazer a notícia da aprovação, pela Câmara, do pacote de US$ 100 bi para a economia americana;
7) Não vi na Folha a notícia da queda de uma fachada de um prédio em NY que matou pelo menos quatro pessoas. Nas atuais circunstâncias, é uma informação bem relevante;
8) Registro para a curiosa retranca do "Globo" com o perfil do suposto intérprete taleban, aquele de tapa-olho, presença permanente ao lado do embaixador da milícia no Paquistão;
9) Segundo a "Reuters", o governo francês proibiu um serviço de imagens por satélite de vender à mídia fotos do Afeganistão. Chirac pode ainda não ter enviado tropas, mas está atento como aliado de Bush.

População
A retranca "200 podem ter morrido em massacre" (pág. A17) afirma que a Nigéria tem 12 milhões de habitantes. O país tem no mínimo 115 milhões de habitantes.

Suassuna
O jornal deve ao leitor o perfil daquele que será, segundo o noticiário de hoje, o novo ministro da Integração Nacional.

O jogo de FHC
Segundo a retranca "Planalto troca ministros para tentar barrar Itamar" (Brasil, pág. A4), a estratégia prioritária do Planalto é impedir que a candidatura do governador mineiro deslanche. É curioso que uma reportagem no "Estado" ("Agora, Planalto quer incentivar Itamar") e uma nota na coluna Mônica Bergamo ("Dois menos dois") apontem exatamente para a direção inversa. Difícil saber o que está correto. Mas que o leitor tem o direito de ficar confuso, isso ele tem.

EJ
Faltou lembrar no material de hoje sobre o caso EJ ("Comissão arquiva investigações sobre Eduardo Jorge", pág. A5) que o ex-secretário-geral esteve com FHC poucas semanas atrás. Salvo erro de memória, já estava inclusive vago o ministério da Integração Nacional.

Papel do jornal
A Folha cumpriria melhor o seu papel se desse ao leitor alguma noção comparativa em relação ao discurso do presidente ("FHC condena hegemonia norte-americana", pág. A9). As palavras de FHC são fortes e claras, contundentes. Mas terá sido essa a primeira vez que ele utiliza esse tom? Cabe ao jornal subsidiar o leitor no entendimento desse aspecto. Cada vez mais, são coisas desse tipo que poderão diferenciá-lo de TV, rádio, internet etc.

Lacunas da lama
Ao menos três importantes informações faltaram no jornal hoje:
1) A Justiça bloqueou ontem a aposentadoria de Lalau;
2) O TCU bloqueou ontem bens da OAS no caso do aeroporto de Salvador;
3) A Justiça autorizou ontem a quebra do sigilo telefônico do lobista APS (caso Saúde/Novartis).

Mistura
A retranca "American perde US$ 525 mi no 3o trimestre" (pág. B6) começa dizendo que a American Airlines "anunciou ontem o tamanho do estrago causado pelos atentados terroristas...". Ora, na verdade, o resultado é do trimestre julho-agosto-setembro. Portanto, só pega 19 dias da "nova guerra". O lide só se justificaria (talvez) se o texto mostrasse o quanto esses dias pesaram no conjunto.

IPTU e a perda
Texto e sobrelinha de "Marta fixará teto para reajuste de IPTU" (capa de Cotidiano) afirmam que, com essa mudança, a Prefeitura perderá R$ 100 mi em 2002. Na verdade, esse montante deixaria de ser arrecadado, como se entende lendo o conjunto. Ninguém pode perder o que não tem.

Sísifo
1) Faltou a idade do homem acusado de usar e-mail da empresa para distribuir fotos pornográficas, em "Seguradora é punida por violação de e-mail" (pág. C5);
2) Faltou a idade do presidente da CBF em "Teixeira fica afastado até o ano que vem" (Esporte, pág. D2).

Outro lado
O texto "Justiça libera sigilos da CBF para o Ministério Público" (Esporte, pág. D2) traz em seu 14o parágrafo informação de que o advogado da CBF informou ter obtido ontem à noite nova liminar que contraria a decisão registrada no título. Ora, essa informação deveria, no mínimo, estar na sobrelinha, ou logo após o lide.

Didatismo
1) Não dá para entender o que significa na prática "direito de retaliação comercial" (Brasil pode voltar à OMC para pedir nova condenação contra o Canadá", Dinheiro, pág. B3). Como isso se dá, ainda mais havendo um número/limite preestabelecido para essa retaliação? Não custa explicar;
2) Também não custava informar qual é a atual taxa de juros anual dos EUA na retranca "Ataques paralisaram economia, diz Fed" (pág. B6), em cujo pé se diz que ela (taxa) está no nível mais baixo das últimas quatro décadas.

     
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