Ombudsman Folha   Folha Online
 
06/11/2001

BERNARDO AJZENBERG

Raro clima de otimismo toma conta das manchetes dos dois principais diários paulistas hoje. Folha: "Dólar cai a R$ 2,60; Bolsa sobe 6,82%"; "Estado": "Em dia de euforia, Bolsa sobe 6,82% e dólar cai a R$ 2,60". No Rio, o assunto priorizado foi a "nova guerra". "JB": "Guerra põe Brasil sob pressão"; "Globo": "Enfraquecidos, talibãs pedem socorro à ONU". A Folha destaca na capa, corretamente, importante reportagem investigativa sobre "caixa 2" do PFL no PR.



Erramos do Erramos
Está errado o segundo Erramos da edição de hoje. A informação equivocada sobre a morte do ex-ditador Somoza não fora publicada no texto "Conflito Israel-palestinos sacrifica jovens", mas sim em reportagem, claro, sobre as eleições na Nicarágua, no domingo.

Sísifo
1) A nota "Exame de candidato", no Painel (Brasil, pág. A4), sobre check-up que Tasso Jereissati fará, exigia a informação da idade do governador cearense. É uma questão de bom senso;
2) Faltou a idade de Mário Lopes Filho, do comitê financeiro da campanha de Cassio Taniguchi, em entrevista à pág. A7. Esta é, aliás, a única (e pequena) observação que teria a fazer sobre a boa e bem sustentada reportagem investigativa referente ao "caixa 2" do PFL no PR;
3) Faltaram dados básicos de perfil (nacionalidade, idade) no pingue-pongue com o Nobel de Economia Joseph Stiglitz (Dinheiro, pág. B5);
4) Faltou a idade do atacante em "Problema de Ronaldo tem fundo emocional, diz Inter" (Esporte, pág. D2).


Nova guerra
1) O abre do caderno ("EUA atacam Cabul com helicóptero", pág. A11) afirma no lide que a guerra começou no dia 7 de outubro (data do primeiro ataque ao Afeganistão). Na verdade, conforme avaliação do jornal, ela começou em 11 de setembro, dia dos atentados nos EUA (lembra do "Guerra na América"?). Pode parecer detalhe bobo, mas por trás disso há, evidentemente, uma avaliação política. Ao fazer afirmações desse tipo, é preciso ter em conta o valor documental dos textos jornalísticos;
2) Quatro jornais ("JB", "Globo", "Estado" e "Valor") trazem hoje, inclusive com factual, diferentes reportagens sobre eventuais vínculos de Bin Laden ou grupos terroristas no Brasil ou na chamada tríplice fronteira. Destaque para a entrevista do jornal econômico com o biógrafo do terrorista saudita. A Folha, não entendo por qual motivo, está deixando a cobertura desse assunto de lado. Pode sofrer grandes surpresas.

Sem serviço
A reportagem "Maioria não sabe que FGTS terá correção" (Dinheiro, pág. B4) exigia um quadro do tipo "perguntas e respostas", de serviço, sobre como será a reposição das perdas de 89 e 90. É um dos assuntos mais importantes do dia, mexendo com o bolso dos leitores.

Erramos disfarçado
A Panorâmica "Senadora não está sujeita a corte de luz" (Dinheiro, pág. B4) desmente informação publicada pelo jornal na sexta-feira envolvendo senadora do PT. Por que o jornal não publica um Erramos no devido espaço nobre, em vez de esconder o erro ao pé dessa página? Não dá para entender.

Assustador
A gigantesca foto em close de um avestruz na capa de Agrofolha (pág. F1) chega a ser cômica de tão inadequada para o uso e a dimensão que lhe foram dados.

Cuidado
A reportagem "Sem progressividade, IPTU cresce para 81%" (Cotidiano, pág. C3) está correta, em tese, mas embute uma "armadilha". A hipótese, exposta em cálculos pela prefeitura, não leva em conta que há contestação de peso contra a correção média de 22% no valor venal dos imóveis. O cálculo que tem o título como corolário parte do princípio de que essa correção será efetivada. Acho que o texto deveria dar mais destaque a isso. Uma saída teria sido lembrá-lo na sobrelinha do título.

As iniciais, de novo
Uma mulher de 28 anos torturou o filho de 5 anos colocando as mãos do menino sobre uma chama no fogão. Não entendo por que o jornal traz o nome dela apenas com iniciais. O "Diário de S.Paulo" e o "Agora", a meu ver corretamente, publicam o nome todo. Se o jornal assume o ocorrido, como faz o texto, por que essa proteção?

O caso pataxó
1) O caso Escola de Base trouxe inúmeras lições para o jornalismo. Algumas poderiam ser rememoradas na cobertura do caso pataxó agora. Mesmo em proporções e circunstâncias processuais diferentes, há que se tomar mais cuidado no tratamento dado aos acusados no julgamento do caso do índio Galdino. Há que se ouvir mais os argumentos da defesa (que prega morte após lesão e não homicídio doloso) e reproduzi-los para conhecimento do leitor, assim como de familiares dos réus. Caso contrário, como ocorre hoje ("Acusação pede a juíza que deixe o caso pataxó", Cotidiano, pág. C5), o noticiário estará tendencioso;
2) Faltou esclarecer, na reportagem, quem decide qual será o juiz de um tribunal de júri e, portanto, quem decidiria, eventualmente, o afastamento da juíza da presidência do julgamento, conforme apelo da acusação.

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.