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26/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

Em dia relativamente fraco para manchetes, não sobrou outra coisa que não fosse a "nova guerra". Pode-se dizer que, nesse aspecto, o conflito "facilita" um tanto a vida dos editores das capas dos jornais. Se não há nada de verdadeiramente relevante, vamos mesmo com a guerra. Folha: "Achar Bin Laden é difícil, dizem EUA"; "Globo": "Israel cede e decide se retirar de áreas palestinas"; "JB": "Terror alterou antraz para multiplicar mortes"; "Estado": "Taleban distribui armas entre civis e convoca jovens".

Nova guerra

1) Os cadernos sobre o assunto, hoje, bastante ralos em termos de conteúdo, refletem que começam a se tornar mais raras e de apuração ainda mais difícil as notícias sobre a "nova guerra". O que realmente está acontecendo na desolação do território afegão, ninguém sabe. Temo que comece a ocorrer muita "encheção de linguiça". Vale a pena, creio, verificar até que ponto a Folha já não o está fazendo. A entrevista do secretário de Defesa, Rumsfeld, não merecia uma página inteira. O essencial do que ele disse já consta do próprio abre do caderno;
2) Algumas informações relevantes que não vi na Folha hoje: um ex-oficial do Taleban afirmou ao "Guardian" que está havendo deserção significativa nas fileiras da milícia; ao mesmo tempo, ela estaria armando jovens e civis para o combate (manchete do "Estado", com material de seu enviado especial); segundo o "New York Times", a maioria absoluta dos sequestradores seriam sauditas, o que deve complicar a relação entre os EUA e a Arábia Saudita.

A onda de Tasso
A ofensiva do governador cearense em busca da candidatura a presidente da República foi tão forte na semana que já causa impacto no texto do jornal. A retranca "Assembléia cearense vai instalar CPI do BEC" (Brasil, pág. A7) já a considera um fato consumado. "A tensão provocada pela candidatura de Tasso à Presidência...", diz um trecho. "Os deputados do PPS estão descontentes com a candidatura de Tasso...", afirma outro. Devagar com o andor.

Visão restrita
A não ser por um registro indireto no Painel, o jornal não noticiou a posse do suplente de Jader Barbalho no Senado ontem. Obviamente, também não conseguiu relacionar o evento à votação do Conselho de Ética que decidiu não abrir inquérito por falta de decoro contra o senador Luiz Otávio (noticiada em Panorâmica à pág. A8). Fernando Ribeiro, o novo parlamentar, poderá ser o primeiro beneficiado pela jurisprudência dessa decisão, que se baseou no fato de que as irregularidades cometidas por Luiz Otávio teriam ocorrido antes de ele ser parlamentar.

EJ, Suassuna, FHC
Crescem os sinais, inclusive no noticiário de hoje, de que a nomeação de Ney Suassuna para o Ministério da Integração Nacional teria feito parte de um acordo para o arquivamento do caso EJ no Senado. Faltou o jornal ouvir o próprio EJ sobre o assunto.

Soletur
1) A notícia da falência da maior operadora do país é de grande impacto. Na cobertura da Folha, há informações para os consumidores, mas falta contundência com relação aos motivos que teriam levado a firma à falência, além dos alegados oficialmente. Segundo o "Globo", o Ministério Público abriu ontem mesmo inquérito para investigar a falência e pediria à delegacia de crimes contra o consumidor abertura de inquérito policial;
2) O jornal do Rio também traz um interessante material didático, mostrando como funciona o sistema de turismo no país (operadoras, agências etc);
3) Na Folha, por falar em didatismo, faltou explicar a diferença entre falência e concordata. Algumas das pessoas ouvidas mencionam esta última modalidade como uma alternativa que teria sido menos custosa para os clientes. Como o assunto atrai leitores de forma mais ampla, todo didatismo será pouco nesse caso.

Vem comigo...
A coluna de Luiz Carlos Mendonça de Barros (Dinheiro, pág. B2), esclarecedora em relação aos passos dados por José Serra, traz ao pé o endereço do site (negócio pessoal) de seu autor. É o mesmo que faz a de Luís Nassif, na página seguinte. Tenho dúvidas quanto à legitimidade jornalística dessa espécie de propaganda indireta. Faria sentido, por exemplo, Rosely Saião ou Contardo Calligaris colocarem ao pé de suas colunas os telefones de seus respectivos consultórios? Creio que não.

Evolução
Para o jornal, não deveria bastar a simples apresentação de dados ou notícias. É preciso ir mais longe. Na reportagem "Comércio internacional vai ficar estagnado em 2001, afirma OMC" (Dinheiro, pág. B4), por exemplo, informa-se que o Brasil ocupa a 28a colocação no ranking de exportadores. Pergunto: o país avançou ou recuou? Qual era a colocação em anos anteriores?

Garante mesmo?
Mais uma vez, apesar do "Manual" e da insistência do "Programa de Qualidade", uma retranca utiliza o verbo garantir de modo inadequado na Folha ("Sindicato acusa risco de vazamento", Dinheiro, pág. B5). E o faz duas vezes: " A Petrobrás garante que não há..."; "A Petrobrás garante que a produção...".

Conversa de taxista
Duas observações sobre o texto "Marta oferece reajuste de 12,7% a taxistas, que ameaçam parar" (capa de Cotidiano):
1) Falta explicar em que cálculos se baseia o sindicato da categoria para pedir uma elevação de 37% na tarifa por quilômetro rodado;
2) Em conversa hoje com um taxista, entendi que o sindicato tem interesse no aumento, entre outros motivos, porque as mensalidades dos sócios são calculadas com base nas tarifas. Para mim, leigo absoluto, foi novidade saber disso. Para a grande parte dos taxistas, segundo esse motorista, o ideal talvez fosse uma redução, para haver mais viagens, e não um aumento. Acho que vale a pena ir atrás dessa história, mostrar quantos dos 33 mil taxistas da cidade são membros do sindicato, as divisões etc.

Padre Marcelo
Por não explicitar qual seria o problema ou a inadequação da iniciativa, o abre da pág. C6 (Cotidiano), "CD do padre Marcelo sorteia visita ao papa", pode muito bem passar por uma propaganda gratuita do produto. Nesse sentido, o mais lógico teria sido um registro em Panorâmica. Vale a pena retomar o caso criticamente.

     
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