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30/11/2001

BERNARDO AJZENBERG

O contraste de enfoques entre as manchetes de hoje da Folha ("Expansão econômica é a menor em 2 anos") e do "Estado" ("PIB surpreende com crescimento no 3o trimestre") fala por si a respeito de como, no jornalismo, o "fator humano" --para não dizer a disposição política--, costuma ter preponderância nas opções editoriais.
O "Globo" investe na questão da saúde, naquilo que parece ser mais um passo no sentido de uma campanha pouco sutil em favor da candidatura Serra: "Governo se prepara para distribuir remédio de graça". O "JB" sai com manchete regional: "Polícia lança código para disciplinar verão carioca".

Primeira Página

O título da chamada "Menina morre em espera de matrícula" não é mentiroso, mas está muito próximo do sensacionalismo. Dá a entender que a pobre menina atropelada estava na fila, quando, na verdade, houve um acidente quando ela atravessou a rua. Insinuar que este se deu por causa da fila, no caso, parece exagero.

PT gaúcho e o bicho

Na reportagem "Oposição acusa doação de empreiteiro a PT" (Brasil, pág. A11), há muita obscuridade. Não fica clara qual é, afinal, a irregularidade contida nessa doação. O documento exposto, por outro lado, não prova nada (não mostra o recebimento dos tais R$ 30 mil, apenas a sua saída). Seja por imprecisão, seja por falta de elementos, o fato é que a reportagem dá a impressão de algo forçado.

Dossiê Caribe

O "Globo" traz hoje reportagem que joga água no moinho da idéia de sepultamento do caso Caribe. Creio que a Folha deveria recuperar os dados, passar a limpo, revisitar o caso etc. Está mais do que na hora, mesmo que isso possa soar como atitude pró-Serra (envolvido no assunto). Faz parte do jogo.

Nova guerra

1) A retranca "Mulá culpa Israel e Índia pelo 11 de setembro" (Mundo, pág. A12) traz importante furo, embora as declarações do líder do Taleban, em si, pareçam, a meu ver, tresloucadas. O mais interessante, a meu ver, seria mostrar como o jornal polonês ("Wprost") que trouxe a entrevista (reproduzida depois por uma semanário francês) a obteve. Vale a pena ir atrás;
2) Claramente subestimada, na edição, que a jogou numa pequena Panorâmica à pág. A14, a declaração do secretário Colin Powell (Estado) negando ofensiva ao Iraque, ao menos a curto prazo. Pode indicar recrudescimento de cisões dentro do governo dos EUA.

Recessões e quebras

Pequenina Panorâmica na pág. B2 (Dinheiro) registra que "PIB da zona do euro cresce 0,1% no 3o trimestre". Essa informação que merecia bem mais destaque e edição conjunta com o material sobre o crescimento parco no Brasil e a recessão dos EUA. O mesmo, creio, vale para a notícia da concordata da Enron, um dos maiores grupos econômicos do mundo, destaque, diga-se, no "Wall Street Journal".

Didatismo

1) Não dá para entender o que quer dizer índex na retranca "Piva quer índex para exportador" (Dinheiro, pág. B3);
2) Do mesmo modo, fica reservada aos especialistas a compreensão do parágrafo da reportagem "Governo reativa seguro contra calote" (mesma página) que diz: "De acordo com Giannetti, o que importa é a percepção do mercado de que o superávit comercial brasileiro está reduzindo o déficit em conta corrente. Assim, melhora a percepção de risco do país". Uau!

Sísifo

1) Faltou a idade da apresentadora de TV na Panorâmica "Luciana Gimenez volta ao hospital" (Cotidiano, pág. C6);
2) A mesma informação está ausente na entrevista pingue-pongue com o técnico da seleção brasileira, em "Scolari vê 'sorteio viciado' e já aceita seleção na Coréia" (Esporte, pág. D2).

     
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