Deu unanimidade na escolha de imagens para as capas dos principais jornais hoje: FHC trocando um "hongi" com representante maori da Nova Zelândia e os rostos descobertos de mulheres afegãs durante manifestação em Cabul. Nas manchetes, ao contrário, cada jornal foi para um lado. Folha: "FHC beneficia Serra, afirma Tasso" (opção fraca --ver nota); "Globo": "Acordo põe fim à greve de 105 dias na Previdência"; "JB": "Lucro de bancos dobra na era FH", sem dúvida a mais interessante do dia (ver nota); "Estado": "Taleban tem três dias para se render em reduto do norte".
Confrontação É interessante fazer uma confrontação de manchetes nas edições de hoje.
A Folha saiu com mais um lance retórico na disputa Tasso-Serra pela candidatura tucana à Presidência. O jornal não consegue esconder sua ansiedade no assunto. É notícia, faz parte do jogo, mas nem de longe merecia ser manchete. Aliás, o fato de não haver um "outro lado" de FHC reflete, a meu ver, que nem mesmo a Folha considera verdadeiramente relevantes --a ponto de valer manchete-- as declarações tassistas.
O "Globo" ficou no factual, mas um factual a meu ver importante (a greve do INSS), que a Folha jogou para um pé de página (A6), coerente, diga-se, com o desprezo que dedicou à cobertura desse movimento.
O "Estado expõe uma recaída pró-americana, numa manchete frágil, quase anódina.
Ganha hoje o "JB", que, com base em levantamento exclusivo, mostra uma realidade que muita gente intuía mas que não fora, até o momento, claramente demonstrada: os bancos foram fartamente presenteados na era FHC.
Paulo Renato x FHC/Matus O ministro da Educação diz que não pode obedecer a decisão da Justiça de pagar salários a professores por causa de decreto presidencial que passa ao Planejamento e a FHC a liberação de verba para tanto. Logo, os dois últimos, deduz-se do raciocínio de Paulo Renato, seriam os responsáveis pela crise Judiciário-governo nesse caso. A julgar pela visão do STJ (exposta pelo jornal), FHC e/ou Matus Tavares, na visão de Paulo Renato, estariam, portanto, cometendo improbidade passível de punição. Faltou o jornal explorar esse curto-circuito no texto "Ministro diz que salário não depende dele" (Brasil, pág. A6).
Emergência Até onde sei, tecnicamente pouso de emergência é uma coisa, pouso forçado é outra. O texto "Jato de Garotinho faz pouso forçado" (Brasil, pág. A8) utiliza as duas fórmulas indiscriminadamente. A verificar.
Nova guerra 1) Ao mostrar a reativação de uma sala de cinema na capital afegã, a interessante reportagem "Mulheres fazem manifestação em Cabul" (Mundo, pág. A12) afirma, a certa altura, que o filme exibido ("Elan") tem "enredo confuso". Logo a seguir, diz que a Folha (o repórter) assistiu apenas a um pedaço da fita. Ora, como julgar o filme se só se viu um pedaço? Justamente por esse fato é que, talvez, a impressão tenha sido de um "enredo confuso". Ficou confuso; 2) Não vi na Folha informação, trazida na capa de hoje do "New York Times" e em parte reproduzida no "Globo", de que o número de mortos e desaparecidos no WTC caiu mais uma vez, ficando em torno dos 3.700, podendo cair ainda mais. Diferença significativa em relação aos mais de 6 mil estimados inicialmente.
Números 1) O texto "Argentina diz que está longe do déficit zero" (capa de Dinheiro) afirma que se espera para dezembro um desembolso de US$ 1,3 bi do FMI para o país vizinho. Esse mesmo desembolso é registrado como sendo US$ 1,2 bi (diferença de US$ 100 milhões) na retranca "De la Rúa interfere para FMI enviar nova missão" (mesma página). Qual é o certo? 2) Pelo quadro "Consumidor vai às compras" (Dinheiro, pág. B8), 93,4% dos pesquisados vão comprar produtos eletrônicos a prazo neste fim de ano. Já o texto da reportagem ("Consumidor quer arrumar a casa no Natal") fala em 66,7%, porcentagem que parece bater mais com os dados. Outras duas porcentagens globais que aparecem no quadro sobre móveis e material de construção também parecem equivocadas. No primeiro caso, por exemplo, 49,4% dizem que comprarão utilizando mais de uma forma de pagamento (o que, pressupõe-se, inclui pagamentos à vista). Como é possível que 96,3% estejam afirmando que vão parcelar seus pagamentos? 3) Continua no quadro fixo à pág. B2 (Dinheiro) a informação de que os juros básicos nos EUA são 2,22%, quando, de acordo com o que a Folha vem publicando em reportagens, ele seria 2%. Por que a diferença?
Desagravo? A reportagem "ONGs pedem demissão de secretário" e seu "outro lado" (Cotidiano, pág. C6) usam três vezes a expressão "moção de desagravo" como se fosse algo negativo, acusatório em relação a seu alvo --no caso, o secretário Tripoli (Meio Ambiente). Pelo dicionário, desagravo (um ato de desagravo, por exemplo) é justamente o contrário. É ação de homenagem, que busca desagravar, retrucar uma afronta etc. Não é assim?
Acabamento 1) O texto "Chuva mata nove pessoas no ES" (Cotidiano, pág. C6, edição SP) abre intertítulo para "Ribeirão", sem especificar de que cidade se trata, em qual Estado fica. Supõe-se que seja Ribeirão Preto (SP), claro. Mas nenhum leitor é obrigado a sabê-lo; 2) Ao pé da reportagem de capa de Cotidiano há uma remissão para a pág. C4, sendo que, nesta, nada sobre o assunto anterior está presente; 3) Não há qualquer histórico ou contextualização sobre o caso Abravanel na reportagem "Alckmin e Petrelluzzi depõem" (Cotidiano, pág. C7). Ele se torna ininteligível para qualquer pessoa que não acompanhou o caso; 4) O texto-legenda "Abraço" (pág. D4, Esporte), no qual Rivaldo comemora um gol, não diz qual é o time dele. Fala apenas que "a equipe espanhola venceu (o Liverpool) por 3 a 1". Que equipe espanhola é essa?
Anúncio Pelo segundo dia consecutivo sai anúncio de página inteira da Federação Paulista de Futebol em apoio à gestão Farah (Cotidiano, pág. C10). Não vale reportagem? O que está havendo?
Denúncia O texto "Personalidades evitam citar 'astro' em NY" (Esporte, pág. D1) afirma que a Folha fez uma denúncia (caso Pelé-Unicef). Na verdade, o jornal não faz denúncia. Ele fez, sim, reportagem investigativa, com base em documentos. Certo?
Gloria Trevi Li no "Globo" que a cantora mexicana admite em carta ao STF que foi estuprada na cadeia. Não é uma informação qualquer. A Folha continua a dar mal este caso.
Sísifo 1) Faltou o perfil político-partidário, idade e cidade de nascimento do novo secretário dos direitos humanos, em "Paulo Sérgio Pinheiro assume secretaria" (Brasil, pág. A7); 2) Faltou a idade do juiz aposentado em "STJ nega prisão domiciliar a juiz Nicolau" (Brasil, pág. A7); 3) Faltou a idade do quadrinista Lourenço Mutarelli, em entrevista na contracapa da Ilustrada.
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