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03/12/2001

BERNARDO AJZENBERG

Em sinal evidente de provincianismo, a Folha e o "Globo" dão hoje manchete para uma não-notícia sobre Argentina ("Argentina teme corrida a bancos hoje" e "Argentina: Brasil teme efeito sobre o comércio", respectivamente), quando a notícia estava, claramente, no Oriente Médio, não só pelo fato em si mas por suas consequências ali e na "nova guerra". "JB" ("Atentados matam 28 em Israel") e "Estado" ("Onda terrorista mata 28 e fere 200 em Israel") acertam na escolha do tema principal. No fim de semana, os destaques foram o sorteio das chaves da Copa do Mundo e a crise no país vizinho. Vale registrar algo incomum: a revista Veja dá como capa reportagem que teve origem na Folha. Mérito do jornalismo investigativo.

Edição de sábado, 1 de dezembro

Mortes por Aids
Texto-legenda na Primeira Página informa que são 150 mil os mortos desde que a doença apareceu no país. Bate com a reportagem que abre a página C3. A retranca "SP registrou quase a metade dos casos do país" (mesma página), afirma, porém, que são 105 mil mortes. Qual é o certo?

Plano Serra
Poucas vezes as reportagens sobre sucessão conseguem sair das frases retóricas e ataques feitos para ocupar espaço na mídia. Desta vez, diante de oportunidade para algo diferente, o jornal não soube aproveitar. Acabam ficando confusas as propostas do presidenciável do PSDB em "Serra expõe a exportadores plano econômico para o país" (A4). Claro que o título é um exagero, pois não se trata de um plano completo, mas o importante é que não fica claro quais são afinal os oito pontos "programáticos" que o texto anuncia. Uma arte resolvia.


George Harrison
1) Sam Brown é uma cantora, não um cantor ("Músico compõe metáfora do fim", pág. A23);

2) A música que inspirou "My Sweet Lord" foi "He's so fine", não "She's so Fine" (cronologia da página A24);

3) O filme do Monty Python que ele ajudou a produzir chama-se "A Vida de Brian", não "A História de Brian" (mesma cronologia).

Venezuela
O noticiário sobre a crise política do país vizinho começa a esquentar. No texto "'Não me porão contra a parede', diz Chávez" (Mundo, pág. A21), faltou informar quais foram as principais dentre as 49 leis baixadas pelo presidente recentemente e que causaram a atual fricção. Apenas duas são explicitamente mencionadas.

Nebulosa
A arte "Verdades e mentiras sobre a maconha" (Cotidiano, pág. C6) é impenetrável para leitores jovens. De estilo sinuoso, seu texto mais confunde do que esclarece. O ideal, no caso dessa reportagem cujo público potencial certamente inclui colegiais, seria fazer algo mais simples, inclusive em termos visuais.

Sísifo
Faltou a idade do filho de Pelé em "Edinho vira o diretor da agência do pai" (Esporte, pág. D4).

Edição de domingo, 2 de dezembro

E a greve?
Na reportagem "TJ faz eleição polarizada por movimento do 'baixo clero'" (Brasil, pág. A5), nenhuma menção se faz à greve de quase três meses ocorrida no Judiciário e que, segundo a própria Folha mostrou em outros momentos, teve relação com a campanha eleitoral no Tribunal de Justiça. Foi um movimento de inúmeras consequências, que não deveria ter sido ignorado.

Inércia
Inexpressiva a foto do texto-legenda "Aniversário" (Brasil, pág. A5). Dá a impressão de que entrou no jornal para cumprir agenda, só porque algo tinha de ser dado sobre a preparação da festa na casa de Marta Suplicy. Sobre esta, aliás, os dados publicados hoje (segunda-feira), pág. C7, mostram que, na verdade, não merecia muito mais do que duas notas no Painel ou na coluna Mônica Bergamo. O evento foi bem menor do que o alardeado.

Petista abastado?
O título "Petista está mais velho, rico e moderado" (Brasil, pág. A11) não condiz com o texto da reportagem. Esta não diz que o petista está rico, nem sequer usa a palavra, mas sim "mais bem remunerado", o que é, claro, diferente. Tal título, mais uma vez, joga água no moinho daqueles que vêem na Folha tendência a achincalhar o PT.

Morde e assopra
Está elucidativa a entrevista com a governadora Roseana Sarney (Brasil, pág. A13), mas a reportagem na página ao lado (A12), embora correta, deixa a desejar em termos de contundência para quem podia esperar da Folha algo mais agudo "contra" a gestão da pefelista no MA. A reportagem de hoje (segunda), sobre trabalho infantil, não desfaz essa impressão. Nenhuma das duas, na verdade, atinge diretamente a presidenciável do PFL. Aguardam-se outras...

Universidadfes particulares
1) A reportagem que começa na capa de Cotidiano sobre as faculdades particulares traz perfis críticos do grupo Objetivo/Unip e Estácio de Sá. Já o perfil do grupo Ulbra (RS), na pág. C3, é superficial, quase de "release". Mais adequado teria sido mostrar ao menos alguns dos problemas que essa universidade enfrenta (alguém tem dúvida de que eles existem?);

2) Na arte da pág. C3, faltou um número em barra sobre as notas da USP no provão;

3) Senti falta de números relativos a faturamento, balanços etc, no caso das instituições privadas.

Idade
Detalhe na interessante reportagem de capa da Revista: atribui duas idades diferentes (37 e 38 anos) ao mesmo personagem, no caso o auditor Jacques Leventhal. Qual é a certa? Por falar em idade, faltou a da psicóloga social Edna Roland, em pingue-pongue sobre racismo (A26).

CLT e os paulistanos
Parece-me distorção jornalística o enfoque dado a pesquisa Datafolha e traduzido no título "Paulistano está dividido sobre mudanças na CLT" (Dinheiro, pág. B3). O lide é que 61% simplesmente ignoram que mudanças são propostas. A divisão ocorre apenas dentre os que conhecem o projeto de lei do governo. Além disso, como se destaca na arte, 52% do total são favoráveis (conhecendo ou não a proposta). Parece que o jornal quis puxar a sardinha para o seu lado.

Edição de segunda-feira, 3 de dezembro

Imbroglio na Saúde
Duas cartas no Painel do Leitor hoje mostram que a reportagem de sábado sobre supostas irregularidades em definições sobre genéricos merecia, no mínimo, um texto de esclarecimento nesta edição. O Erramos, hoje, aborda apenas um detalhe formal, mas o conteúdo global está questionado nas cartas, sem que o jornal se tenha posicionado.

Qual foi o problema?
A retranca "Painel está apto para funcionar novamente" (Brasil, pág. A4) diz que a pane na votação da Câmara semana passada decorreu de "procedimentos fora da rotina", não de "falha operacional". O que significa? Qual é a diferença? Não dá para entender.

FOL de fora
A boa reportagem de hoje sobre o caso Taniguchi (Brasil, pág. A6) remete, no pé, à página do autor da reportagem na internet, caso alguém queira conhecer o conjunto dos documentos a que ela se refere. Tudo bem. Mas por que esses documentos não estão também na Folha Online?

Folhateen mirrado
Talvez por causa da economia de papel, parece cada vez mais desproporcional o peso das seções/colunas fixas no suplemento. O espaço para reportagens se reduz. Parece-me uma receita do tipo "tiro no pé", caso o jornal tenha como preocupação a conquista de um público jovem -algo que, evidentemente, deveria ter.

Motim versus massacre
A retranca "Corpo de agente chega aos EUA" (Mundo, pág. A12) descarta indiretamente a hipótese de massacre no caso da mortes de centenas de prisioneiros dias atrás em forte próximo a Mazar-e-Sharif. Trata-se de um evento ainda não esclarecido. O jornal não deveria embarcar numa versão
acabada.

Falência ou concordata?
O título "Enron tem pedido histórico de falência" (Brasil, pág. A13) parece errado. A gigante americana teria pedido, efetivamente, concordata, não falência. É o que se depreende do noticiário. A verificar.

Táxi sobe quanto?
A Folha dá que a corrida de táxi ficou 16,5% mais cara hoje. O "Estado" fala em 15,8%. Qual é o certo?

     
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