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31/10/2001

BERNARDO AJZENBERG

O discurso diplomaticamente contundente de FHC na Assembléia Nacional francesa é manchete na Folha ("Impor políticas é barbárie, diz FHC") e no "Estado" ("Desigualdade tem de ser combatida como o terrorismo, diz FHC") e uma "caixa" no alto da capa do "Globo". O "JB" destacou os impasses crescentes da "nova guerra": "Os guerreiros na encruzilhada". O "Globo" jogou a guerra para baixo da dobra (ousadia!) e manchetou com "STF manda universidade pagar professor em greve".

APS e o outro lado
Positiva a iniciativa de dar um espaço amplo para o outro lado no assunto Saúde/Novartis. A arte "As versões sobre o caso", dentro da reportagem "Lobista vê perseguição da saúde" (Brasil, pág. A6). ), porém, não traz a versão dele de que a agenda apreendida pela PF teria sido adulterada. Como se trata de um quadro que deverá voltar a aparecer (o caso, creio, promete), é importante que essa informação seja nele introduzida.

O papel do jornal
A Folha faz bem em destacar o discurso de FHC na França. Deu a íntegra, editou trechos, mostrou que o presidente foi o 10o chefe de Estado/governo ou de organismo internacional a falar da tribuna do Parlamento francês (Brasil, pág. A8). Mas o jornal não cumpriu seu papel em algo fundamental: por que isso está acontecendo? São os belos olhos de FHC? Que papel o Brasil estaria sendo chamado a ocupar? Qual é o interesse dos franceses? Atrair para a União Européia, contra os EUA, o mercado brasileiro e latino-americano? É preciso ir mais fundo, para que o leitor entenda, afinal, como FHC "chegou lá".

Morto vivo?
A retranca "Lula diz que reverá duas privatizações" (Brasil, pág. A10) informa que em evento no Iedi com o petista estavam, entre outros empresários, "José Roberto Moraes (filho de José Ermírio de Moraes, Votorantim)". É um detalhe, mas não custava escrever que este último, José Ermírio, não vive mais.

Outro lado ausente
Faltou ouvir as organizações de classe dos jornalistas na reportagem "Cai exigência de diploma para função de jornalista" (Brasil, pág. A13). A Fenaj, por exemplo, vai recorrer? Pelo que informa o "Globo", sim.

Nova guerra
1) Segundo o "Washington Post", informações de inteligência indicariam que Bin Laden autorizou suas células a agirem autonomamente, motivo pelo qual o governo norte-americano tem alertado, nos últimos dias, contra eventuais novos ataques terroristas. A Folha toca nisso muito de passagem e genericamente, sem precisão, ao pé da retranca "Bush vai ao beisebol; vice fica escondido" (pág. A16). Clara inversão de valores, a meu ver;
2) A Panorâmica à pág. A17 "Jornalista brasileiro é detido no Irã" afirma que o profissional em questão está preso desde anteontem e que o governo brasileiro "já iniciou consultas para libertá-lo". Reportagem no "JB" informa, porém, que ele (correspondente da "Gazeta do Povo" do PR e colaborador do site "no.com") já está num hotel e em segurança, depois de ter sido interrogado por mais de 30 horas e ter seu material e equipamentos apreendidos;
3) Leio no "Diário de S.Paulo" que um jornal iraquiano do filho de Sadam Hussein publicou ontem em primeira página editorial afirmando que os EUA atacarão o Iraque ainda neste ano. Claro que o editorial não pode ser levado a sério, em si, mas a iniciativa tem significado político e merecia registro. Não vi na Folha.

Ziguezague
O jornal costumava classificar Slobodan Milosevic como ex-ditador iugoslavo. Ontem, porém, chamou-o de ex-presidente. Hoje, retoma o ex-ditador (Panorâmica à pág. A19). Falta rigidez na padronização dessa importante definição.

Investigação versus propaganda
Dias atrás a Folha publicou reportagens mostrando que algumas vendedoras de veículos estavam fazendo promoções "sem juros". Hoje, a reportagem "Carro zero 'sem juros' pode enganar" (Dinheiro, pág. B4) mostra que a coisa não era bem assim. Mas não foi a Folha que fez a descoberta. A investigação foi realizada pela AutoInforme, "agência de informações especializada em veículos". O que isso significa? Significa 1) que dias atrás a Folha acabou fazendo propaganda gratuita, para não dizer enganosa, para as promoções; e 2) que ela deveria ter feito o que essa agência fez, ou seja, ir atrás, apurar, investigar, para transmitir a seus leitores informação correta e completa. Haveria, aí, bem mais jornalismo do que no mero anúncio de que se faziam promoções. Eis uma bela lição.

Coisa rara
A retranca "Pão de Açúcar mantém vendas em alta no ano" (Dinheiro, pág. B4) ressalta o lado positivo (ou menos ruim) dos números divulgados pelo grupo, mostrando que no acumulado do ano a situação é positiva (7,3% de crescimento em "vendas líquidas"), apesar de queda de 4,9% no último trimestre em relação ao anterior. Não vi no jornal a informação que dá o título ao mesmo assunto no "Valor": "Lucro líquido do grupo Pão de Açúcar cai 53,5%", em relação ao mesmo trimestre de 2000. Por que essa omissão? Sou leigo, mas me parece que o correto seria escrever "lucro líquido" e não "venda líquida", como está na Folha. A verificar.

Tortura
A Folha está cobrindo muito mal a questão da tortura no Brasil. Criou-se na sexta-feira um SOS Tortura. Ontem teria sido criada uma comissão especial para investigar denúncias. Trata-se de um assunto que o jornal tradicionalmente cobre bem, mas que está posto de lado, equivocadamente.

Exageros
1) É desproporcional o espaço (uma página inteira, C12) dedicado pelo jornal à contenda entre a Globo e o SBT;
2) O título "Corinthians joga vida na Mercosul" (Esporte, pág. D1) é infeliz. Uma coisa é dizer que a partida é decisiva para o time permanecer vivo no torneio. Outra coisa é dizer, como faz o título (talvez com a intenção de dizer outra coisa), que a vida do time está em jogo na Mercosul, o que obviamente é irreal. A formulação está no mínimo ambígua.

     
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